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Pés de Barro: Ana Jotta, Eduardo Navarro, Formabesta, Gabriel Chaile, Isabel Carvalho, Neïl Beloufa, Pauline Curnier Jardin e Tamara Henderson na Galeria Municipal do Porto

«E se o futuro for uma tecnologia tão antiga e peculiar como o barro? […] E se na realidade os pés de barro enraízam as pessoas à terra, ligando-as através da mesma matéria? E se os pés de barro forem uma forma de estabelecer uma comunicação pós-tecnológica, que não requer redes ou cabos?» Estas são algumas das interrogações que as curadoras Chus Martínez e Filipa Ramos nos propõem em Pés de Barro, patente na Galeria Municipal do Porto até 22 de agosto.

A exposição coletiva em que o barro, a olaria e a cerâmica se destacam, apresenta obras de Ana Jotta, Eduardo Navarro, Formabesta (Salvador e Juan Cidrás), Gabriel Chaile, Isabel Carvalho, Neïl Beloufa, Pauline Curnier Jardin e Tamara Henderson. Algo que não é muito comum nos mais recentes projetos expositivos, sobretudo enquanto material associado a uma prática artística e a uma exposição em exclusivo. Apesar da cerâmica e da olaria estarem enraizadas na cultura portuguesa, associadas a nomes como Bordalo Pinheiro, Querubim Lapa ou Rosa Ramalho, Pés de Barro vem dar um novo ponto de vista sobre o uso do barro nas práticas artísticas e curatoriais contemporâneas. Sendo que é de realçar a participação da artista visual afro-americana Simone Leigh (com um forte conjunto de obras em cerâmica) na próxima edição da Bienal de Veneza (2022). O barro, muitas vezes associado às dicotomias funcionalidade/não funcionalidade, cerâmica/escultura ou artesanato/arte, questiona o próprio significado de arte, mas também (e a respeito do qual esta exposição nos instiga) o modo como nos relacionamos, comunicamos e interagimos com a natureza, o planeta e a humanidade, assim como uma nova forma de pensarmos o futuro.

Começamos o percurso expositivo com as figuras femininas em couro sintético, com grandes seios e ancas voluptuosas, de Pauline Curnier Jardin, Peaux de Dame (2021), reminiscências de A Princesa com Pele de Burro (1970), de Jacques Demy, que parecem dançar nas paredes e que nos guiam e acompanham até a uma black box pintada de vermelho, onde está projetado Grotta profunda, les humeurs du gouffre (2011), da mesma autora. Este filme, com uma «narrativa místico-pagã», como nos sugere a folha de sala, dividida em dois capítulos, acompanha a transformação da jovem Bernadette, que após receber a visita da Virgem Maria, entra numa viagem transformadora por uma gruta de ambiente lúgubre, onde encontra vários personagens misteriosos e burlescos, como Mermaid-monkey, True Women ou Chocolate-vanilla, com figurinos que nos remetem para os do Ballet Triádico da Bauhaus, do Cabaret Voltaire, ou para as performances futuristas, onde a geometria, o absurdo e a abstração predominam. Bernadette, por aquele lugar obscuro e pelas personagens caricatas que encontra, questiona-se acerca da história da humanidade e das espécies: «What if the four elements had created the creatures?»; «What if nature could make art?»; «What if the grotto itself made this feast?». Este filme – com cenografia e encenação algo teatral e direção de fotografia com predominância de vermelho, que nos recorda Derek Jarman, o surrealismo e o carácter performativo de Maya Deren, ou ainda, especificamente no primeiro capítulo, O Evangelho Segundo São Mateus (1964), de Pasolini, pelo preto e branco, temática religiosa e austeridade – vai de encontro às perguntas lançadas pelas curadoras, nomeadamente a reflexão sobre a necessidade de descermos às profundidades da terra, ou de nos embrenharmos nela, de modo a criarmos novamente uma conexão com a natureza e com os outros seres, na tentativa de nos desligarmos de um pensamento exclusivamente antropocêntrico.

Saindo da grotta de Pauline, deparamo-nos de imediato com Luchona (2021), de Gabriel Chaile – em português: lutadora – escultura em barro cru, madeira e terra, que pelas suas grandes dimensões domina o espaço expositivo. Esta sua monumental presença é uma homenagem às mulheres que, na América Latina, são chamadas depreciativamente de luchonas, por serem jovens mães solteiras, que por saírem à noite, em vez de estarem com os seus filhos, são consideradas imaturas e irresponsáveis. Chaile trabalha esta estrutura assentando-a em terra, proporcionando o seu cheiro e uma metáfora para as nossas raízes, assim como molda a parte de baixo da escultura esfericamente, decorada com formas redondas e ovos, lembrando-nos as deusas da fertilidade, rematando com uma espécie de obelisco com figuras geométricas rectangulares, impondo uma forma fálica à forma no seu todo. Será uma metáfora para a estrutura patriarcal vigente na sociedade? E para a luta de classes? Uma nova forma de pensarmos a nossa ligação à terra, talvez pelos sentidos?

La morale de l’histoire (Capítulos 1-6) (2019), de Neïl Beloufa, instalação multimédia em black box, onde à entrada podemos levantar o guião editado e ilustrado cuidadosamente, surpreendeu pela disposição de cada capítulo em relevo trabalhado com resina acrílica, pela voz off que nos narra os acontecimentos, lado a lado com a projeção de efeitos visuais e sonoros que acompanham a narrativa, envolvendo-nos de um modo físico, sensorial e expansivo. La morale de l’histoire, como está descrito na folha de sala «é ao mesmo tempo uma alegoria do capitalismo e uma fábula infantil sobre um camelo velho e sedento que se perde no deserto, onde é ajudado por jovens raposas-do-deserto, que lhe constroem um muro à custa das formigas». O que justamente segue a linha curatorial, que permite refletir sobre as relações entre humanos, os recursos do planeta e os outros seres.

Pés de Barro revela-nos um novo olhar sobre as possibilidades do barro nas práticas artísticas e curatoriais, assim como no pensamento contemporâneo. As curadoras não só nos apresentam trabalhos em cerâmica, através de um percurso singularmente delineado, mas obras de artistas multidisciplinares, que vão para além do uso deste material. Há uma forte aposta na imagem em movimento, não descurando Womb Life (2018-19), de Tamara Henderson, que aqui ainda não fora falado, pois não pôde ser visualizado na sua plenitude devido à entrada de luz natural, acompanhado por Eyetongue (2021), de Eduardo Navarro, uma grande peça mural encomendada para esta exposição. Terminamos com uma frase retirada do texto curatorial, que define o tom de Pés de Barro: «Fizemos esta exposição a pensar no simples prazer de estar deitado no chão, ao lado de uma amiga, a contar nuvens, a dizer disparates e a ser tocadas pelo sol da mesma forma como o calor toca o barro e o transforma em cerâmica.»

Ana Martins (Porto, 1990) é licenciada em Cinema pela ESTC do IPL, Gestão do Património pela ESE do IPP e mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)”. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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