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And Yet You Go On, na Duplex | AIR

A exposição And Yet You Go On é um ensaio sobre o humor e o desvio. Se a tivermos que caracterizar, cai naquela ambígua mas estimulante categoria da pós-ironia: o humor tanto pode ser um recurso de regresso à sinceridade – o propósito base da ironia, e daí muitos preferirem antes o termo nova sinceridade –, como pode ser uma qualidade em si mesma, derreigada de qualquer compromisso moral, em sintonia com a cultura de memes que atravessa o estágio atual da modernidade.

É nesta incerteza febril e fértil, por vezes arbitrária e provocante, mas nunca improfícua nem defraudante, que melhor se situa And Yet You Go On – uma coletiva de Lea Managil, Pedro Cabrita Paiva e os Primeira Desordem.

Os objetos são crípticos quando analisados isoladamente. As suas mensagens, o valor desses objetos (que, suspeita-se, não interessa para nada no contexto desta exposição), revelam-se na capacidade de ler o conjunto. Uma trança de fios eletrónicos dos Primeira Desordem jaz no chão esquecida, logo no início do percurso. É assim que o discurso expositivo se prepara, num entrançado de vontades, pensamentos e virtudes, de partes separadas de um todo, que ainda assim se reportam a ele.

A claquete também já não tem uso; vira escultura ou brinquedo quando a barra que bate e dá início à ação é segmentada em várias partes, ou, como o texto de sala refere, se transforma numa mão que nos acena zombeteiramente na aparente arbitrariedade.

A escuridão cénica ou cinematográfica é em tudo condizente com os suportes multimédia e as profusas referências ao universo do cinema, ao preparar uma caixa negra experimental e televisual para as obras, os artistas, os seus processos artísticos, plásticos ou narrativos, e o visitante. Entre a traficância de signos e significados, e a discrepância entre imagem e texto, a exposição – o humor – vai-se construindo paulatinamente no espírito do espectador, tentativamente, duvidosamente.

Lea Managil prepara a banda sonora ritmada para a exposição: o soundcheck vibra no escuro, e o dedo branco e o microfone brilham sob a luz; uma boca articula uma mensagem que é deturpada pela oscilação repetitiva de um dedo – aquela brincadeira infantil, que se faz com as crianças; distante, também sob um foco de luz, ervas crescem entre a malha metálica de um microfone defunto. Nunca percebemos a mensagem, talvez não interesse, porque é justamente isso. Lost in translation.

Pedro Cabrita Paiva ensaia um sistema de hacking, não só de ferramentas, de objetos, mas também dos seus significados ou utilizações. Um aparafusador não serve para aparafusar, mas para gastar matéria ou material: o lápis é afiado até ao seu desaparecimento, nas revoluções perpétuas da ferramenta. Depois, o motivo para a escuridão. O candeeiro partiu-se. Em Accident #3, no chão, são as fluorescências dos cacos da lâmpada que irradiam luz, numa lógica completamente inversa à máquina da cidade noturna ou do cinema.

Proposta pelos Primeira Desordem, a desproporção entre créditos fotográficos e imagem em Stones as Themselves é um exercício contraintuitivo e subversivo no que respeita ao nexo cinematográfico, sugerindo uma reversão de peso e medida quanto ao que vale realmente mais: a imagem ou o texto e a nomeação da imagem?

Muito (pós-)ironicamente, a questão e a dúvida não conduzem à frustração, porque o sorriso vinga no rosto e no espírito. Da fuk iz goin on – não sabemos, talvez não queiramos sequer saber – and yet we go on, entre a dúvida da mensagem que não chega, a luz que não ilumina totalmente, a imagem que não impele à ação, mas que vibra de curiosidade, interesse, desafios e estímulos.

And Yet You Go On, na Duplex | AIR, até 4 de dezembro, com texto de João Seguro.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, arquitetura…

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