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Há mais água a entrar no solo, de Inês Brites

“(…) Precisamos de um materialismo mágico para nos mostrar, como disse Benjamin citando o surrealismo, o impenetrável como o cotidiano e o cotidiano como impenetrável.”

Claire Fontaine, em Planetary Conversations

A exposição Há mais água a entrar no solo de Inês Brites na Galeria 3+1 em Lisboa está patente até o dia 05 de junho de 2021. O corpo de trabalho em exibição é composto por esculturas inspiradas em objetos descartados e encontrados pela artista. Brites está interessada na potência afetiva dos utensílios e em uma possível agência destes. A sua prática levanta questões em torno dos modos de produção e consumo capitalista e pede para reconsiderarmos possibilidades de um encontro mais atento e sustentável entre humanos e não-humanos. Com uma proposta inspirada no animismo, a artista se engaja no debate ontológico binário entre vida/matéria, homem/animal, orgânico/inorgânico.

Ao visitar a exposição, a imagem de uma Sereia veio em mente. Um ser aquático feminino, nem tão humano e nem tão animal, coletando “coisas” estranhas ao seu ambiente e os ressignificando. Um olhar não submetido à obsolescência planeada e ao “paradigma de acumulação sem sentido” que o capitalismo instituiu. Claro que estas conexões foram feitas apenas posteriormente. No primeiro momento o encontro com as obras foi de alguma forma “molhado”. Talvez pelo título fui direcionada para esta perceção, ou talvez as peças preservem um “imaginário aquoso”, como se tivessem sido trazidas das correntes do mar. As obras, distribuídas nos dois pisos da galeria, são réplicas de objetos utilizados no dia-a-dia: equipamentos de natação, aquecedores a óleo, toalhas de banho, garrafas de água, diferentes recipientes de plástico, escovas de dente, pentes, torneiras, telemóveis, redes de pesca e outros. Há uma estranheza no reconhecimento dos objetos, a forma é semelhante, mas o material é desconhecido. A artista utiliza diferentes matérias-primas: o silicone, a resina, e a parafina são os mais utilizados, mas outros também estão presentes. Em Atlas das fragilidades Brites emula uma rede de pesca utilizando lã e missangas, trazendo um gesto feminino e acolhedor para esse dispositivo de captura.

Sofia Lemos escreve no texto de sala – texto que inunda o pensamento com a sua habilidade abstrativa: “Pensem na devoção de uma torneira ao movimento e à passagem da água, que por sua vez nos dá de beber e alimenta a continuidade da vida, sempre em desenvolvimento.” Esta evocação dá voz a uma agência intrínseca à materialidade, absolvendo a matéria de sua longa história condicionada ao automatismo ou mecanismo. Janne Bennet, em seu livro Vibrant Matter, expõe um projeto filosófico semelhante. A filósofa explica a sua advocacia pela vitalidade da matéria, por considerar que a imagem da matéria morta ou completamente instrumentalizada alimenta a arrogância humana e as fantasias destruidoras de conquista e consumo. Esta conceção nos impediria de detetar (ver, ouvir, cheirar, saborear, sentir) uma gama mais ampla de “poderes não humanos que circulam ao redor e dentro dos corpos humanos.” Poderes que podem ajudar ou destruir, enriquecer ou incapacitar, enobrecer ou degradar, em todo o caso exigem a nossa atenção, ou mesmo o “respeito”. Há mais água a entrar no solo concebe exatamente isso: atenção e respeito pela materialidade que suporta e mantém a vida humana. Uma mudança de paradigma que insinua caminhos para uma vida mais harmoniosa entre a materialidade humana e a materialidade das coisas.

 

A autora escreve em português do Brasil.

Maíra Botelho (1991, Brasil) tem uma formação multidisciplinar dentro dos campos da comunicação visual, artes plásticas, filosofia e performance. Atuou profissionalmente como designer gráfica no Brasil após se licenciar na PUC-MG, tendo ainda estudado Artes Plásticas na Escola Guignard - UEMG e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Recentemente concluiu uma Pós-Graduação em Estética - Filosofia na Nova Universidade de Lisboa.

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