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Overlay de Diana Policarpo, na Lehmann + Silva

“Pangolins had been the most trafficked wild mammal in the world for at least two centuries, more than rhinos, elephants and tigers combined. In 2220 there were no more rhinos, elephants, and only a few scattered tigers in Asia. Pangolins had also been mostly wiped out as a wild species. The majority of the remaining specimens were (in)bred in farms to be trafficked.” Citação retirada do conto de ficção científica escrito por Diana Policarpo (1986, Lisboa) em colaboração com Lorena Muñoz-Alonso, com o título The Living Currency a partir do ensaio de Pierre Klossowski de 1970. Uma proposta de leitura pela artista em conjunto com a visita à sua exposição Overlay na Lehmann + Silva (Porto) até dia 01 de agosto de 2020.

The Living Currency passa-se num futuro pós-apocalíptico onde a maioria da população mundial desapareceu, devido às alterações climáticas, a guerras e a doenças associadas, como o cancro e o COVID-19, assim como a maioria das espécies foram extintas. Os pangolins são os que estão em maior perigo, pois para além de terem sido envolvidos na origem do processo zoonótico pelo qual o SARS-CoV-2 passou de animais para humanos, continuaram a ser mortos, para a sua pele ser utilizada em remédios para a medicina tradicional chinesa, a sua carne consumida como iguaria e como bem de troca, pois os materiais usados no fabrico de moedas esgotaram. Oona, a personagem principal, conseguiu resgatar alguns destes animais e vive numa quinta no Arizona, transformada num santuário para esta espécie em vias de extinção. O seu objetivo é criar um substituto para a pele do pangolim, que possa ser fabricada em grandes quantidades para saturar o mercado, diminuindo o seu valor e a necessidade de caçar e criar estes animais. Com boas reservas de energia, devido à quantidade de sol na localidade, que mesmo assim vai falhando e com pouco contacto com outros seres humanos, Oona continua as suas muitas experiências, guardando o registo de eventos atmosféricos e astrais e tentando medir os diferentes tipos de radiação, absorvendo o seu próprio corpo, ou as transmissões eletromagnéticas com a convicção de uma adoradora ao sol.

Overlay de Diana Policarpo submerge-nos para o mundo do conto de Sci-Fi, segundo o título, por camadas. De acordo com a folha de sala redigida por Ana Anacleto: “Ao entrarmos na Galeria somos convidados a entrar num determinado universo: um mundo onde matéria visual e matéria sonora se cruzam, onde um conjunto de sistemas de linguagem se combina, onde diferentes dimensões geográficas e cronológicas se interligam e onde, diríamos, as condições perceptivas definidas pela artista condicionam mas estimulam, simultaneamente, todo e qualquer processo de produção de sentido.” Justamente, no primeiro piso do espaço expositivo conseguimos sentir o calor do sol, como no mundo de Oona, pelo ambiente coberto de amarelo, em contraste com um conjunto de serigrafias e uma série de esculturas em metal, que se assemelham a desenhos que sobressaem tridimensionalmente das paredes, ou do chão da galeria. Quando descemos ao piso -1 ainda somos surpreendidos por uma instalação sonora The Ultimate Capital is the Sun concebida por Diana Policarpo, através da recolha de sons em arquivos da NASA de matéria solar compilada por cientistas, que podem ser escutados em bancos semicirculares envoltos pela mesma luz amarela que já nos tinha acolhido na sala anterior e que enfatiza o tom futurista e pós-apocalíptico do texto.

A primeira exposição individual da artista na Galeria Lehmann+Silva, tal como já nos havia proposto na instalação multimédia Death Grip (2019) no MAAT, envolve o visitante pela coerência e unidade entre investigação, texto, conteúdos visuais e sonoros, que tanto nos faz submergir, como nos faz interrogar sobre os diferentes códigos de comunicação e de linguagem, as alterações climáticas, a preservação do planeta terra, os modelos económicos e de produção energética.

Annie Martins (Porto, 1990) cofundadora do Coletivo de curadoria Hera, é mestranda em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP. Igualmente foi investigadora do Projeto CHIC apoiando na integração de Filmes de Artista no Plano Nacional de Cinema e no Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses. Licenciada em Cinema pela ESTC do IPL (2007-2010) e em Gestão do Património pela ESE do IPP (2013-2017) colabora como Diretora de Arte em ficções e programas de televisão, assim como começou a escrever para a revista Umbigo.

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