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PANDEMIC – I Don’t Know Karate, but I Know Ka-Razor! – Filipe Marques na Galeria Municipal do Porto

PANDEMIC – I Don’t Know Karate, but I Know Ka-Razor!, de Filipe Marques, com curadoria de Isabeli Santiago & Juan Luis Toboso, partiu de uma proposta ao artista pela Galeria Municipal do Porto em 2019, para interrogar as temáticas víricas na sua prática artística. A exposição, através de uma abordagem autoreflexiva, especulativa e intimista, possibilita o questionamento sobre a fragilidade diante de um vírus, a angústia, dor e solidão face a uma doença e o constante conflito entre saúde física e mental, assim como transporta para uma indagação acerca da pandemia que ainda estamos a viver.

Nesse sentido: Após termos ultrapassado uma doença grave, ou passado por um acontecimento traumático, como nos colocamos perante a existência? Depois de vários confinamentos, devido à pandemia pelo SARS-COV-2, de que forma nos estamos a adaptar a uma nova realidade tendo ainda a COVID-19 presente? Será que já houve tempo e lugar para pensarmos acerca da experiência vivida nos dois últimos anos?

No texto curatorial, Isabeli Santiago & Juan Luis Toboso expressam: “o espaço da exposição abre-se à possibilidade de uma construção de múltiplas camadas, onde cada um dos elementos e suas interpretações contribuem ora para um sentido de um todo, ora para uma leitura aberta ao abismo do desconhecido e onde a razão e a incerteza circulam em constante transformação”. Quando entramos no mezanino da GMP somos imbuídos por um ambiente soturno e nebuloso, em tons verdes e amarelados, com banda sonora composta por riffs de guitarra, ritmos de bateria e ruídos estridentes, intervalados pela voz de James Brown proferindo I Don’t Know Karate, but I Know Ka-Razor, frase que dá título à exposição, extraída da música The Payback, do álbum homónimo de 1973. Caminhando pelo espaço expositivo deparamo-nos com I believe great and prolonged sex cured cancer. By death! Alive! (2020) uma estrutura de cartão, sobre construção motorizada circular em alumínio e madeira, que nos vai revelando um quarto e uma casa de banho, preenchidos com palavras, caracteres e desenhos, como um cenário punk, caótico e desolador, que irá servir de décor para o vídeo Whatevah you do, don’t look me too long in the eyes. Now it’s your turn to cry (2020). Nas imagens em movimento, a preto e branco, assistimos a várias cenas, como a de uma rapariga, que expressa múltiplas emoções, como raiva, tristeza e angústia, riscando o seu corpo com marcadores, restando na banheira, ou na cama, tudo acentuado pelo olhar picado da câmara e por legendas, como “I hope that this virus tears me to pieces!”, “Prepare my cave and then kindly forget where it was”, “After the war begins the war goes on”. No seguimento, o nosso olhar é dirigido para I am enough. Unacknowledged injustices are wounds left unhealed (2020) uma estrutura, também motorizada, com inscrições e frases a grafiti e marcador, semelhantes ao corpo marcado da personagem do vídeo, às legendas e às restantes instalações. Por último, somos impelidos para o centro da sala, pelo néon e plantas de cartão de Sunset flights of slashing razors. Wags your finger in your own face (2020). No meio da instalação, as luzes formam palavras em latim, mas também noções da psicanálise, ou da filosofia, relacionadas com “conceitos como Weltschmerz, cunhado pelo escritor alemão Jean Paul Richter no seu mais pessimista romance – Selina, de 1827 – e literalmente traduzido como ‘a grande dor ou cansado do mundo (…)'”, como nos indica o texto curatorial. Filipe Marques (1976) desenvolve assim o seu trabalho, permeado por teorias de filósofos modernos que refletem sobre o humanismo, numa incessante procura e investigação sobre o mundo e a vida, recorrendo sobretudo à palavra, criando várias camadas, que se desdobram em imagens em movimento, luzes, sons e estruturas cenográficas, como em Anomie. Narcissism and Dispersion (2020) no CAA-IVV, Águeda; And thats What I Want to Do, Tell you Wonderful Things (2020) no Espaço Mira, Porto; ou em Disclosedness Space (2019) na Galeria Nuno Centeno.

No texto La mirada/ reflexiones sobre los sentidos y la pandemia (2021) Mariana Mora, investigadora e professora do Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social na Cidade do México, reflete: “Nuestros muertos en pandemia no son parte de un pasado convertido en un no-lugar impulsado por el motor de seguir en una aparente normalidad o por la insistencia de que lo peor de la pandemia fue un simple paréntesis entre nuestras cotidianidades y ahora nos corresponde recuperar el tiempo perdido. Por lo contrario, percibir a los nuestros, escribir sobre ellos para seguir aprendiendo de ellos, registrar las imágenes mediante las cuáles se hacen presente, acompañarlos a través de los ritos que cada uno inventa porque no pudimos vivir los duelos como necesitábamos, es lo que nos permite actuar desde la potencia de la herida, nos aleja de la despedida como un no-lugar.” De acordo, as mortes e as mágoas da pandemia não fazem parte de um passado transformado em não-lugar, por forma a prosseguirmos um novo normal, confiantes de que tudo foi um simples parênteses no quotidiano. É essencial entendermos e expressarmos aquilo por que passamos, reinventar o luto pelas pessoas que nos deixaram, criar novos rituais para manifestarmos o trauma coletivo e individual que vivemos, de modo a que as feridas não se tornem um não-lugar. Filipe Marques em PANDEMIC – I Dont Know Karate, but I Know Ka-Razor! exprime de uma forma muito pessoal todo esse turbilhão de sentimentos contraditórios perante uma doença, a nossa impotência diante de um vírus e a complexidade de lidar com a dor física e mental. O projeto expositivo, entre palavras, deixa lugar para pensarmos sobre o nosso íntimo em presença de uma pandemia global.

A exposição estará patente na Galeria Municipal do Porto até 21 de novembro de 2021.

Ana Martins (Porto, 1990) é licenciada em Cinema pela ESTC do IPL, Gestão do Património pela ESE do IPP e mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)”. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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