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A Corrida – Entrevista a Luísa Abreu na Galeria Sala 117

No âmbito da mais recente exposição individual de Luísa Abreu A Corrida, patente até 01 de agosto de 2020, na Galeria Sala 117, no Porto, com lançamento do catálogo a 25 de julho, fizemos uma entrevista à artista na galeria.

 

Ana Martins – A Corrida distingue-se pela completa apropriação do espaço expositivo, uma obra de arte total, seguindo o princípio de Gesamtkunstwerk de Richard Wagner. Como surgiu o projeto e como criou o desenho, o ambiente e a sua forma?

Luísa Abreu – A ideia de espaço imersivo na experiência do visitante surge, porque houve a oportunidade de fazer uma exposição individual. A Corrida vem de um processo anterior de trabalho, que em atelier se foi transformando e que se relacionava muito com território, mapas e desdobramentos, que despontou durante o período do mestrado nas Caldas da Rainha. Mais tarde fiz uma exposição individual aqui na galeria, que também tinha a ideia de movimento e aceleração e que se chamava Foge-se em grupo porque assim se foge melhor. Neste projeto volto à ideia de deslocação.

O jogo apareceu, porque houve uma série de peças que fui fazendo de cones de marcação, de bandeiras de sinalização, escadas que levavam a qualquer sítio. Havia assim uma noção de deslocação muitas vezes falhada, que estava a povoar um espaço que parecia de jogo, dependendo da localização das peças, que estrategicamente tinham uma noção quase didática.

O conceito de plural sempre foi algo que me interessou e que vai de encontro à minha prática de atelier, onde todas as ideias podem ser misturadas no turbilhão que é a produção artística. Isso permite que tudo possa ser sobreposto, por vezes de forma acidental, onde pode haver erros, que mais tarde poderão ser aproveitados. A exposição foi pensada como um todo para este espaço, para ser vista de uma forma imersiva, do meu próprio ambiente de trabalho, como se fosse o culminar de todas as minhas referências.

AM As paredes do espaço expositivo assemelham-se a um tabuleiro de xadrez, onde encontramos elementos de vários jogos. Qual é a relação da Luísa com a ideia de competição, ou até mesmo de brincar?

LA – A definição de jogo é muito ampla e contraditória, porque não há nenhum especificamente aqui apresentado, há vários em simultâneo, como o xadrez, os dados, ou o Snakes and Ladders. O jogo foi uma ideia visual e conceptual, relacionada com seguir ou quebrar regras, ganhar ou perder, vitória ou derrota. O trabalho em atelier, também é assim, pois há uma imersão absoluta num espaço de liberdade, onde quebrar as regras faz parte do processo. Fiz dança durante muito tempo e retomei recentemente, o que me possibilitou voltar a refletir sobre o movimento, os limites do corpo, o desafio de assumir um risco diferente e a exigência que requer alcançarmos algo de novo com a produção artística. A Corrida é uma viagem, onde vamos saltitando pelas diferentes peças, que nunca assumem uma posição muito específica.

AM – O título da exposição remete para uma ideia de fuga e de movimento, mas também de esforço e cansaço. Como surgiu?

LA – Dei o nome por imensas razões. Uma delas tem a ver com a resistência que eu sinto que é preciso para se ser artista e a ideia de corrida, competição e de meta a alcançar. De nos questionarmos sobre o nosso percurso, a nossa prática artística e como superamos as dificuldades e os obstáculos que surgem quando tentamos alcançar os nossos objetivos.

AM – Na exposição é nos perceptível uma ideia de mapa, ou de território, mas em fragmentos, uma concepção de tempo em aceleração. A Corrida, não será uma metáfora para um ritmo de vida e para uma contemporaneidade, onde corremos contra o tempo e tentamos concluir metas, aceitando vitórias e derrotas?

LA – Eu vejo que a exposição tem muito da forma como vejo tudo aquilo que acontece à minha volta. É sobre a velocidade de raciocínio, as resistências próprias do nosso quotidiano e de não conseguirmos abrandar. A Corrida acabou por ser um trabalho em continuum, porque fiz uma transposição do meu atelier para a galeria, como um jogo, onde foi necessário fazer escolhas, de dispor as peças naquele tabuleiro gigante. Eu queria que os espectadores sentissem que estavam a entrar no meu espaço de produção de ideias, por muito confuso, ou acidental que fosse. Era este mergulho que eu queria que dessem, como quem joga e entra numa outra realidade, que houvesse essa queda para dentro do espaço expositivo.

Annie Martins (Porto, 1990) cofundadora do Coletivo de curadoria Hera, é mestranda em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP. Igualmente foi investigadora do Projeto CHIC apoiando na integração de Filmes de Artista no Plano Nacional de Cinema e no Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses. Licenciada em Cinema pela ESTC do IPL (2007-2010) e em Gestão do Património pela ESE do IPP (2013-2017) colabora como Diretora de Arte em ficções e programas de televisão, assim como começou a escrever para a revista Umbigo.

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