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Elene Usdin transporta os segredos do seu imaginário através da sua lente para revelar em mágicas fotografias. A fotógrafa francesa representa sonhos e pesadelos através do seu trabalho. Os contos de fadas, a mitologia e a fantasia são elementos que rodeiam o seu imaginário. Elene Usdin é membro do colectivo Hartlandvilla, com o qual tem desenvolvido experiências, transformando-se ela própria em várias personagens, muitas delas heroínas dramáticas. Começou por trabalhar em ilustração tendo sido publicada em diversas revistas pelo mundo fora. Actualmente é na fotografia que deposita toda a sua forma de expressão, não só na área da moda como em auto-retratos que tem vindo a desenvolver, revelando a intimidade da sua própria história. Em 2006 ganhou o Picto Prize for Young Fashion Photography e este ano ganhou o prémio de fotografia PX3 devido a um auto-retrato.

Dizes que as tuas fotografias são o teatro dos teus fantasmas e revelam a tua história. Qual é a tua história e como coordenas estes elementos nas tuas imagens?

Eu tenho um gosto especial pela teatralidade das situações e pelas personagens dramáticas, o que já vem desde a minha infância. Quando era criança a minha mãe fez da sua vida um cenário de teatro. Ela poderia morrer dez vezes por dia, os pequenos medos tornavam-se em grandes dramas, o seu acesso ao divertimento provocava-lhe o choro, ou então era transportada pela sua tristeza. Ela era uma rapariga supersticiosa perdida num ilimitado espelho. Tinha medos inexplicáveis. À nossa volta vagueavam lobos, vampiros, bruxas. Eu tinha dez anos, era fantástico e terrível ao mesmo tempo. Ela gostava de nos vestir, a mim e às minhas irmãs, como princesas ou bailarinas e depois organizava sessões de fotografia com toda a família. Neste período o meu pai instalou um quarto escuro no apartamento. Este local era um autêntico porto de paz. Era ele próprio que imprimia as fotografias e eu gostava de ficar fechada com ele lá dentro, era reconfortante e mágico. Acredito que sou assombrada por criaturas metade anjo metade diabo. Terríveis e defensoras, selvagens e sofisticadas ao mesmo tempo. A dualidade dos seres e os sentimentos fascinam-me. Eu adoro o homem disfarçado de mulher. A pureza que nós sujamos no final, como a imagem de uma boneca desmembrada. Eu tenho curiosidade pelo desejo erótico que pode provocar a inocência, a ligação a um amor que pode magoar. Estes sentimentos são o coração do meu trabalho e tento traduzi-los em imagens. O que sou eu, onde é o meu lugar? As minhas fotografias são tentativas de respostas.

Após trabalhares em ilustração descobriste a fotografia. É a melhor forma de expressão para contares as tuas histórias?

Hoje penso que sim, porque remonta à verdadeira representação da realidade. O que eu gosto nas pinturas é acima de tudo a forma pictórica, o assunto da pintura, a linha do desenho e as cores. O que me interessa na fotografia é a situação que se está a jogar, a escolha dos elementos numa estrutura, e menos a forma estética.

Começas sempre as tuas ideias e fotografias com desenho. Fala-me desta relação entre o desenho e a fotografia.

O desenho para mim é o tradutor das minhas ideias. É a ponte entre a imaginação e a realidade. Os esboços permitem-me materializar as ideias e explicá-las às pessoas que trabalham comigo. É uma forma de olhar para as minhas ideias e de prevenção para que não desapareçam. A fotografia ordena estas invenções na realidade.

Pensas numa ideia como um sonho acordado e contas as tuas histórias através da moda?

A moda não é um fim em si mas uma forma de contar histórias, é o pensar através da representação do corpo. É adorno e ornamento. Sobre o que é mostrado e o que é escondido.

Quem são as tuas heroínas?

As Amazonas, Patti Smith, Tootsie, Cassandra, Xerazade e Helena de Troia.

Como descreves o teu imaginário?

Às vezes acordo de manhã e os meus sonhos são muito precisos, incrivelmente ricos e estranhos. Chego a pensar se não existirão dois mundos paralelos... Usar estes sonhos lúcidos para as minhas fotografias é um pouco o juntar destes dois mundos.

Crias cada elemento e acessórios das fotografias por ti própria. Conta--me como.

Por vezes as minhas ideias requerem a manufactura de alguns componentes. Eu desvio a função primária e tamanho do objecto. Comprei uma máquina de costura que uso para fazer as roupas e acessórios de que preciso. Primeiro desenho os elementos e depois escolho os tecidos e produzo partes, mas não tão bem como uma costureira. De qualquer forma as roupas e décors são usados unicamente durante o tempo da sessão fotográfica, não necessitam de ser fortes. Adoro usar materiais como lã e plástico. A minha avó ensinou--me a tricotar e a amar a lã. A série Barbe Bleue é em memória das bonecas de lã que faziamos juntas quando eu era criança.

No mundo do photoshop tu nunca retocas as tuas imagens. Porquê?

Eu gosto das fotografias quando elas mostram um cenário realista num determinado momento. Se eu quero ter uma rapariga voadora numa fotografia, peço a um homem para posar com ela e segurá-la nos braços de forma a elevá-la. E depois prefiro pintar o homem nas mesmas cores do plano que está por trás para dar a ilusão que não está ali, em vez de retirá-lo na pós-produção. Adoro quando a realidade parece ter sido feita num palco ou teatro.

Tens diferentes séries, algumas delas têm uma inspiração algo infantil (como Barbe Bleue) ao passo que outras são muito glamorosas e fetichistas. Como é que obtens inspiração para temas tão diferentes?

As minhas inspirações vêm de histórias da minha infância, os meus anos de teenager e a minha vida enquanto adulta. Para mim existem histórias ricas e metafóricas tanto nos contos de fadas como na mitologia grega e tibetana. Os principais temas da morte, vaidade, desejo, sedução e a presença de criaturas inocentes, cruéis ou demoníacas ou vítimas do seu próprio destino. O glamour e fetichismo também falam sobre isso de certa forma. Eu sou fã da multiplicidade da representação da mulher, a sua imagem e o desejo que ela inspira. Com inocência, virgindade, glamour, estranheza ou magia.

Também vejo cinema em algumas das tuas imagens, especialmente na série Lucie. Que tipo de cinema e realizadores aprecias? Influenciam-te no teu trabalho?

Algumas personagens de filmes estão no meu imaginário. Para Lucie pensei no filme de Hitchcock Suspicion na parte em que Cary Grant leva um copo de leite a Ingrid Bergman, seguimo-lo nas escadas, e o copo é iluminado por dentro. Toda a tensão da cena está focada no copo de leite. Estará envenenado ou não? Eu pensei em fazer o mesmo e iluminei diversos objectos na parte interior como o vestido, a mala e o copo. Eu gosto da tensão, do suspense e da presença de sonhos e do inconsciente que podemos encontrar nos filmes de Hitchcock. Mais do que um realizador em particular, influenciam-me algumas histórias e algumas “mises en scéne". Gosto dos filmes Elephant e Last Days de Gus Van Sant. Os filmes de Lars Von Trier, especialmente Dogville. Gosto de Journal d’une Femme de Chambre de Buñuel, de La Vie est Belle de Lubitch, Shinning de Stanley Kubrick, e de Tudo Sobre a Minha Mãe de Almodovar.

Para os teus auto-retratos foste forçada a estudar a tua pessoa a nível físico e emocional. Já conseguiste fazer o auto-retrato que desejarias projectar?

Eu uso o meu corpo para encenar uma personagem; saio de mim própria nesses momentos, como se fosse uma outra pessoa. Como uma marioneta sobre a qual tenho o controlo total. Tudo isto parece muito narcisista mas é o caminho mais fácil que encontrei para estar completamente envolvida na história que quero contar. Eu posso forçar-me a mim própria a qualquer pose em qualquer lugar, a qualquer hora e com qualquer estado do tempo. Com uma modelo eu tenho de me preocupar com o seu conforto, inconveniências e tempo. Mas quando olho para o meu auto-retrato depois de impresso, apenas vejo uma modelo, está longe de mim própria.

Fala-me da tua experiência no hotel em Marselha.

Eu fui para Marselha por impulso, levando comigo a minha câmara nova. Estava a sentir-me insegura e sózinha em Paris, não sei porquê mas senti que não havia lugar para mim na cidade naquele momento. Então, quando cheguei a Marselha, descobri um hotel e à noite estava a sentir-me entediada. Resolvi disfarçar-me com collants, cuecas e roupas que tinha levado comigo. Coloquei a câmara em cima de uma cadeira, programei o timer e comecei a posar com a minha face encoberta. Estava a tentar misturar-me com as mobílias do quarto. Não sabia muito bem o que estava a fazer, não havia controlo ou reflexão. Foi a primeira vez que coloquei a câmara à minha frente e foi uma experiência estranha. O resultado foi suficientemente bom para que um amigo me encorajasse a continuá-lo. Então, recomecei a experiência num hotel em Paris. Agora quando saio por alguns dias, levo sempre alguns acessórios comigo e a minha câmara.

Disseste uma vez que as tuas imagens são como sonhos lúcidos, como um jogo, palavras num poema, encenando o corpo e reapropriando o espaço, a tela, e os objectos à sua volta. Gostava que comentasses esta frase.

Na poesia as palavras são usadas com outro sentido para produzir metáforas. O poeta inventa imagens com palavras para nos fazer sentir a sua emoção. Eu gosto de desviar um objecto do seu primeiro uso. Pode surpreender e contar uma história, a realidade pode tornar-se mágica e engraçada. Como as crianças quando inventam uma cabana no quarto escondendo-se por baixo de cobertores.