"Temos de vir a este fim de mundo para encontrar as coisas mais antigas e mais arcaicas e também as mais actualizadas, as mais extraordinárias coisas com que sonhei há 30 ou 40 anos e que agora estão a tornar-se realidade no solo de África. Guedes considera que a pintura e escultura não são somente artes de prazer mas deviam ser aplicadas às casas, à vida social, à vida espiritual, à vida da imaginação… Construiu casas extraordinárias em Moçambique, uma arquitectura de imaginação e estou muito feliz por estar aqui a ver realizações que, não podendo ser vistas no Ocidente, aparecem num novo mundo que está em estado de fermentação – África."
Tristan Tzara – Comunicação no 1º Congresso Internacional de Cultura Africana, Salisbury/Harare, Rodésia, 1962
A CASA VERMELHA
E Tzara não tinha ainda visto a casa geminada, modular, enriquecida com algumas complicações, algumas confusões e um certo número de erros que Pancho Guedes haveria de projectar e ver construída seis anos após. Nada melhor a descreve que as palavras do seu criador, retiradas de uma Revista de há 27 anos. "As duas casas são simétricas a partir de uma parede central – cada uma a imagem reflectida da outra, com excepção de algumas diferenças sem importância. As duas fachadas principais são também duas versões reflectidas uma da outra e ambas se fragmentam visualmente em dois sectores. Cada uma das duas fachadas laterais é simétrica e forma uma entidade perturbada apenas por algumas duplicações. A Casa Vermelha aparenta ser fortificada e as suas paredes parecem ser muito grossas. Esta aparência de espessura resulta do uso das paredes exteriores e algumas das interiores como paredes com armários, nichos e recantos de luz, com janelas e portas instaladas pela face interior. As aberturas são na maioria protegidas por caixilhos rectangulares com persianas que acabam um pouco abaixo da base dos arcos achatados.. estas grades dão no interior das casas um carácter introvertido e uma luz coada e difusa. Quando o sol bate na fachada e algumas das persianas estão abertas, os interiores são marcados por fortes e estreitos raios de luz. Os primeiros dois andares integram volumes duplos. Estes espaços são uma versão distorcida daquele famoso corte de Corbusier na Maison Citrohan dos tempos heróicos do movimento moderno, que é uma obsessão que se vai repetindo. As fachadas são simultaneamente demasiado pequenas e demasiado grandes. Cada fachada é uma grande superfície plana com as aberturas recortadas e ponteada pelas bicas de água. A maior parte das aberturas parecer ter a altura das portas vulgares; são, na realidade, um pouco mais pequenas. As duas aberturas maiores em cada fachada principal, quando lidas como portas, afastam a primeira leitura das outras aberturas como sendo do tamanho de portas, tornando-as janelas. Olhando, pela segunda vez, verifica-se que a casa tem metade do tamanho, o que é impossível quando comparadas com as casas vizinhas, ficando assim anulada esta segunda leitura. À terceira vez, aceitam-se ambas as leituras simultaneamente, mas com reservas. A Casa Vermelha é, com efeito, demasiado grande e demasiado pequena. Os telhados superiores são como duas cunhas, uma delas cerca de quatro vezes maior que a outra e separadas por uma larga fenda. A Casa Vermelha é trespassada por quatro chaminés candelábricas em posições transitórias. As quatro chaminés demarcam um único território para si próprias e ajudam também a perturbar a escala das fachadas."
É este arquitecto mecenas e visionário que convida um jovem ainda desconhecido a pintar para si um quadro por mês. Que o convida para viver em sua casa e a quem incentiva a auto-descoberta no interior do Moçambique ancestral, íntimo e seminal. É este Homem arquitecto que apoia a realização da primeira exposição individual do pintor a que chama "O pintor completo". O pintor era, tão só, Malangatana. O tempo era outro, aquele em que a arte se desenvolvia e acontecia com bolsas aos artistas, que lhes permitiam viajar - dentro de si e para fora dos seus universos e dos seus bairros e países - e investimentos de mecenas. O tempo em que a arte atravessava as fronteiras políticas e se fazia como Tzara a preconizara. O tempo em que longe da guerra do Mundo, o Cabaret Voltaire era em todo o Mundo. Quando Tzara se apresentou pela primeira vez no Cabaret Voltaire, judeu romeno que era, livre na neutra Zurique da doente fobia dos políticos, tinha dezanove anos e do monóculo que usava à dândi burguês via-se reacção e vigor.
Dada era tudo e não era nada. Fazia sentido, mas esse sentido deixava de ser Dada. Não era para ser percebido, descodificado e logo a seguir catalogado: era puro prazer da imaginação. Era livre e quase libertário. Como Tzara dizia no manifesto de 1918: "Estamos fartos das ideias cubistas e futuristas: laboratórios de ideias formais. Ou será que se faz arte para ganhar dinheiro e para fazer festas aos simpáticos burgueses?". Quando Tzara falava de Pancho Guedes falava no final da vida naquela que, provavelmente, foi a sua última viagem para fora da Europa neutra, como quem diz quase cinzenta, e um ano antes de morrer. Via acontecer uma nova forma de fazer arte, que o apaixonava, de novo. Mal sabia que cerca de 20 anos mais tarde, de novo naquela Europa, a insular - que de cinzento só tinha o boletim meteorológico – haviam de renascer os Cabaret Voltaire. A música tinha novos códigos. E mesmo dentro da Europa as ideias circulavam através de jornais caros que se assinavam em papel e pelos quais se esperava com ansiedade. As novidades, daqui, já conheciam Tzara, já o tinham lido, relembravam-no, a academia era iconoclasta e havia produção de arte verdadeiramente nova. Estávamos a meados da década de 80, e apesar das dificuldades óbvias de circulação de informação, quem aqui estava, estava, ouvia-se! Como poderia estar em toda a parte. "Zuvi Zeva Novi" ouvia-se, cantava-se e dançava-se.
Vale muito a pena – para não dizer que é essencial – ler ou reler a única edição que conheço dos "Sete Manifestos Dada", o número 16 da Colecção Cão Vagabundo da Hiena Editora, que tem na tradução a reprodução dos desenhos do Picabia e que na minha mão tem sublinhados vigorosos a lápis. Era – e ainda é – a mania de falar com quem escreve. Agora vende-se na Internet, mas decerto que se arranja num alfarrabista perto de si.
Nunca tanto como agora as afirmações de Tzara, todas elas, são revigorantes e tornam incontornáveis as comparações com a nossa pobrezinha realidade. "Ser inteligente – respeitar toda a gente – morrer no campo da honra – subscrever títulos da Dívida Pública – votar em Fulano – o respeito pela natureza e pela pintura – berrar nas manifestações dada. – é esta a vida dos homens". É aquilo que duma maneira mais ou menos corrente nos rodeia. "É por isso que vocês hão-de morrer todos – e morrem mesmo garanto-vos."
Ela, a casa vermelha, lá continua em Maputo, actualmente em recuperação, depois de ter sido a Embaixada da Coreia do Norte e de ter, nessa altura e quase paradoxalmente – ou se calha por isso mesmo –, mudado a sua cor para branco… e nas palavras do seu autor "depois da revolução, a Casa Vermelha teve tanto medo que ficou branca de susto. Gostava tanto dela que mais tarde fiz uma maqueta para ter comigo."
Devo confessar que o único defeito de Tzara era referir-se ao umbigo da forma tão depreciativa que usava nos manifestos. Mas este era o umbigo, no masculino… Já "Quem é dos nossos conserva a sua liberdade". E, aqui, uso, exactamente e também, as suas palavras e revejo a nota manuscrita da tradução do pseudónimo nos meus Sete Manifestos Dada, Tristan Tzara = infeliz no país.
Serão precisos cem anos para que todos eles o percebam?
por: Carlos Ribeiro eClara Sanches Valente (Arkhétypos Concepto)





