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About Today – João Louro na zet gallery

About Today, de João Louro, na zet gallery, com curadoria de Helena Mendes Pereira, é uma exposição individual que proporciona ao visitante um percurso pela obra do artista, com trabalhos produzidos entre 1995 e 2019, marcados por uma reflexão pertinente sobre a contemporaneidade, pelo uso de diferentes práticas artísticas, referências de vários campos culturais e à utilização da linguagem e da palavra escrita, como meio de reflexão, redefinição e desconstrução da realidade.

João Louro (n.1963), um dos artistas portugueses mais conceituados da sua geração, na exposição seminal Imagens para os anos 90 (1993, Serralves) apresentou This is not communication #1 e #2, obras que iriam servir de mote para o desenvolvimento da sua prática, lado a lado com um conjunto de artistas, que iriam ser determinantes para a atual arte portuguesa. Louro, tendo como influência a arte Pop, o minimalismo e o conceptualismo, espelha na sua prática um pensamento crítico acerca do tempo em que vive, uma nova análise da imagem na cultura contemporânea, partindo do cinema, da literatura, ou da música, através do uso da pintura, da fotografia, da instalação, ou da linguagem, um conjunto de signos, que permitem ao espectador descodificar e criar os seus próprios significados.

Em About Today, inicialmente somos confrontados com Et Dieu Créa la Femme (2011) referência ao filme de 1956 de Roger Vadim, protagonizado por Brigitte Bardot. João Louro, pelo meio de um jogo de palavras, lança uma das premissas da exposição, homenagear a Mulher, questionando o seu papel na origem da criação e na sua emancipação, enquanto musa e objeto de representação, contemplação e inspiração dos homens das artes e das letras. Seguindo-se Love (2004), um néon, com referência à cultura pop; Man is a Being Made of Scars (2017), pintura sobre vidro, com palavras inscritas, em que o artista transforma a frente de um camião, relembrando-nos Crash (1996) de David Cronenberg; e Blind Image #221 (2019), de uma das suas sérias mais conhecidas, onde o passante pelo reflexo do plexiglass da pintura, juntamente com a legenda, pode criar um plano do seu próprio filme.

Na segunda sala da galeria salientamos Cover # 18 (Dylan Thomas), apresentada no âmbito da representação de Portugal na Bienal de Veneza de 2015, trabalho que acentua as referências literárias de Louro e a desconstrução da imagética contemporânea, redesenhando a capa do respetivo livro; L’Avenir Dure Longtemps (2003/4), acrílico sobre letras metálicas e título do livro homónimo do filósofo francês Louis Althusser, traduzido do francês: “o futuro dura muito tempo”, que expressa as várias dimensões do tempo e a forma como o percecionamos; ressalvando The Plagues (2001) em que o autor num gesto neodadaísta, reescreve em placas de sinalização, pragas que poderão arrebatar a humanidade, como um prenúncio da atualidade pandémica. A sinalética, conjunto de sinais reconhecíveis pelo olhar comum é envolvida por uma estranheza, faltando-lhe o referencial habitual, podendo então ser lida, de acordo com o espectador, tornando-se uma obra aberta, conceito explorado pelo filósofo e escritor italiano Umberto Eco.

O último momento da exposição destaca-se pelo projeto História do Crime (1995) em que João Louro constrói um novo dicionário, redefinindo um conjunto de palavras. Todo este espaço foi pensado para apresentar a obra, um culminar da pesquisa do autor sobre a sua prática artística, sendo que Arte foi a primeira palavra a que Louro procurou dar um novo significado, relembrando-nos o conceptualismo de Joseph Kosuth ou do coletivo Art & Language. Em entrevista a Helena Mendes Pereira, o artista afirma: “A invenção da palavra é o mecanismo que considero mais sofisticado da criação humana (…) Estava convicto que o mundo tinha abusado das palavras e as tinha desqualificado. Era um projeto revolucionário contra a decadência do mundo (…) o testemunho desse mesmo crime”.

João Louro, artista visual que declara que “a arte é sinónimo de liberdade”, em About Today na zet gallery, faz com que fiquemos a conhecer um pouco melhor sobre a sua prática artística, o seu tempo e o seu mundo, simultaneamente permitindo que pensemos sobre o nosso passado, presente e futuro e o nosso olhar perante todos os símbolos que nos rodeiam. Finalizando com as suas palavras: “O meu processo criativo parte sempre do tempo, do meu tempo, do tempo em que vivo! Ele resolve e preenche tudo. E o que é que tempo pede? Essa é a pergunta que é sempre feita sem perguntar”.

Na sequência do Estado de Emergência em vigor, que levou ao encerramento das atividades culturais, a zet gallery proporciona que a exposição seja visitada virtualmente, assim como através de uma série de visitas guiadas pela curadora disponíveis nas redes sociais.

Ana Martins (Porto, 1990) é licenciada em Cinema pela ESTC do IPL, Gestão do Património pela ESE do IPP e mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)”. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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