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4 ou 5 degraus em frente a edifício de tijolo, típico de Harlem (Nova York), e uma imagem que perdurará para sempre associada ao jazz e permanentemente à história da música. Os grandes hotéis, as big bands e os loucos anos vinte. Uma cave, muitos cigarros e mais bebida e o pós-guerra em Paris. Mais recentemente contrabaixo, sopros e percussão montanha acima para darem origem a um dos festivais mais originais de que há memória – I suoni delle Dolomiti. Acrescentaríamos as capas de Andy Warhol, muito antes da famosa banana, para Thelonious Monk, Count Basie e Kenny Burrell e o quadro mesmo assim ficaria indubitavelmente incompleto. Longe de qualquer exagero acrescente-se outra ainda – o casulo que Wayne Shorter e respectivo quarteto fabricaram no passado dia 29 no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Nas galerias em pé ou nas primeiras filas assistir-me-á poucas dúvidas em como Shorter e seus comparsas segredaram ao ouvido de cada um dos espectadores, sem presunção, assim espero, uma espécie de metafísica auditiva. 50 minutos de brilhantismo técnico irrepreensível, variações rítmicas de cadências leves e estruturadas e arranjos próprios de quem vê frequentemente acrescentar epíteto de génio ao nome.

Quase uma hora de diálogos constantes entre os quatro músicos, entre dois dos elementos ou simplesmente a solo, curtos para o que costuma ser usual no jazz, de equilíbrios forjados na certeza de quem sabe o que cada nota representa por si só e no seu conjunto. A composição flui entre idas e voltas, caminhos dispersos, que incitam a momentos de distensão e de máxima concentração, sob o risco de se perder cada pequena nuance insinuada. Ao jazz, sobretudo a este género, associo-lhe a particularidade única de um regresso a casa, a um lugar de conforto; mas não necessariamente a um lugar de preguiça. Porque preguiça é substantivo estranho a cada um dos executantes. Ao mais que acalmado Wayne Shorter, saxofone, é dívida eterna de gratidão acrescentar Danilo Perez ao piano, e que bom revê-lo depois de em 2010 ter tocado ali ao lado, na Praça do Museu, na abertura Lisbon Jazz Summer School, John Patitucci, contrabaixo e pessoa serão um só? e Brian Blade na bateria, alguma vez terá jogado nos Harlem Globetrotters? cada toque nos pratos, bombo e tarola é sinal de encantamento. No final lugar para dois dispensáveis encores e que serviram sobretudo para responder a público vibrante e entusiasmado. Os primeiros 50 minutos. Cada um deles, um deleite. Alguém sente necessidade de pedir um galão depois de ter degustado um bom prato de percebes?

Incapaz de ter podido assistir aos concertos de Miles Davis e Charlie Haden, aqueles que ainda devem povoar os escombros do antigo pavilhão do Dramático de Cascais, de ter assistido a Cecil Taylor e Pharoah Sanders, no Jazz em Agosto, e Herbie Hancok, concerto igualmente promovido pela Incubadora d’Artes, será no silêncio dos meus olhos que encontrarão deslumbramento – Eu já vi Wayne Shorter.