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O espaço entre nós, de Rosanna Helena Bach

Primeiro, eu quero deixar claro que o que eu escrevo é pessoal. Pessoal no sentido de que eu estive na Galeria Foco, sexta-feira, às 20h00 da noite, habitada por afetos que carrego, entre paixões, crenças e convicções. O que escrevo media relações que foram ativadas no encontro com as obras expostas pela artista. Conversei com o Ben (galerista), com a Rosanna (artista) e com a Manon (curadora). Entrei pela porta da galeria que dá para a rua. Estava movimentado, como é de costume em uma opening (apesar da pandemia). A primeira obra, à esquerda, era uma gravura emoldurada, aparentemente com um papel em branco. Quando me aproximei, a textura de um redemoinho em baixo-relevo ficou aparente. Em seguida, olhei à frente e vi um objeto em vidro sobre uma pedra. A base do objeto em vidro era deforme e logo intui que estava gravada a superfície da pedra no vidro. A partir daí, entrei no universo que a artista construiu. Um lugar limiar – entre – intermediário – de transição – delicado e frágil. Curiosa, adentrei o espaço com olhar de expectativa e tropecei no degrau. Um tropeço simbólico talvez. Ninguém entra no nebuloso mundo do invisível sem perder o equilíbrio. Sair do mundo rotineiro e entrar em estado meditativo, porque é este o lugar que a artista propõe. É suprimir o que é senso comum e abrir um olhar interior.

Quando visitei a exposição, estava lendo o livro Reborn, uma coleção de anotações de Susan Sontag. Em 11/04/56, ela escreve: “Concerning the death of Gertrude Stein: she came out of a deep coma to ask her companion Alice Toklas, “Alice, Alice, what is the answer?” Her companion replied, “There is no answer.” Gertrude Stein continued, “Well, then, what is the question?” and fell back dead.” Rosanna não nos dá nenhuma resposta. Pelo contrário, ela cria um espaço translúcido de perguntas. As perguntas, como o material de escolha das esculturas – o vidro – são ao mesmo tempo reflexivas e transparentes. As gravuras, dez ao todo, sugerem o que a curadora Manon me revela: um realismo mágico. Figuras tiradas de livros de biologia com um twist: “um fruto transforma-se num ovo e dá à luz um cavalo alado.” O traço da artista é delicado, lembram ilustrações feitas por monges góticos à procura de explicações sobre os mistérios da natureza.

As esculturas em vidro coabitam o espaço com três obras feitas em cera. Duas estão instaladas no chão e criam um berço para duas plantas de pequena estatura. O opaco da cera branca cria contraste com o vidro transparente. Uma outra estrutura em cera, de maior dimensão, se encontra em um vão na galeria. Desta vez iluminada, a obra parece ser, como a planta que emerge do topo do material, um produto da natureza. Uma montanha de sedimentos que se formou ao longo de um tempo expandido, diferente do tempo humano. A curadora me relembra: “as pedras estão em constante transformação.” A artista é claramente inspirada por esse espaço-tempo que foge do alcance de um olhar espectador humano. Lembrem: o que está em causa é o limiar, o que não é mais, mas ainda está para ser.

Em uma sala pequena, há um convite: uma almofada branca de frente a uma escultura de vidro opaco. Meditar: focar a sua atenção. Proposta: ser transpassada pelo branco e o que ele representa. Tudo e nada. “O vazio e as possibilidades infinitas.” Em um mundo construído a partir da lógica do excesso, em que somos bombardeados diariamente por um constante fluxo de imagens, esta obra me parece ser um alívio para os nossos sentidos. Ou melhor, um restart da nossa experiência sensorial.

Na última sala da galeria, encontrei uma instalação de ossos de choco. Cuidadosamente alinhados em simetria, os ossos criam um desenho no chão. De alguns dos esqueletos percebi algo reluzente, prata, como se fossem parte daquele animal. Mais uma vez, materiais da natureza são apresentados de forma mágica, “talismãs radiantes”, como escreve Manon.

Susan Sontag em 01/03/57: “Goethe declarou que apenas o conhecimento insuficiente é criativo.” A exposição O espaço entre nós, de Rosanna Helena Bach, reclama por esse lugar de mistério na sua potência fértil. “Dream baby, forever and ever. Dream baby dream.” – a música da banda Suicide me acompanhou na escrita desse artigo e me parece ser não só uma coincidência, mas um lembrete que ressoa com a minha visita ao universo da artista.

A exposição está patente até 5 de dezembro de 2020, na Galeria Foco, em Lisboa.

A autora escreve em português do Brasil.

Maíra Botelho (1991, Brasil) tem uma formação multidisciplinar dentro dos campos da comunicação visual, artes plásticas, filosofia e performance. Atuou profissionalmente como designer gráfica no Brasil após se licenciar na PUC-MG, tendo ainda estudado Artes Plásticas na Escola Guignard - UEMG e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Recentemente concluiu uma Pós-Graduação em Estética - Filosofia na Nova Universidade de Lisboa.

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