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Viaje Hacia la Luz

“Usa a tua luz interior para recuperar a claridade natural da tua visão”

Lao-Tse

O tempo da luz é agora

Entre setembro e novembro de 2020 foi apresentada na Galeria Aninat (Santiago, Chile) a exposição coletiva Viaje hacia la luz. Nela, o curador Thiago Verardi reuniu obras de 27 artistas, na sua maioria latino-americanos, entre eles Catalina Swinburn, Carlos Motta, Christo & Jeanne-Claude, Iktein, Iván Navarro, Mónica Bengoa, Marilá Dardot, Luiz Roque e Pedro Barateiro. Pintura, escultura, instalações, vídeos, performances e video-mapping foram os meios que confluíram na mostra, acompanhada de uma consistente agenda de mediações e atividades interdisciplinares, que se estenderam até março de 2021, quando o reconhecido astrónomo José Maza participou numa conferência sobre os efeitos da luz nos corpos físicos e metafísicos, por ocasião da estreia do teaser dirigido por Raimundo Arrau.

O documentário, com lançamento previsto para o final deste ano, reúne performances e depoimentos dos artistas participantes e da arquiteta Cazú Zegers, ao mesmo tempo que relaciona os seus processos criativos com os espirituais. Sob uma estética onírica e um roteiro carregado de lirismo, o documentário propõe uma amplificação dos conteúdos desenvolvidos na exposição.

Parte do impulso curatorial de Verardi teve raiz na poesia L´Invitation au voyage de Charles Baudelaire, uma obra de certo modo análoga à sua própria busca pela expansão da mente-espírito. Verardi, esclareça-se, é um explorador do xamanismo e terapeuta transpessoal:

“Vês além no rio / Dormir num navio / De humor vagabundo / Foi para saciar, / O que possas desejar, / Que veio do fim do mundo / O pôr do sol / Cubra os campos, / O rio, toda a cidade / são jacinto e ouro / O mundo adormece / Numa cálida luz / Lá, tudo é ordem e beleza / luxo, calma e volúpia”

É importante destacar que a exposição se deu num contexto político que culminou na nova Constituição no Chile, após os protestos de 2019, iniciando o país uma viagem até outra “ordem e beleza” (“Cópia feliz do Éden”, dita o hino nacional chileno), tal como diziam os versos de Baudelaire. A propósito da exposição, declarou Verardi: “Nossos processos íntimos precedem todas as pulsações políticas”.

Viaje hacia la luz marcou a sua trajetória e encontra sentido dentro de uma amplitude narrativa que a situou num ponto preciso de um contexto que intensificou os seus possíveis significados, tornando-se, assim, contingente (e sobretudo urgente!). Aqui, é quando podemos dizer que toda atividade curatorial deveria ter como critérios um diálogo entre a atualidade e os contextos. Ou, então, ter a faculdade de antecipar como se desenvolverá a contemporaneidade, devendo a investigação ultrapassar as fronteiras de autores e textos (fronteira da citação) para “fazer luz” desde ou até o social. Não será menos certo, portanto, que a arte participa como ativador de diálogos e monólogos silenciosos e orientar-nos pela vertiginosa viagem interna e atual a que a catástrofe sanitária nos impele.

Três artistas lusófonos

A exposição foi a oportunidade de apreciar um complexo diálogo entre as obras de uma série de artistas destacados internacionalmente. Três deles de língua portuguesa apresentaram vídeos que continuam disponíveis online e abordam as ideias de viagem, luz e sombra desde perspetivas muito diversas:

Pedro Barateiro (Portugal, 1979) participou com a obra The acceptance speech (2017), vídeo desenvolvido por recortes que exploram o poder que alcança a representação no chamado “mercado” do entretenimento (ou, melhor dito, do encobrimento) e sua habilidade para nos distrair, distorcer as preocupações, manipular as nossas emoções e nos envolver em falsos cenários. Intercalando imagens de arquivos de noticiários e cenas de filmes e séries, Barateio constrói um discurso-documento que expõe “castelos no ar”. Duas cenas destacadas são aquelas onde Angelina Jolie duvida ser ela mesma, ao receber um prémio pelo seu trabalho humanitário com refugiados. Seria este pequeno gesto, este comentário entre parênteses, que a atriz deixa descobrirmos a construção de uma ficção? Por outro lado, o vídeo abre com o registro de uma tarte lançada ao rosto de Milton Friedman, “o topo da pirâmide” nesta montagem de ficções. A luz das estrelas projeta-se como uma falsa luz. É o desastre daquele que brilha sem profundidade ou substância. Ficção e discurso eram problemáticas que confundiam até mesmo Pessoa: “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente…”

Marilá Dardot (Brasil, 1973) apresentou Ir y volver, um dos registros do projeto Ríos intermitentes (2019), performance realizada em Cuba por ocasião da XIII Bienal de Havana. Nela, a artista vê-se em frente a um muro na localidade de Matanzas. Sobre este, escreve com água um verso da poetisa cubana Carilda Oliver Labra (nascida no mesmo local e falecida um ano antes): A la esperanza vuelvo. Dardot escreve lentamente enquanto o sol vai evaporando cada letra até fazê-las desaparecer. A ação repete-se sempre que termina o verso no muro. O impacto é efémero e angustiante a sua repetição. A luz faz emergir, permite ver, mas a sua saturação desintegra. O fragmento citado vem de um poema com o mesmo nome, que sugere o tema da vaidade e morte, do mesmo modo que o epílogo da sua autora: “A la esperanza vuelvo, a la madera / que construyó mis días importantes, /a la extraviada primavera / de antes…”

Em 2015, Dardot realizou no México esta ação com impactantes manchetes de jornais. Grande parte da sua obra está relacionada com citações literárias da poesia e da prosa, explorando a capacidade das letras para gerar visualidades e ficções.

Finalmente, o artista Luiz Roque (Brasil, 1979) exibiu Zero (2019). Nesta curta-metragem, Roque condu-nos a uma realidade do que parece ser uma cena pós-apocalíptica. Vemo-nos perante a uma incerteza de que algo acaba de ocorrer, ou aconteceu há muito tempo. Um cachorro desperta num avião privado. É o único passageiro de uma nave desolada, sem tripulantes ou piloto. A máquina autogoverna-se numa viagem que parece, uma e outra vez, o mesmo circuito que vai desde o deserto a uma cidade de arranha-céus. O cachorro parece evadir-se graças a uma pílula que, por momentos, lhe permite sonhar com a liberdade perdida. Pela janela, observamos junto a ele os reflexos cruzados de torres espelhadas. Os seus olhos melancólicos parecem o único portal, as únicas janelas por onde entram e se refletem o abismo e a luz do que é vivo.

Ricardo Mancilla Garay é curador e crítico de arte e trabalha e reside no Chile.

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