Fotografias: António Néu.
Esta bola de espelhos já está mais gasta que a do Vicking.
Final do concerto. Não seria preciso anunciar, mas ouvido – cinco prémios Grammy, presença no Rock and Roll Hall of Fame e outros tantos de igual gabarito, impressiona. É parte do curriculum de Al McKay, trave mestre dos míticos Earth, Wind & Fire e epicentro do concerto que teve lugar na passada Sexta-feira na edição deste ano do EDP CollJazz – Earth, Wind & Fire Experience feat Al Mackay. Impressiona – o número de espectadores, casa quase lotada, ou precisando, jardim retalhado (plateia vip, plateia A, plateia B), mistura intergeracional e, sem margem para dúvida, o maior número de saltos altos por centímetro quadrado de que há memória. Pormenor de somenos? Ajuda-nos a enquadrar, em ser parte de, enfim, a experienciar. Aqui não há cerveja nas tendas, mas sim caipirinha, não há cachorro em pão plástico, mas gelados Santini e as pipocas são cortesia da gentil Edp. É um festival? Sim continua a ser, mas obriga a esforço maior de abstração, em criar fantasmagorias.
É o que faço. Imagino-me Senhor Kowalski. Homem de fino trato que vive sempre ao meio-dia, ou seja sem minuto a mais, nem a menos, sem direito a desperdício, nem excesso. Tenho contabilidade organizada, uso robe de cetim impecavelmente engomado e sentado na minha varanda de largas vistas e muito cachet, recentro o copo de limonada e bebo macchiatto. Rotina atrás de rotina de quem se encontra na pré-reforma aos 55 anos. Sou um dos últimos filhos do estado social. As folhas dos jornais passo-as languidamente, com a certeza que um minuto não fará falta, e fixo olhar em programa de cruzeiro. Estou agradavelmente satisfeito. Sou assim no início do concerto. No meio do mar, com Bloody Mary na mão, perna esticada e muito groove no ar. Músicos tecnicamente irrepreensíveis, capacidade em ajustar os diferentes momentos nas músicas e entre elas, com solos que oram remetiam para universo jazzístico, trombone, ora mais funky ou com vocalizações próximas do soul e R&B. A meu lado, turistas divertem-se e mais à frente Jules et Jim, versão terceira idade. No entanto, e sem qualquer aviso prévio, borrasca a estibordo. Nuvem cinzenta, seguida de outra mais carregada e pelo meio vocalizações descabidas e solos de piano incomensuráveis. A apatia torna-se estado e a dispersão saída de emergência. Mais um pacote de pipocas para matar o tempo e contar o número de tubos multicoloridos que se vão apagando das mãos. E uma pergunta constante – O que nos trouxe aqui? Onde param os grandes êxitos?
A resposta seria dada já perto do final. Novamente bom tempo e corpinhos a abanar ao som de Reasons, Boogie Wonderland, Let’s Groove, After the love is gone e a mais que esperada September. Muitos tinham reencontrado as noites perdidas do Plateau, e eu, qual Senhor Kowalksi, cheio de amor para dar, qual capitão de Love Boat, tinha ancorado na minha ilha de eleição – Creta. Finalista em festa do secundário, jovem enérgico e anca desconchavada. Fui feliz aqui. Houve muito amor para dar. Mas foi curto. Este vento não foi tornado, antes ligeira brisa ao final de tarde, não se corresse o risco de enrugar a pele.







