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Galeria Zé dos Bois: Cúmplice do observador

Com ideias geniais, medíocres, insensíveis ou contestatórias, os artistas persistem no trabalho diário de atelier, escolhendo ignorar a crise que se instala ou contribuindo para a sua crítica (dependendo do ponto de vista). Historicamente, a arte reflete aspetos da vida social e política contemporânea, esta que é no fundo a sua profissão, acaba por ficar também inevitavelmente implicada nesta rede. Todo este processo de investigação, seleção e criação, se reúne, depois, numa breve exposição de dois meses ou menos. Penso como admiro os artistas, o seu trabalho de bastidor e a dedicação ao desenvolvimento de trabalho que os represente. Há muito por detrás do que acontece numa exposição, e é interessante pensar que o que fica à vista de todos é apenas uma ínfima parte do que ficou escondido atrás do palco.

As últimas exposições inauguradas na Galeria Zé dos Bois são sobre isso mesmo, a manipulação da narrativa, a interferência com a observação de cada visitante, o teste da passagem do tempo e a sua erosão sob o espaço.

Sara Mealha, apresenta Qual destes uma armadilha?, um mistério que facilmente se desvenda depois de encontrar as pistas deixadas em palavras cruzadas. A chave diz: 1. armadilha, 2. ladrão, 3. Robert Gobert, 4. fuga, 4. Fra Angelico, 6. Prado, 7. anunciação e 8. cela. Justificam sem deixar dúvida sobre as intenções da artista, a história, as referências, a imagem e a ação. Resta saber se haverá mesmo alguma armadilha ou se a ausência do número 5 foi intencional…

Tiago Batista, expõe um conjunto de pinturas emolduradas por si mesmas que testam várias leituras sobrepostas e inacabadas. A maioria das peças de Febre permitem-se também aos seus próprios espectadores residentes, pois o artista recorre a nucas carecas que ocupam espaço da tela. Observam este espetáculo por onde surge uma garça branca ou uma figura sombria vestida de negro por detrás do pano. Outros objetos mimetizam-se, como a concha e a concha pintada, remetendo à sábia ideia da noção de teatralidade.

Ellie Ga, reconfigura uma das salas do piso de cima para acomodar 4 planos diferentes do fenómeno oceanográfico dos giros do Mar Egeu, que puxam e empurram pelas suas correntes, histórias de fé, desespero e tragédia. Gyres, é contada pelas mãos da artista americana que comanda arquivos de filmagens documentais, entrevistas e acetatos impressos. Uma peça que reflete o estado histórico, mas também corrente dos acontecimentos desse lugar.

Tomás Maia e André Maranha, finalizam o ciclo com Parlatório, uma máquina do tempo, um relógio, uma ampulheta que faz correr areia por entre vários compartimentos de madeira. Este mecanismo que conta o tempo silenciosamente numa sala escura até os grãos se acabarem. Será algum presságio?

A Galeria Zé dos Bois é uma referência e um exemplo para outros espaços na cidade de Lisboa, assumindo assim responsabilidade de se perguntar continuamente: “O que diria o Zé dos Bois sobre esta exposição?”; “Que impressão causa no panorama geral das artes?” e “Qual a sua importância agora e em retrospetiva?”.

As exposições estarão abertas ao público até ao dia 26 de novembro com o custo de entrada de 3€.

Licenciada em Artes e Humanidades (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2018), é programadora cultural e curadora independente de arte contemporânea. Em paralelo com a frequência do Mestrado em Fine Arts Curating (Goldsmiths, University of London), dedica-se à investigação de espaços expositivos não convencionais e metodologias curatoriais alternativas. (retrato por Hugo Cubo, 2020)

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