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Situação 21: Histórias com amanhã – uma cartografia solidária da relevância das galerias do Porto

O projeto Situação 21, comissariado por Miguel von Hafe Pérez, com coprodução da Câmara Municipal do Porto, visa dar uma maior visibilidade às galerias comerciais da cidade, após um longo período de confinamento, realçando a sua importância histórica e atual, enquanto agentes culturais fulcrais para o mercado da arte, que potenciam a produção artística, fomentam o colecionismo público e privado e proporcionam a internacionalização e a divulgação da arte contemporânea nacional.

Situação 21 materializa-se através de seis exposições, em seis galerias do Porto, cada uma com curadoria distinta, visitáveis até 05 de Junho. Miguel von Hafe Pérez, a propósito do projeto, afirma: “Que este seja um sinal de que todo um sector se reerguerá das condições difíceis a que se está a ver sujeito (…) A cultura não é acessória e descartável”. Pressuposto, as exposições demonstram as potencialidades do diálogo entre artistas de várias gerações, permitem refletir acerca da produção artística que os espaços congregam e o questionamento acerca das circunstâncias em que estes produtores culturais se encontram e as prospecções para o seu futuro.

Iniciamos o percurso na Galeria Nuno Centeno visitando Os Conviventes, com curadoria de Pedro de Llano. Uma “espécie de reunião de presenças e ausências, numa congregação de corpos e fantasmas”, como expressa o curador e que efetivamente no espaço expositivo, ressaltamos a convivência entre os registos de Biovirtual (1986) de Silvestre Pestana e as fotografias de Gretta Sarfaty, em que em ambas existe uma forte performatividade, e as séries de Fernando José Pereira e a obra de Mauro Cerqueira, em que embora haja uma ausência de corpo, o modo como Pereira trabalha os ecrãs cinematográficos e a forma como Cerqueira envolve os diferentes materiais num jogo de espelhos, permite a projeção da figura do espectador.

De seguida caminhamos até à Rua Miguel Bombarda, a artéria do Porto com mais galerias comerciais, para entrarmos na Galeria Fernando Santos e percorrermos Contemporâneos Extemporâneos com curadoria de Andreia Garcia. Na exposição destacamos o ambiente instalativo de Mariana Caló e Francisco Queimadela, em que objetos escultóricos semelhantes a estalagmites, com incidência de uma luz verde com um forte contraste, nos remete para um lugar cavernoso, que por conseguinte nos consciencializa para estes ecossistemas. As telas de Hernâni Reis Baptista, por outra via, trazem uma explosão de cor incrustada num material que aparenta pele, dialogando com um casaco em plinto, demonstrando a fluidez do corpo e do ser contemporâneo.

Na mesma rua prosseguimos viagem na Galeria Quadrado Azul, com Ária do encanto – uma flor que talvez não distinga o céu e a terra, pelos curadores Luís Pinto Nunes e Luís Albuquerque Pinho. Se a primeira parte do título sugere aguçarmos a audição e a experimentarmos o sublime, a segunda é homónima ao desenho de um dos artistas mais significantes para a cidade – Álvaro Lapa – que nos convida a entrar no espaço. Ao longo do percurso perscrutamos o ritmo das diferentes formas geométricas das esculturas de Ângelo de Sousa, de Zulmiro de Carvalho, ou das fotografias de Pedro Tropa, mas também a expressividade das paisagens de Alberto Carneiro e a plasticidade da efabulação animal nas obras de João Pais Filipe, Mariana Barrote, ou Musa Paradisíaca.

Finalizando a incursão por Bombarda, visitamos a Galeria Presença, onde fomos surpreendidos por Pontas Duplas / Split Ends, com curadoria de Aida Castro. Segundo a curadora: “Nesta exposição foram reativadas pontas duplas (…) encontros inesperados que se estabelecem entre gestos, toques, vapores e pesos”.  De acordo, no espaço expositivo há uma linha que se vai tecendo quer pelo meio de No vazio (2020) de Carlos Mensil, em que o movimento circular de esferas de metal produzem desenhos, que nos levam até Desceremos à gorja mudos (2021) de Gustavo Sumpta, que possui um ritmo de formas geométricas, que contrasta com Booliana – Poema não-binário semi-fluído (2020) de Mafalda Santos, que se coaduna com as obras de Helena Almeida e de Álvaro Lapa.

Descendo até à zona ribeirinha ingressamos em UTEROPIAS, patente na Kubik Gallery, com curadoria de Samuel Silva, uma exposição, que pelas suas palavras: “procura pensar as raízes não apenas como fonte arquetípica de um passado uterino, mas como afloramentos no presente (…), tendo a utopia no horizonte”. Justamente, a meio do percurso realçamos Escuto o calcanhar do pássaro (2021) do artista/curador, em que vemos incrustadas no teto madeiras semelhantes a raízes de uma árvore, que corrobora a afirmação e dialoga com as práticas artísticas das salas contíguas, pelas questões contemporâneas que evocam, designadamente identidades, utopias, ou paradoxismos.

Caminhando desde Miramar até à Alfândega, terminamos esta cartografia em We Want Electricity, com curadoria de Susana Lourenço Marques, na Galeria Pedro Oliveira. Uma exposição que parte do seu acervo e que pelas palavras da curadora é “uma ode à sua persistência e irreverência, que reclama o universo sónico de muitas das suas escolhas para ligar arte, música e eternal youth”. Efetivamente, somos envolvidos por fotografias, imagens em movimento, ou desenhos que evocam o rock e a eletricidade que um concerto, ou festival de música nos transmite.

Em última análise, o projeto Situação 21, que terá continuidade, trouxe uma nova visibilidade às galerias comerciais do Porto, agentes culturais, que com este impulso, esperemos que retomem o seu animo, desenvolvam mais projetos expositivos, tornem o diálogo com os jovens artistas mais profícuo e tenham uma relação de maior proximidade com a comunidade envolvente.

Ana Martins (Porto, 1990) é licenciada em Cinema pela ESTC do IPL, Gestão do Património pela ESE do IPP e mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)”. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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