Guiné-Bissau. Não morre, desmaia só.
Falta água, falta luz, está cheia de pouco, cheia de fome e de pó.
Vive devagar, uma hora de cada vez. O tempo entra com cuidado, nunca sabe o que o espera. Não há certezas, ajustam-se necessidades aos recursos, tempera-se com um crioulo bem disposto e repete-se: repetir, repetir e repetir, uma e outra vez. Repetem-se erros e as cobardias, repetem-se as mulheres e duplicam-se as famílias. Repetem-se as palavras: “bom dia, bom dia”, “obrigado, obrigado”, diz-se “con concon” a servir de campainha. Desdobram-se as etnias e tradições, convivem os antigos canibais e as crenças contemporâneas de matar quem muito se gosta, como forma de guardar para todo o sempre um espírito amigo.

Está cheia de tudo. Vive em grupo, para a família, para os amigos, para os vizinhos. Os corpos fraquinhos têm barrigas salientes, sai-lhes para fora o umbigo, é a constatação clínica de uma cultura que olha de frente a comunidade e vira as costas ao indivíduo. As mulheres equilibram na ponta do nariz a casa e a família, levam às costas os petizes, na mão direita a água e na mão esquerda o carvão.
Tem uma geografia espalmada esta terra, recebe luz sem pudor: casa bem, com noites de lua cheia. Uma das 365 noites é especial, nas ilhas, depois de fanarem os rapazes no mato, as famílias recolhem a casa e ninguém pode sair. Contam os antigos que o espírito do mato vai sair numa canoa e levar com ele quem encontrar, para não mais voltar. São canoas especiais estas pequenas pirogas escavadas de um poilão, árvore secular, grossa, alta, cheia de corpo e cheia de vida. Árvore sagrada que impõe respeito e faz parir estórias. Não é cortada sem permissão do régulo ou do chefe da tabanca, homem grande que autoriza o corte se não houverem espíritos a morar ali.
Os meios são escassos, a Internet cansa-se depressa, a rede de telemóvel também. A máquina de escrever marca pontos e os meninos são a boca que mais se usa para levar recados daqui para ali. O saldo para os telemóveis vem em raspadinhas, e funciona bem por sinal. A novela do Roque Santeiro ouve-se pelas casas que têm televisão, nos bairros que têm luz. Do nada se faz a festa. Está cheia de música e de gente dançante. Em casa, na rua, na discoteca, dança-se em todo o lado:
“Abaixa, abaixa, levanta o vestido...”, pede o som.
“Curva-curva” e faz bebés prematuros.

