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A filha de Ryan é um filme de descendência católica, com nuances de modernidade numa terra irlandesa esquecida por Deus, mas que foi abençoada com as mais belas paisagens que já alguma vez tive oportunidade de assistir num filme e no qual o padre desempenha um papel fulcral em toda a trama. Um homem profundamente católico, mas que representa uma força moral para além do tradicional catolicismo.

O filme retrata uma complexa história de amor, de uma jovem sonhadora Rosy (Sarah Miles) que na flor da idade decide casar com o seu ex professor (Robert Mitchum), um homem viúvo, mais velho e sensato, contudo esta sensatez não o permitem manter a sua habitual conduta quando aquela jovem lhe declara o seu suposto amor.

O casamento de Rosy é, sobejamente, desejado pelo padre da vila com o intuito de atenuar os sonhos daquela jovem inconformada com a sua realidade e à espera da oportunidade para abandonar as suas origens e abraçar um mundo moderno, um mundo que apesar de estar em plena primeira guerra mundial, lhe faculte a desconstrução de princípios e conceitos que lhe permitem quebrar todas as amarras da rigidez que lhe foram impostas e que se encontram brilhantemente reflectidas na cena de Rosy com o padre na praia, em que esta expressa o seu receio pelo 3º princípio do indissolúvel sacramento do casamento - a satisfação da carne. O receio não reside no acto em si, mas sim na possibilidade desta satisfação não lhe provocar nenhum tipo de mutação. Quando interrogada pelo padre sobre a mudança que anseia, o olhar da jovem estende-se para o céu onde gaivotas voam livremente, liberdade facultada pelas tão almejadas asas ao som da fantástica banda sonora do filme agradavelmente repetitiva e que nos transportam para uma vida diferente sem no entanto sairmos do mesmo local.

O casamento estava predestinado a não dar certo e esta certeza é-nos apresentada de uma forma peculiar e singela pelo seu realizador, logo nas primeiras cenas do filme, numa caminhada pela praia em que o professor perde o seu chapéu, devido ao vento, e a sua ex-aluna prontamente o vai buscar. Quando ambos voltam a caminhar pela praia, as pegadas do professor sobrepõem-se às de Rosy, mas no sentido contrário ao percurso efectuado por esta quando foi buscar o chapéu. O destino estava traçado, os caminhos cruzam-se mas em sentidos opostos.

Após o casamento a insatisfação rapidamente se instala, Rosy é jovem bela com uma infinidade de emoções em ebulição, emoções que o marido não é capaz de corresponder, não só pela sua falta de interesse pelo sexo, que tão bem ficou patente na noite de núpcias, como pela sua vida pacata e rotineira naquela vila. Esta insatisfação dá origem ao aparecimento de uma condenável traição com a chegada de um Major britânico neurótico e cuja frieza é quebrada por Rosy nos mais belos recantos das praias, falésias e bosques daquela região. A traição vivamente reprovada pela comunidade, genialmente caracterizada pelas crenças, temores e preconceitos que deixam transparecer a crueldade e "alguma" limitação das pessoas que ali habitam, e que dão origem a episódios que jamais seriamos capazes de imaginar nos dias de hoje, utilizando a infidelidade como a base de uma segunda traição, supostamente cometida, ao movimento independentista da Irlanda.

A traição é descoberta pelo deficiente daquele lugarejo, um homem sempre sujeito a brincadeiras desumanas pelos habitantes da vila, sendo somente compreendido e “acarinhado” pelo padre. Este deficiente, fenomenalmente interpretado, quase que assume o papel do coro das tragédias gregas que, embora mudo, consegue comunicar a todos os acontecimentos e os dramas que se seguem em jeito de previsão, sem no entanto conseguir interiorizar as consequências das suas atitudes, uma vez que somente pretende alguma atenção como ser humano que é e algum carinho, principalmente por parte da mais bela rapariga da vila.

Destaca-se igualmente a compreensão daquele marido perante a quebra do sacramento do casamento. A sua postura, perante o verdadeiro Amor, é simultaneamente constrangedora e enternecedora, deixando-nos em mãos com a perplexidade de como a vida pode ser cruel ao não amarmos aqueles que mais Amor nos concedem. Rosy fica com o amargo âmago da culpa e, talvez, com a sensação de que não há resposta para além da resposta geral que a vida dá às questões mais complexas e insolúveis, nomeadamente esquecer e viver a vida aquém do sonho. Destaco, uma vez mais, o padre na cena final em que o catolicismo nos "presenteia" com a separação e a dúvida da sua legitimidade, ficando a cargo de Charles, o marido traído, a mais difícil decisão de quebrar, uma vez mais ou não, com as regras daquela população onde já não tem lugar para existir, perpetuando deste modo ou não os sacramentos tão característicos nas sociedades católicas da época. E desta vez é o chapéu de Rosy que voa...

A Filha de Ryan é de facto um filme sensível e brilhante que tão bem penetra no fundo de cada um dos elementos da história que nos aparenta ser simples, mas que na verdade joga com as emoções e os sonhos mais profundos de jovens ingénuos e adultos ponderados. O filme prima pelo inteligente e belo uso que o realizador faz da psicologia humana, interligando-a com as paisagens que nos oferece, desde o marido robusto, sensato e taciturno que lindamente se identifica com as imagens das falésias, rochas e do mar revolto sem que este mar atinja fatidicamente alguém à semelhança de Charles, até à “ingénua” e fogosa Rosy como seu desejo de liberdade tão bem espelhado nas infindáveis praias, verdes bosques e um céu particularmente azul, isto para não falar do contraste dos lírios brancos plantados no jardim pelo seu marido que lhe aferem a pureza e a sinceridade, e os lírios roxos que aprecem no grande écran na sua primeira incursão na infidelidade com o major britânico.

É um filme muito cadenciado, que julgo que se deva à época em que foi filmado, hoje, de certo não seria assim, mas é esta amenidade que lhe dá o encanto e nos permite envolver com a belíssima música que nos acompanha por toda a trama, mas tocada em compassos ou ritmos diferentes consoante as emoções que pretende enaltecer, música muito bem acompanhada pelas deslumbrantes imagens que o realizador conseguiu enquadrar na perfeição, possibilitando no espectador retratos e sentimentos muito precisos e que de certo mereceu o Óscar para melhor fotografia que lhe foi atribuído em 1971.

Realizador: David Lean
Elenco: Robert Mitchum, Trevor Howard, Christopher Jones, John Mills, Leo McKern, Sarah Miles
Banda Sonora: Maurice Jarre
Duração: 195 min.
Ano: 1970
País: Reino Unido
Género: Drama