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Arpad e as cinco, de Ana Vidigal

60 anos de vida e 40 anos de trabalho são assinalados por Ana Vidigal (Lisboa, 1960) através a exposição Arpad e as cinco na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, com curadoria de Hugo Dinis.

Dando seguimento ao seu corpo de trabalho, a artista recorre a elementos que vai recolhendo e guardando, que herda, que encontra ou que lhe são oferecidos. Recupera-os e recontextualiza-os, reconfigurando-os através de colagens que incorpora nas suas pinturas. Trabalha sobre sedimentos, sobre memórias, sobre o tempo, desenvolvendo uma pesquisa estética contagiada por um humor e ironia que lhe são característicos.

Na exposição Arpad e as cinco, apresenta trabalhos que homenageiam cinco mulheres – Maria Helena Vieira da Silva, que nas suas palavras “recorria à lista telefónica para nomes bonitos”, Ana Vieira, “que tricotou furiosamente em Nova Iorque”, Paula Rego, “a meio formiga meio leão”, Lourdes Castro, “que não para no tempo, mas para o tempo”, e uma quinta mulher, uma possível autorreferência.

Em jeito de provocação, com ironia e sarcasmo, Ana Vidigal reestrutura a expressão “por trás de um grande homem, está sempre uma grande mulher” ao homenagear artistas mulheres mais bem-sucedidas profissionalmente do que os seus parceiros masculinos, neste caso também eles artistas, e ao evocar no título da exposição o nome do patrono do museu, Arpad Szenes.

Apesar dos recortes das colagens apresentadas terem origem no arquivo pessoal e familiar de Ana Vidigal – recortes de revistas, livros, cartazes, excertos de desenhos e de trabalhos académicos, entre outros – é possível reconhecer alguns elementos que poderão estar relacionados com o trabalho de cada uma das artistas homenageadas.

A ligação mais direta talvez se encontre em Acabou o glamour – para MHVS, onde se adivinham os recortes do famoso cartaz de Maria Helena Vieira da Silva alusivo à revolução de Abril de 1974, lendo-se algumas palavras da frase “A poesia está na rua”. A própria disposição dos recortes numa grelha ortogonal lembra as geometrias características das pinturas de Vieira da Silva.

Em Bandalha, sou mais mazinha do que ela – para PR, leem-se histórias e reconhece-se o universo de personagens oriundas do mundo animal e a espontaneidade do desenho presentes no trabalho de Paula Rego. Espontaneidade que Ana Vidigal admira e cobiça, referindo-se a esta obra como sendo “a coisa mais bandalha que consegui fazer”.

Uma assemblagem de sacos de papel agrafados uns aos outros onde se inscrevem expressões como “mosquinha morta” ou “pãozinho sem sal” configura Nós, os sonsos essenciais – para LC. O aspecto “limpo” desta obra remete para a clareza da justaposição formal reconhecível no trabalho de Lourdes Castro. Já em Ter mais fôlego para sobreviver – para AV, os recortes de revistas de bordados e a sua disposição definindo uma espécie de perímetro, uma mesa posta, alude ao universo doméstico característico da obra de Ana Vieira.

Por último, no início e no fim da exposição somos surpreendidos com a obra de menores dimensões Errar por último não implica desequilíbrio, onde a artista se refere a si mesma, rindo descontraidamente de si própria, enquanto mulher. Assume assim uma surda posição feminista sem recorrer à estridência propagandística.

A prática arquivística compulsiva de Ana Vidigal, sempre imbuída de uma dimensão pessoal que torna a sua obra de algum modo autorreferencial, motiva o espectador a embarcar numa viagem de observação e reflexão instigada pelo universo imagético que cria através das suas colagens e que articula com os títulos que dá às obras através de um processo “tão divertido como pintar”, conforme refere.

Gera narrativas, conta histórias, enredos que nos envolvem e viciam. Observamos, deciframos, tornamos a olhar, ligamos este com aquele, questionamos e queremos voltar a ver. Num loop contínuo que não cansa uma vez que cada vez que olhamos algo novo se adivinha. Como Clarice Lispector afirma no final do livro Água Viva, “o que te escrevo é um “isto”. Não vai parar: continua”, as pinturas de Ana Vidigal são também um “isto”, não param: continuam.

Arpad e as cinco conduz-nos não apenas a uma reflexão acerca do papel das mulheres no meio artístico e na sociedade em geral, mas também a muitas outras histórias envoltas num divertimento proporcionado pelo humor que caracteriza a obra de Ana Vidigal. Uma exposição sem dúvida a não perder, que poderá ser vista na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva até ao dia 17 de Janeiro de 2021.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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