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Invisible Flowers: Noé Sendas na Galeria Presença

Invisible Flowers de Noé Sendas, com curadoria de Ana Anacleto, na Galeria Presença, apresenta uma série de dez novas assemblages do artista, que para além de evocar o teatro shakespeariano, na forma das flores invisíveis de Ophelia, explora a proposta do dramaturgo inglês de justaposição de duas instâncias da realidade, de modo a criar-se uma nova significação. Ideia que ora nos lembra a aceção de museu imaginário de André Malraux, como confronto de metamorfoses, ora recorda a conceção de montagem do cineasta Jean-Luc Godard, como uma fraternidade de metáforas.

A curadora na folha de sala acerca do trabalho de Noé Sendas esclarece: “Numa continuada investigação em torno da memória e dos seus desdobramentos e a trabalhar a partir de espólios de imagens encontradas ou adquiridas, o artista procede a um aturado processo de combinatória, justapondo, aproximando, buscando encontros produtivos a partir das características formais e evocativas das imagens, testando a partir destes encontros um conjunto de novas possibilidades narrativas”.

No espaço expositivo, imbuídos pelo ambiente assético de cubo branco, deparamo-nos com a série Invisible Flowers (2021), cada peça com o nome de uma flor diferente, em que o artista justapõe reproduções de esculturas da antiguidade clássica, como por exemplo a Vitória de Samotrácia, com o arrebatamento de ondas, ou a imagem de alguém a escrever numa secretária, com o sobrevoar de gaivotas no mar, ou o rosto de uma escultura greco-romana, com uma escadaria. Há uma conformidade com a obra de Shakespeare, que através de uma dupla simbologia permite que o espectador tente alcançar um entendimento da intricada psicologia da personagem, nomeadamente no quarto ato da tragédia Hamlet, quando Ophelia percorre o castelo cantando e distribuindo flores invisíveis aos passantes, após a morte do pai e a rejeição do príncipe Hamlet. Sendas, expõe flores invisíveis, editando um conjunto de imagens, expandindo-as para o espaço expositivo, potenciando a produção de outras narrativas, corporeidades e imaginários, para além da significação e função inicial das reproduções.

Do mesmo modo, na série Binding (2018), exposta em vários momentos, Noé Sendas, parte da seleção de imagens do livro Les Merveilles de l’Art Antique (1946) de Georges Daux, justapondo reproduções de esculturas com imagens impressas em postais, combinando-as com elementos tridimensionais, expandido o campo da imagem, de uma forma escultórica.

Na última sala, ainda somos confrontados com o díptico TETE JEUNE FEMME, Bronze. Setereograph (2021), em que Sendas, novamente, constrói uma dialética das imagens, do rosto clássico e das ondas, potenciando narrativas rizomáticas, trazendo-nos à lembrança a poética das suas múltiplas derivações e evocando outras possibilidades no nosso interior.

É como se estivéssemos perante um museu imaginário, na aceção de André Malraux: “apenas imagens de coisas, diferentes das próprias coisas, e retirando desta diferença específica a sua razão de ser” [1] – em suma, um confronto de metamorfoses, do passado, do presente e do futuro, de uma intelectualização das grandes narrativas da História da Arte ocidental, das micronarrativas da contemporaneidade e do nosso próprio entendimento do mundo e da arte em confronto diário com uma vicissitude de imagens. Segundo Malraux: “É o canto da metamorfose, e ninguém o ouviu antes de nós – o canto em que as estéticas, os sonhos e mesmo as religiões não são mais do que libretos de uma inesgotável música”[2].

Em Histoire(s) du cinéma (1989-1999), Jean-Luc Godard cria um ensaio associativo livre, uma espécie de poema, em que sobrepõe imagens de filmes, pinturas, fotografias, atualidades e texto, com banda-sonora, que vai desde a música clássica ao jazz, juntamente com voz-off, diálogos e sons repetitivos, para nos contar a história do cinema e questionar a prática artística em si mesma. Uma montagem que o realizador define como uma fraternidade de metáforas, em que o espectador tem a liberdade para interpretar o seu significado. A propósito, o filósofo francês, Jacques Rancière reflete: “[Godard] Cria uma superfície na qual todas as imagens podem deslizar umas sobre as outras. Define a pensatividade das imagens por intermédio de dois traços essenciais.  […] Cada imagem ganha o aspeto de uma forma, de uma atitude, de um gesto suspendido. Cada um destes gestos retém de algum modo o poder que Balzac confiava à sua marquesa – o de condensar uma história num quadro –, mas também o de desencadear uma outra história” [3]. Na exposição Invisible Flowers de Noé Sendas é gerada uma superfície tridimensional na qual as imagens se justapõem umas sobre as outras, deslizando pelo nosso olhar e compasso, em que cada uma vai tomando uma outra forma, um outro corpo e um outro imaginário, desencadeando um conjunto de outras narrativas, composições e poéticas, que nos confrontam com uma imagética do passado, metamorfoseado de presente e futuro. Quando saímos da galeria, na montra ainda perscrutamos a escultura Tabula Rasa, citação de uma performance do artista norte-americano Charles Ray, que como nos indica o texto curatorial: “protagoniza a permanência da memória de uma ação humanamente impossível de prolongar”.

Por fim e em tom de resumo, deixamos algumas palavras do poeta argentino, Jorge Luis Borges, curiosamente retirado de Histoire(s) du cinéma: “Se um homem atravessasse o paraíso em sonhos e/ recebesse uma flor como prova da sua passagem e/ ao acordar encontrasse essa flor em suas mãos, o que dizer, então?”[4].

Invisible Flowers de Noé Sendas está patente na Galeria Presença até 22 de janeiro de 2022.

 

[1] Malraux, A. (2021). O Museu Imaginário. Lisboa: Edições 70. p.10.

[2] Id. Ibid., p. 261.

[3] Rancière, J. (2010). O Espectador Emancipado. Lisboa: Orfeu Negro. p.187.

[4] Godard, J.-L. (1989–1999). Histoire(s) du cinéma [filme].

Ana Martins (Porto, 1990) doutoranda na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, é mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)” e licenciada em Cinema pela ESTC do IPL e em Gestão do Património pela ESE do IPP. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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