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Amadora-3, de Diogo Brito

Em Diário de um Mau Ano, J. M. Coetzee escrevia algo como “não nascemos fora de um Estado”. Ou algo parecido.

Quando nascemos, é-nos atribuído um número, uma morada, um nome, uma nacionalidade, uma cédula. Sem que escolhamos, é-nos forçado, logo à nascença, um Estado, um sistema, uma ficção, que fica latente e adormecida até à idade adulta e, a partir daí, se espera que a performatizemos em atos, pensamentos e omissões. Do voto eleitoral ao IRS, dos censos à doença, é o Estado, sempre presente – Deus Ex-Machina, ad nauseam, ad finem, ad mortem –, servido por uma máquina burocrática kafkiana – o tal sistema.

E kafkiana, aqui, usa com toda a propriedade: o jovem adulto cresce para se tornar no protagonista de O Processo. Até então é embalado pelo sistema, nutrido, amado, para depois ser violentado com guichés, formulários, repartições administrativas várias, créditos, documentos, burocracias, muitas burocracias, mais burocracias.

A vida adulta torna-se um teatro, uma performance – sem guião, sem texto nem contexto, sem preparação, porque a escola é uma aprendizagem abstrata e a faculdade um problema teórico.

Amadora-3, de Diogo Brito, é um relato hilariante e delirante do embate do artista com essa máquina do Estado, com o inefável sistema. Inclassificável, inqualificável, o artista é um problema para o sistema. A sua produção não é objetiva, regular, e muito menos regulada e regulamentada. O que dele resulta para a sociedade é inútil. E a obra de arte é qualquer coisa que existe no domínio da incerteza e da dúvida.

Dito isto, só aproximações são possíveis, nunca exatas e sempre sujeitas a eventuais desvios incomputáveis.

Sentado na cadeira das repartições públicas de finanças, o que é, quem é o artista? Como se pode ele definir e como pode ele definir a sua prática? É artista, é certo, mas cada tipo de artista? Porque para tipo de artista há um código. Artista de circo? Do espetáculo? Ou “Outros artistas”: CAE 2015? É que o artista contemporâneo, multidisciplinar por natureza, é tudo o que quiser ser: pintor, escultor, ator, escritor, bordador, até palhaço ou, se preferir, embora improvável, toureiro.

E é justamente nestas incompreensões risíveis, nestes momentos caricatos de assumir perante a máquina uma farsa, que Amadora-3 acontece – a saber, a morada das Finanças (essa entidade monolítica) onde o artista abriu atividade e, portanto, deu início à sua ficção.

Mas Brito compromete a narrativa, sonega-a aos cofres e gavetas do sistema burocrático e escreve uma outra, subversiva, à sua vontade, na qual zomba das normas instituídas, das tais expectativas, e da própria máquina que, confrontada com a obra do artista, fica sem saber que fazer, esperar ou processar.

Brito apresenta-se nas finanças como quem se apresenta numa piscina: em fato de banho, com touca, óculos de natação e toalha. Entretanto, a funcionária ingressa-o na chamada vida adulta, do contribuinte, para depois o mergulhar em águas azul-turquesa, sem destino, navegando apenas ao sabor da maré. É uma prova de esforço físico e mental. Mas é também uma pantomina.

A exposição é, deste modo, um ensaio sobre a atividade artística, sobre a realidade social, política e económica do artista, cuja representação é tão frágil que se torna incapaz de se impor ao leviatã e reclamar, para si, uma moratória para a desformatação, a indefinição ou a existência fora de uma lógica taxonómica, sistematizada e programada. Na impossibilidade da mudança, resta gozar e brincar com o instituído, na esperança de criar um nexo suficientemente plausível e agradável para se existir lucidamente e, agora, fora da ficção.

O espectador vê em Amadora-3 o que quiser ver: um grito de revolta, uma romantização juvenil do espírito de mudança, um palco para a performance da vida, do quotidiano, uma anedota, um exercício plástico e experimental, um recreio, um ritual de iniciação, uma celebração, ou tudo ao mesmo tempo. Tal como o artista, tem a sua vida por diante e por decidir. Ou não. Afinal, quem tem poder sobre quem? Que escolhas tem realmente o artista, num sistema tão complexo quanto primário, tão liberal quanto totalitário, tão aberto quanto castrador, tão humano quanto inflexível?

Amadora-3, de Diogo Brito, com a curadoria de Filipa Nunes, é até 10 de junho na Rua das Gaivotas 6. E o IRS até 30 de junho.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, arquitetura…

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