Top

Entrevista a Henrique Tavares Ferreira, autor da capa do mês

Na capa de dezembro da Umbigo, Henrique Tavares Ferreira aborda o porquê e o como, pensamento e sua manifestação. Numa fusão entre a ciência e a arte, o seu gesto empodera a transmissão de uma mensagem necessária, de alerta ou de lembrança, que não impõe nem julga, somente poetiza.

Do fetiche pela arquitetura de meios, pelo interior e exterior, pelas intimidades da casa, da família e do eu, nascem esculturas-instalações ou happenings performativos que, ainda que plasticamente distintos, veiculam um conceito e intenção comuns: a possibilidade de penetrar o problema, aspirando não a “tirar a fotografia ao que se vê, antes estar dentro dela.”

Ligado ao projeto A Saramaga, o qual integra dinâmicas de criação e residências artísticas, ao autor interessa, sobretudo, continuar a criar e, neste entretanto, promover a descentralização destas práticas, acolhendo artistas no Cartaxo, convidados a dialogar.

Correm no Henrique as veias artística e científica. Há tanto o que as separa como o que as une?

O processo artístico é, por definição, diferente do método científico, não seguindo os mesmos passos, nem se submetendo a uma obrigatoriedade metodológica, ainda que se encontrem na necessidade de pesquisa por uma linguagem ou pensamento. Em comum, ambas respondem a uma pergunta com algo que pode ser completamente distante da ideia inicial; algo que na arte é ainda mais frequente, à medida que se evolui no processo de criação: o material pode ceder, o conceito pode desviar-se, podem surgir novas referências, etc. A própria construção artística leva-nos, assim, constantemente a novas associações, como um processo que nunca se encerra. Enquanto a ciência inquire, atinge uma resposta, define uma tese e aí pára até lançar novas questões, na arte há um ciclo contínuo de interrogações-reações que poderão ter um fim aparente em certo objeto, mas o qual detém uma predisposição fértil à génese de outro artefacto e de novo processo/estudo. Eu sempre nutri grande amor pela busca incessante de respostas que ambas comportam, o que na ciência me fascina por acontecer de maneira mais pragmática, e na arte mais poética.

Um bom exemplo do cruzamento entre as duas doutrinas é o projeto HIV Crisis Still. Sente que estando numa posição de conhecimento científico sustentado, mais do que a estética das obras criadas, move-o a politização-consciencialização do seu conteúdo?

Sem dúvida. Nesse projeto a minha intenção foi precisamente intervir publicamente, para passar uma mensagem clara e de lembrança de que, embora haja hoje um tratamento para o VIH, não deixa de ser doença que precisa ser controlada, esclarecida, e desmaterializar-se em muitos pontos, nomeadamente no estigma que lhe está associado. Ainda há muito caminho a fazer. Como estive ligado à área da infeciologia, este é um tema que prezo muito. Chamar a atenção para casos destes permite a sua evolução favorável por via da prevenção, através do alerta de consciências e difusão de conhecimento. Eu apenas faço uso do gesto artístico aliado ao pensamento científico para torná-lo mais viável.

Esse impulso de consciencialização através do ato artístico está também visível em Cape Town Water Crisis. Partindo deste caso, mas generalizando-o, é possível que a arte chegue onde as políticas instituídas e o bom senso muitas vezes fraquejam?

São questões de difícil resposta, somos muito pequenos para trabalhar temas desta envergadura. O que me move quando falo no VIH, na escassez de água, nas questões da habitação, é a vontade e a necessidade de intervir em temas que são prementes na sociedade, e cuja sensibilização sinto como uma obrigação cívica. Não é possível, de facto, ter resultados concretos neste tipo de ações, nem saber o seu alcance. Porém, reside em todos estes projetos a capacidade de pôr mais uma pessoa a falar sobre o assunto, que poderá assimilar estes conteúdos e disseminar a mensagem. Esse é o objetivo. E neste diálogo reconheço na arte o caráter essencial de evocar uma necessidade sem impor, nem entrar na liberdade do outro. Ao passo que, por vezes, as grandes manifestações políticas, apesar de fundamentais por chamarem a atenção e colocarem o dedo na ferida, podem se tornar contraproducentes, dependendo da forma como comunicam. Procuro, assim, pela prática artística, uma linguagem entre o que é obrigatório trazer à discussão, o respeito pelo espaço individual, e o incentivo a uma autorreflexão sobre os comportamentos e a responsabilidade individuais.

Reflete pensamentos semelhantes o projeto Maramais, o qual se debruça sobre as questões de habitação e o binómio ilegalidade/realidade dos habitantes da ilha do farol. Podemos explorar um pouco esta história?

A ilha do Farol faz parte da ria formosa, um labirinto de canais, ilhas, sapais e bancos de areia, no litoral algarvio, que lhe conferem uma identidade e uma riqueza ecossistémica muito própria. Desde sempre o Homem foi intervindo e ocupando a paisagem, em prol da sobrevivência e atividade piscatória, razão pela qual se foram construindo pequenas habitações que, progressivamente, provocaram mais erosão na região. Assim se confrontam duas realidades: o dever ecológico de preservação deste ecossistema, e uma população que foi consolidando raízes na ilegalidade, sem mão que as demovesse.

Ou seja, o que é ambientalmente correto pode ser humanamente incorreto?

Aí está um ponto que me interessou abordar, mais uma vez através do discurso artístico: o conflito entre a obrigação ecológica de demolir as casas que danificam a costa, e as pessoas que tentam defender as suas vidas. O binómio entre o legal e o ilegal, a integridade ambiental e humana.

Conceptualmente moveu-me o que fazemos no limite quando temos de preservar o ambiente, mas também as pessoas e a sua humanidade; enquanto que esteticamente a materialização deste projeto esteve relacionada com as soluções arquitetónicas locais, encontradas pela população para subsistir. Falo da exploração de métodos construtivos improvisados, com recurso a materiais mundanos, sem conhecimentos técnicos, mas fruto da necessidade de adaptação ao meio.

Este projeto despertou também um conceito que o tem acompanhado desde então, a domesticidade.

Na verdade acontece ainda antes, quando estava em residência em Alpedrinha, no Fundão, vila onde anualmente se comemora a transumância: uma tradição secular ibérica que celebra a passagem do pastoreio ovino/caprino da montanha para o vale, e vice-versa. É aí que começo a dedicar-me ao natural e ao humano, ao que é da natureza e ao que é transformado, tanto em simbiose, como em rutura total. Mais uma vez a atração pelo arquitetónico e o sociológico: as casas de recolha dos rebanhos, a receção dos pastores, a comemoração… Debruço-me sobre a arquitetura, mas interessa-me retirar-lhe o caráter formal do desenho, e vê-la pelo seu lado mais emocional, de quem a ocupa, as suas razões, adaptações, usos… Veja-se o domus na antiga Roma – a casa, o local de proteção do exterior. Uma privacidade arquitetónica com função de resguardar o amor, o ócio, a doença, a intimidade. Isto levou-me a pensar o quarto/cama como sendo o espaço mais íntimo e a recorrer a referências deste espaço e das ações que lá ocorrem, desde o nascimento à morte; cuja materialização abarca elementos deste mesmo imaginário como lençóis, bordados, rendas…

O que nos leva às esculturas-instalações da série Ocupação Natural, onde o gesto da natureza e o gesto humano se encontram, partindo precisamente do bordado. Porquê este encontro? E que mensagem comunica aqui o bordado, sendo ele um método tradicionalmente feminino?

Essa dualidade existente em cada peça nasceu da minha participação no projeto Caring is Sharing, de Francisco Trêpa, onde tive que criar uma peça inspirada num diálogo com o artista Gabriel Junqueira, que apresentou um vídeo onde, num futuro sem humanidade, a natureza se apropriava das construções, e uma árvore de tronco proeminente atravessava as paredes de um edifício. Estas peças respondem-lhe espelhando aquilo que se manifesta de dentro para fora. O exterior ocupado com as mesmas preciosidades que geralmente se resguardam na intimidade.

Voltando às questões do doméstico e do quarto, o bordado é metáfora do papel da mulher. Ele traduz a associação entre o feminino e as funções ligadas à família, à casa, à produção dos objetos… Algo que historicamente se tem vindo a dissolver ou a transformar: Há mulheres que querem ser donas de casa? Que interpretação se faz de tal vontade? O que é a nova domesticidade? Acrescido do facto do espaço privado da casa ser muitas vezes exteriorizado, tanto pelo acolhimento de amigos, como até no lançamento simbólico das colchas às janelas durante as procissões. Em ambas as situações expõem-se os nossos anseios e segredos, já que a colcha, a cama, o quarto é a nossa verdade mais crua, mais pura: eu mostro o sítio onde o meu pai morreu, onde faço amor, onde o meu filho nascerá…

De futuro, o que se segue?

Irei inaugurar brevemente no espaço Corrente, em Lisboa, um projeto onde abordarei o meu doméstico, através da transformação catártica e satírica de um problema de saúde pessoal. Para o ano tenho programada outra exposição, onde continuarei a explorar o doméstico, mas enquanto instalação site-specific. Certo é não parar.

Mestre em Estudos Curatoriais pela Universidade de Coimbra, e com formação em Fotografia pelo Instituto Português de Fotografia do Porto, e em Planeamento e Gestão Cultural, Mafalda desenvolve o seu trabalho nas áreas de produção, comunicação e ativação, no âmbito dos Festivais de Fotografia e Artes Visuais - Encontros da Imagem, em Braga (Portugal) e Fotofestiwal, em Lodz (Polónia). Colaborou ainda com o Porto/Post/Doc: Film & Media Festival e o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Em 2020 foi uma das responsáveis pelo projeto curatorial da exposição “AEIOU: Os Espacialistas em Pro(ex)cesso”, desenvolvido no Colégio das Artes, da Universidade de Coimbra. Enquanto fotógrafa, esteve envolvida em projetos laboratoriais de fotografia analógica e programas educativos para o Silverlab (Porto) e a Passos Audiovisuais Associação Cultural (Braga), ao mesmo tempo que se dedica à fotografia num formato profissional ou de, forma espontânea, a projetos pessoais.

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €34

(portes incluídos para Portugal)