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server not found: Entrevista a Filipa Oliveira

server not found é uma série de entrevistas investigativas nas quais se discute sobre o paradigma cultural: um arquivo crítico e coletivo, sobre artes visuais, performance, teatro, música e cinema. No primeiro número de snf, converso com a diretora artística e curadora da Casa da Cerca e da Galeria Municipal de Almada: Filipa Oliveira.

 

Francisca Portugal – De modo a contextualizar a atividade da Casa da Cerca no tecido urbano, em breves palavras, qual o papel de um Centro de Artes na comunidade de Almada?

Filipa Oliveira – Eu trabalhei muitos anos como curadora independente e nunca pensei muito sobre a questão do papel dos museus até começar a trabalhar num (primeiro em Évora e agora na Casa da Cerca). Tem sido uma preocupação e um pensamento central naquilo que tenho vindo a fazer: Qual é o papel do museu no lugar onde se insere? E como é que o museu pode contribuir para o desenvolvimento ou pensamento dessa comunidade? É um tema importante para mim. Uma instituição cultural tem, e deve ter, uma dimensão cívica na comunidade onde se insere. Deve ser um lugar, ao mesmo tempo, de encontro, possibilidade, diversidade e de liberdade de expressão. É para mim um lugar de criação de comunidade, desde a comunidade de bairro até à comunidade de cidade. As instituições culturais criam diferentes tipos de comunidades que podem depois ter um papel ativo e participativo. A Casa da Cerca já era um lugar de comunidade quando eu cheguei, a única coisa que tenho vindo a tentar fazer é fortalecer esses laços através de projetos em que pensamos nos vizinhos. Como diz o meu colega Mário Rainha Campos, responsável pelo serviço educativo, pomos o compasso no centro da Casa da Cerca e desenhamos um círculo. Um processo que demora tempo a fazer. É fundamental conheceres as comunidades, perceber quem está à volta, de que tecido é que são feitas e o que é que pode ser feito com elas. Demora tempo porque, primeiro, precisas de conhecer a tua própria instituição, e depois começar a conhecer a comunidade. Por essa razão, os curadores deviam ficar à frente das instituições mais tempo para ter essa relação em tempo de maratona e não de sprint.

FP – Qual é a relação da Casa da Cerca com a comunidade artística? E como crias pontes a nível nacional e internacional?

FO – Quando eu cheguei à Casa da Cerca, o local era muito importante e, maioritariamente, fazia-se exposições de portugueses e havia uma presença de artistas locais com alguma regularidade. Houve uma necessidade de me afastar desse paradigma, tornar a Casa da Cerca num centro contemporâneo com um discurso profundamente direcionado para uma dimensão internacional (onde obviamente o local e o nacional também se inserem). A defesa dos artistas portugueses, neste caso, os almadenses, não se faz por trabalhar exclusivamente com artistas portugueses e artistas locais, acho que isso é contraproducente. Deve-se estabelecer diálogo e pontes em conjunto e, nesse entender do interno e do externo, perceber que, na verdade, estamos todos a pensar de alguma maneira das mesmas formas. Isso é um contributo para o desenvolvimento local. Contudo, não quer dizer que neste momento faça mais exposições com artistas locais, faço menos exposições com artistas locais. Mas, por exemplo, a mais recente exposição do Pedro Barateiro na Casa da Cerca foi a primeira exposição do Pedro em Almada, que é um artista de Almada. Isto para mim é trabalhar o tecido local. Almada faz parte de um grande projeto chamado Mural 18, da área metropolitana, em que se apresentou uma candidatura para apoiar os artistas e a produção artística. Há um foco em pensar como é que trabalhamos com o tecido local e como é que o incentivamos. Nós, em Almada, decidimos apoiar, maioritariamente, artistas locais que fossem de, ou vivessem em, Almada. O que resulta em várias encomendas a vários artistas de todas as áreas.

FP – Que métodos adotas para construir uma programação diversificada e representativa?

FO – É uma questão que me tem vindo a surgir. Nós fazemos sempre uma exposição de um artista português, um internacional e uma coletiva nos espaços grandes. Depois, fui abrindo a Casa e passámos de fazer três ou quatro exposições por ano para doze, juntamente com a Galeria Municipal e tudo produções nossas, é raríssimo recebermos coisas que vêm de fora. Foi uma mudança radical na forma como a Casa da Cerca trabalha, como produz e apoia os artistas, desde coisas pequenas, por exemplo, todos os artistas que trabalham na Casa da Cerca recebem um fee de artista, uma coisa que não acontecia e que em muitas instituições em Portugal continua a não acontecer. Este ano, desafiada pelo meu colega Mário Rainha Campos, vamos pensar como é que podemos trabalhar com os artistas locais e pensar como é que a Casa da Cerca trabalha, paralelamente à programação atual. Vamos iniciar um projeto de visitas virtuais a ateliers com artistas de Almada, começando com um pequeno número de artistas com quem quero conversar e conhecer melhor o seu trabalho. A partir desta lista inicial, cada artista nomeia o próximo artista. Seguindo esta lógica de contestar a ideia de poder do curador e tirar a escolha da minha mão é uma coisa que me parece interessante. Será o princípio de um projeto para trabalhar, para além das pontes que estamos a fazer com os vários intervenientes como, por exemplo, o Ar.Co e a Culturgest.

FP – O museu partilha o espaço de exposições com um Jardim Botânico. Podias falar-nos da agenda ambiental e ecológica dos museus portugueses e, em especial, da Casa da Cerca?

FO – Isso é uma pergunta muito séria e para a qual ainda não tenho muitas respostas. Estamos a anos-luz de ter uma consciência ecológica. Agora estamos um bocadinho menos… De facto, essa dimensão começa a ser pensada e a entrar no pensamento dos museus, e de que forma podemos ter práticas mais ecológicas e reduzir nossa pegada. A próxima exposição na Casa da Cerca é sobre jardins e ecologia e vai contar também com um germinador, onde se podem germinar sementes. Estamos a convidar os restaurantes locais para usar as sementes que vamos germinar e, às terças-feiras, pode-se ir fazer jardinagem e ser voluntário no jardim. Oferecemos workshops sobre como usar materiais para pintar porque, na verdade, este Jardim Botânico foi concebido com plantas que podem ser utilizadas nas Artes Visuais. Esse ciclo é muito bonito e este é um jardim único com uma coleção incrível nesse sentido, mas, na resposta a como é que podemos ser mais ecológicos na prática curatorial, ainda estamos a descobrir. Eu também não quero ser unicamente local, isso é voltar um século atrás! Idealmente, preferimos que os artistas venham para o local e vivam neste sítio, em formato de residência. Isso vai acontecer este ano, com o artista italiano que vem à Casa da Cerca. Fica um mês a produzir as obras aqui, o que não só é ecologicamente mais sustentável, mas também, em termos de atuação, poder estar no local a conhecer o nosso trabalho também é bastante mais interessante. Estamos neste processo. Contudo, isso não implica que o artista não tenha que fazer viagens e depois ter que devolver as obras ao local. Há outras coisas que são pequeninas práticas, por exemplo, fazer menos vinil, encontrar alternativas para não ter tanto plástico nas exposições. São coisas que tens que encontrar de formas de o fazer, que sejam visualmente interessantes e, ao mesmo tempo, sustentáveis. Eu acho que há muito caminho por fazer, de encontrar as formas de os museus estarem neste caminho da sustentabilidade ecológica e, pessoalmente, tenho muito para aprender.

FP – Como serão as instituições do futuro? A Casa da Cerca é uma instituição que se insere nessa perspetiva futura?

FO – Exatamente para o número que comemorava os 18 anos da Umbigo, fiz um Manifesto sobre o Museu do Futuro. Na verdade, tem mais a ver com as práticas da primeira pergunta, sobre o papel do museu e como é que se relaciona com a sua comunidade. A ideia do Museu do Futuro faz-me lembrar uma expressão que é “o lugar onde a tua sombra cai” e este lugar deve ser onde se encontram as fundações base do Museu do Futuro, ou seja, conhecer bem a comunidade, ser um lugar onde a comunidade se sente confortável e se cria uma relação de vizinhança. Esta relação cívica do museu é uma questão fundamental. A relação com os artistas também é central e não se baseia apenas nos objetos que eles produzem, mas nas relações que esses artistas podem trazer e podem fazer a partir desses objetos com a comunidade e com o museu. Há uma peça genial do artista Luis Camnitzer em reposta a um diretor de um museu que lhe disse que o museu não é uma escola: fez uma peça que diz “o museu é uma escola, os artistas aprendem a comunicar e o público aprende a fazer relações.” A ideia de que o museu está comprometido com a comunicação, onde todos se sentem confortáveis, onde os artistas comunicam e trabalham, e onde o público tem um papel ativo e participativo, não só a ver, mas em poder conversar, trabalhar e pensar. É por aí que as instituições devem caminhar.

Licenciada em Artes e Humanidades (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2018), é programadora cultural e curadora independente de arte contemporânea. Em paralelo com a frequência do Mestrado em Fine Arts Curating (Goldsmiths, University of London), dedica-se à investigação de espaços expositivos não convencionais e metodologias curatoriais alternativas. (retrato por Hugo Cubo, 2020)

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