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Entrevista a Hugo Ganhão: 4500 – Ensaio Fotográfico

No âmbito da capa de novembro da edição online da Umbigo, apresentamos 4500 – Ensaio Fotográfico de Hugo Ganhão que esteve patente no Centro Multimeios de Espinho de julho a setembro de 2021. As fotografias mostram-nos a cidade de Espinho, onde Ganhão cresceu. Contudo o seu olhar perscrutador revela-nos, através de uma plasticidade distinta, os pormenores, cantos, sombras, gentes e contrastes de uma zona outrora piscatória e de veraneio em plena pandemia.

Hugo Ganhão, natural do Porto, apesar de ter crescido e vivido em Espinho, sempre teve uma ligação com a praia e o mar. Essa relação irá aproximá-lo da fotografia, fazendo com que após terminado o seu curso na ESAP, parta para Paris, colaborando com o fotógrafo Giacomo Bretzel.

De momento, Ganhão desenvolve uma prática de teor documental, retratando a cidade onde cresceu, exemplo de 4500 – Ensaio Fotográfico.

Embora o título nos indique um endereço específico, Espinho – situada no litoral norte de Portugal, inicialmente conhecida como zona piscatória e posteriormente destino balnear – modernizou-se, mesmo que ainda reconheçamos vestígios das dicotomias do seu passado, designadamente a relação de uma comunidade que encarou o mar, ora como labor, ora como lazer e que de momento se encontra num estado de incerteza. Em 4500, Ganhão vai para além do território geográfico, captando “lutas individuais, desafios particulares e dinâmicas intrínsecas de quem vive, cria e modula o espaço circundante. (…) Imagens que apresentam pontos de fuga para uma realidade alternativa, como a toca do coelho por onde Alice encontrou o lado de trás do reflexo”, como nos demonstra Marco Coutinho no texto que acompanha a exposição.

Ganhão, nas suas fotografias, desvenda um quotidiano de contrastes lumínicos, plásticos e paisagísticos, pormenores simbólicos, mas também retratos com uma forte expressão.

 

Ana Martins4500 – Ensaio Fotográfico apresenta uma visão muito particular de Espinho em plena pandemia. Como surgiu a vontade de captar a cidade nestas circunstâncias?

Hugo Ganhão – Tudo começou sem nenhum propósito em particular. Fiz algumas sessões fotográficas em período pandémico, numa altura de inverno rigoroso, por volta do Natal de 2020. Apesar de ser de Espinho, vivo no Porto e não vou lá com muita frequência, portanto deambulei com a máquina e fui fazendo algumas tomadas de vista, que me foram espoletando ideias e que me fizeram sentir que havia relevância em realizar um projeto. O método foi sempre um bocado pausado, e a dada altura também senti que o que estava a registar, como aquele isolamento, solidão e ambiente decrépito, tinha uma forte pertinência. O processo de captura de imagens terminou em meados de junho. Depois parti para a compilação, curadoria e seleção das imagens, de modo a perceber o que queria seguir com o projeto. Mais tarde, contatei instituições de Espinho com a missão de apoiar as artes e a cultura e houve recetividade. Foi como uma bola de neve, em que uma coisa levou à outra e, enfim, concretizou-se.

AM – De que forma organizaste o trabalho com vista a demonstrar certas particularidades do território?

HG – Foi um processo que demorou algum tempo. À medida que ia fotografando, ia fazendo uma triagem, quase de modo sensorial. Foi sempre numa atitude um bocado naïf, de documentar a cidade sob o meu jugo. Não houve uma clarificação logo à priori, deixei-me levar pelas imagens que ia criando. Também mostrei as fotografias a Joana Mieiro, que ajudou na componente da curadoria. Um fotógrafo, por vezes, está muito envolvido no projeto e é difícil distanciar-se, então tive o cuidado de perguntar a opinião a algumas pessoas, que sei que têm capacidade para fazer uma avaliação fundamentada, e assim chegar à conclusão do caminho que queria seguir.

AM – Qual foi a tua intenção ao escolher o título da exposição?

HG4500 é o código postal de Espinho. Por ter vivido lá a minha vida toda, é um número que me aparece recorrentemente para descrever a cidade. Considerei que poderia ser uma maneira interessante de rapidamente chegar às pessoas, envolver a comunidade e de atrair os espinhenses a procurarem pelo projeto.

AM – O que pretendias ao realizar esta exposição?

HG – Uma das minhas intenções foi despertar a consciência da cidade em particular. Por vezes este abandono presente, principalmente em cidades pequenas, costeiras e piscatórias, reflete-se nas pessoas. Essa falta de estima é o reflexo das comunidades não acreditarem que aqueles locais têm algo a acrescentar. Comecei a desenvolver o trabalho à volta dessa observação e, de facto, Espinho está num ponto de algum abandono, reflexo de alguma descrença da comunidade, na maneira como interage e se afirma. Esta questão é muito mais abrangente, pois quero acreditar que isto não é só neste território, mas que acontece um pouco por todo o lado. Nestas comunidades existe um grande empobrecimento e falta de trabalho. Julgo que seja muitas vezes difícil contrariar esse sentido negativo, ainda por cima com toda esta situação pandémica, que agravou as desigualdades sociais. Penso que existe um desinvestimento não só dos políticos, mas também das pessoas, que não procuram tornar a comunidade mais rica e sólida. Este projeto é um alerta, um despertar de consciências, sobretudo a minha, embora já tenha refletido sobre o assunto. Muitas vezes, só quando se materializa as ideias é que se percebe melhor sobre determinados temas. Já não vivo em Espinho, portanto não estou tão envolvido no tecido social, porém esse distanciamento fez me notar que há uma realidade que não foi tão bem conseguida.

AM – O que pensas em relação aos múltiplos registos fotográficos da pandemia e a relevância do teu trabalho em demonstrar essa realidade, em concreto a de Espinho?

HG – Nesta altura de confinamento as pessoas voltaram-se muito para dentro. Daquilo que fui vendo ao longo deste processo, foi curioso observar uma exploração do Eu, do dentro de casa, não só numa vertente documental, mas também artística. O que me cativou durante este período foi contrariar esse espírito, pois sou uma pessoa que gosta de andar pela cidade. Foi essa a razão que me levou a sair à rua, sempre na tentativa de angariar imagens, que fossem de acordo com as minhas expectativas. Foi um desafio muito grande, durante o primeiro confinamento, em que fomos obrigados a ficar em casa ad aeternum, entrar em contraciclo. Durante esse tempo vi projetos muito pertinentes, como por exemplo o 14 – A/2020, editado por Miguel Refresco e Rui Pinheiro da The Cave Potography, onde vi fotografias muito particulares feitas desde casa, na exploração do espaço e do eu. No entanto, não consegui seguir esse rumo, pois tenho muita dificuldade em manter-me fechado e de fazer um trabalho de natureza artística confinado. Eu quis sempre tentar ir contra a maré e como tal obriguei-me a ir fotografar para a rua, ao mesmo tempo que vinha de um processo de alguma alienação em relação à fotografia, pois estava quase a abdicar da minha prática artística. Foi um desafio muito grande ir para a rua, voltar a pegar na máquina fotográfica e retomar a atividade. Às vezes o que custa é dar o primeiro passo, porque depois tudo começa a entrar na engrenagem. Na realidade, este processo começou a despoletar novamente em mim o prazer de fotografar, contrariando um impulso negativo. Neste último ano o meu foco tem sido o trabalho documental, pois esta foi uma experiência bastante catártica, de voltar ao ativo e de ter prazer a fazer aquilo que já estava numa zona muito negra.

AM Na tua biografia consta que, antes de ingressares por um registo mais documental, trabalhaste várias vertentes da fotografia. Como surgiu o interesse por esta nova forma de explorar a tua prática artística e de que modo se repercutiu em 4500 – Ensaio Fotográfico?

HG – Eu quis me distanciar muito do tipo de fotografia que fui fazendo ao longo dos anos. Já trabalhei com as mais variadas tipologias e sinto que em muitas delas não conseguia dar a autenticidade que pretendia, como com esta vertente documental, um pouco neorrealista, na medida em que remete para um registo da vida real, do mundano e de situações imponderadas. O processo criativo é algo muito pessoal e ou se vive intensamente, ou então não vale a pena! Entrego-me mais a fazer este tipo de fotografia, porém no que diz respeito à minha prática artística e comercial, tudo pode mudar. Neste momento, o meu foco é a fotografia documental, registar a vida e mostrar a realidade à luz do meu olhar.

AM – Irá haver alguma continuidade no trabalho que estás a desenvolver em 4500 – Ensaio Fotográfico?

HG – A minha ideia é dar continuidade ao projeto, mesmo tendo sido num espírito de entrega, sem grandes apoios. Gostava muito de dar prosseguimento a 4500, mas com o objetivo de centrar-me mais nas pessoas, já que anteriormente voltei-me mais para o espaço, embora também tenha retratos, mas num estilo um pouco candid camera, ou seja, com distanciamento. Agora gostaria de dar voz às pessoas, de convidar algumas que quisessem se envolver no projeto e retratá-las. Tentar perceber a sua visão para com o espaço, a comunidade e a cidade onde se inserem. Estar mais próximo delas, com a consciência de que estão a posar, num contexto mais cuidado e com iluminação de estúdio. Igualmente gostaria de ter a oportunidade de conhecê-las melhor, os seus testemunhos e experiências, justamente para envolvê-las, porque é fundamental neste tipo de iniciativas. Mais tarde desejaria fazer uma publicação, aliada a uma exposição. Tenho a certeza que este projeto vai continuar, mas ainda não sei precisar prazos. Não quero forçar nada, pois é necessário tempo para conseguir uma aproximação com a comunidade. Vai ter de ser natural, de trabalhar para fazer acontecer, porque poderei correr o risco de estar a perder a genuinidade que quero transmitir.

Ana Martins (Porto, 1990) doutoranda na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, é mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)” e licenciada em Cinema pela ESTC do IPL e em Gestão do Património pela ESE do IPP. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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