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Pólipos cnidários reparados pelo olhar do observador – Hugo Canoilas em Serralves

Pólipos cnidários reparados pelo olhar do observador, de Hugo Canoilas, com a curadoria de Marta Almeida e Ricardo Nicolau, é uma experiência imersiva, que possibilita uma série de questões sobre os temas prementes do aquecimento global, do estado atual dos oceanos e da fauna e flora marinhas, e que pode ser visitada até 21 de fevereiro de 2021 no Museu de Arte Contemporânea de Serralves.

Jacques Rancière em O Espectador Emancipado (2010) inicia a sua tese evocando Joseph Jacotot, professor de literatura francesa, que no início do século XIX afirmou que podemos ensinar aquilo que ignoramos àqueles que nada sabem, enfatizando que todos temos inteligência e que a educação do povo é mais importante do que a emancipação intelectual. De seguida, o filósofo francês deslinda a sua argumentação, comparando o pressuposto de Jacotot com a emancipação do espectador, na medida em que associamos e dissociamos, aprendemos e ensinamos, agimos e conhecemos no quotidiano, mas também enquanto espectadores, em que fazemos ligações entre o que vimos, fizemos ou sonhámos: “Ser espectador não é a condição passiva que devêssemos transformar em atividade. É a nossa situação normal”. Precisamente, o autor reitera que o ponto essencial da aprendizagem é a tradução. O cerne da emancipação é quando desconhecemos a distância entre aquilo que não sabemos, exatamente o que nos incita a comunicar. A emancipação inicia quando questionamos as resistências entre olhar e agir. Portanto, somos espectadores distantes e tradutores ativos. Olhamos, sentimos e percebemos, ao mesmo tempo que criamos o nosso poema e fazemos as nossas ligações. “É este o significado da palavra emancipação: desmantelar a fronteira entre os que agem e os que veem, entre indivíduos e membros de um corpo coletivo”. Rancière ainda propõe que a arte contemporânea: “Exige dos espectadores que desempenhem o papel de intérpretes ativos, que elaborem a sua própria tradução para se apropriarem da “história” e dela fazerem a sua própria história”. Justamente, Hugo Canoilas em Pólipos cnidários reparados pelo olhar do observador apela a que sejamos espectadores ativos, pois pelas suas palavras: “Há um pensamento sobre o lugar da exposição e o lugar do observador. A exposição é feita nesse sentido, carregando um conjunto de possibilidades, de novas associações entre coisas, um pensamento que será bastante elástico e profícuo, relacionar biologia e arte, ciência e política”.

A exposição criada exclusivamente para a Galeria Contemporânea de Serralves, em que todo o espaço é intervencionado e onde espectador tem uma experiência quase performática, na medida em que a visão e o corpo são incitados a percorrer o espaço. A olhar com pormenor para as três peças de vidro colorido dispostas no chão, que representam pólipos cnidários (medusas, águas-vivas e alforrecas), concebidas em colaboração com Conceição Cabral na Marinha Grande. Simultaneamente, caminhar e observar a intervenção pictórica no rodapé da sala, que delimita o espaço, assim como ver a pintura que cobre o teto, ambas as caixas de luz realizadas através de imagens da flora e fauna do fundo do mar, criando um ambiente único em consonância com as medusas. De acordo com o roteiro da exposição: “composta de três elementos distintos – chão, rodapé e teto – que se afetam mutuamente (…) exemplar de uma prática artística que não se cristaliza numa forma, mas que constantemente se interroga nos seus limites, funções e pressupostos”. Hugo Canoilas em Pólipos cnidários reparados pelo olhar do observador prossegue justamente a mesma linguagem, estética e preceitos, como por exemplo em Debaixo do Vulcão, no MNAC (2016-17), num constante questionamento sobre o papel do observador perante uma obra de arte, o trabalho colaborativo e a dissolução entre várias práticas artísticas e o seu pensamento sobre política, sociedade e contemporaneidade.

Ana Martins (Porto, 1990) é licenciada em Cinema pela ESTC do IPL, Gestão do Património pela ESE do IPP e mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)”. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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