Segundo o seu criador, Nicolas Ghesquière, Flora Botanica "Numa primeira impressão, é uma composição muito floral, quase romântica. Mas mais adiante, adivinha-se um carácter mais forte e mais obscuro. É um perfume que eu gosto de imaginar como terno e perigoso. Um perfume fascinante e perturbador."
Outro dizem que se trata de um conto de flores mágicas.
Desta vez, era preciso partir. Era um costureiro cujas mãos deslumbravam o mundo e vinham pessoas tocar a bainha dos seus vestidos como quem consulta curandeiros. As suas túnicas exuberantes, o seu tecido gazado de Abrão, um tecido encantado que se segura sozinho, os seus casacos semi-cintados, construções ocultas que envolvem qualquer mulher com uma aura de elegância… Mas, ele já tinha realizado tudo e o tédio apoderou-se dele. Partilhou os seus vestidos e os seus desenhos mais autênticos com os seus amigos. Também se separou dos quadros com os quais tinha decorado as paredes da sua casa. Contavam a sua paixão por Espanha, a sua inspiração inicial que procurava nas telas enfeitiçadoras de Goya, de que guardou no altar do seu espírito esta frase singular: "Na natureza há apenas preto e branco".
Retirou-se para os confins de uma floresta selvagem onde, entre a vegetação hostil, nada despertava a sua criatividade. Mas ele, que pensava ter repudiado a sua imaginação, não conseguiu deixar de desenhar alguns esboços. Indignou-se consigo próprio por ter, uma vez mais, cedido à fraqueza de desenhar. E sem emoção destruiu os preciosos desenhos, que iluminaram a terra escura. O solo comoveu-se ao receber esta chuvada de linhas puras e absorveu o fino pergaminho rasurado de génio… Na primavera, rebentos de seiva barroca que desafiavam a paleta cromática, despontaram numa grande insolência.
Por todo lado, falou-se dessa região secreta de cores incandescentes. Uma jovem solitária e insubmissa quis ter a certeza de que a lenda era verdadeira. Era ardente e misteriosa e os seus olhos cor de lago agradaram à floresta tenebrosa. Um esboço de caminho surgiu diante dela. O costureiro não a pôde mandar embora porque ela tinha dons de musa: ela mudava de nome conforme os dias e a cor das nuvens…Juntos, listaram todas as plantas fantásticas. Vermelhos frenéticos como os cravos, flores caras ao passado do criador. Caules com reflexos de ouro, como âmbar correndo nas veias. Folhas verdes vivificantes, como a menta ou o vetiver. A esmeralda cingida de púrpura.
Mas que flor seria a rainha deste orgulhoso jardim?
E o costureiro concentrou-se no mais flamejante dos seus desenhos. Não era um vestido. Era uma obra botânica… Pétalas delicadas e graciosas. Do vermelho ardente no coração. Um pistilo de carmim venenoso. Uma corola franjada de noite… Era quase uma rosa. Uma rosa de espírito. Uma Rosa Experimental, Rosa Experimentalis. O seu perfume cativava. Tinham concluído o herbário das plantas maravilhosas. De manhã, a jovem tinha desaparecido … Na ternura do dia, ele colhia as suas flores mais preciosas que fechava num frasco, o qual não resistiu a conceber.
Um frasco direito e íntegro que lembrava o seu traço determinado, quando as dobras dos seus vestidos escondiam fantasmas de arquitectura. E, uma vez que um jardim viveria doravante nesse frasco, obedeceu às imposições do pintor adulado. "Na natureza só existe preto e branco": seria assim a oposição destas duas não cores que se veria melhor através do líquido, um estranho orvalho que lhe evocava os seus olhos cor de chuva. Muito tempo depois, descobriram o frasco perfeito. Ele exalava um perfume de uma tão incrível beleza que enfeitiçava todas as mulheres. Procurou-se o segredo desse perfume, mas depois de o ter dissecado, analisado, colocado numa proveta, submetido aos laboratórios, três botânicos, um biólogo e quatro perfumistas, incapazes de explicar esta irredutível maravilha, perderam a cabeça.
Eis o novo perfume da casa Balenciaga.
Um perfume também surpreendente tanto pela sua fragrância como pelo seu design, uma experiência sensorial absoluta que o seu autor, o criador , nos vai ele próprio explicar.
A inspiração de Nicolas Ghesquière
Trata-se de expor o universo floral próprio do vocabulário da perfumaria a experimentações quase científicas, para criar um objeto inédito no aroma e no visual. Aliar o fantástico e o ultra contemporâneo da marca Balenciaga. "Há uma verdadeira dualidade em Balenciaga, entre classicismo e experimentação. Para este novo perfume, eu queria ir mais longe na exploração deste paradoxo, o puro e o enigmático. Há alguns anos, eu tinha desenhado esta 'coleção floral'. Os vestidos estavam cobertos de flores, mas estas flores não eram nem encantadoras nem românticas. Elas estruturavam toda a silhueta. Eu quis que as flores deste perfume exprimissem esta mesma ideia."


