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Os Verdes Anos

Em 2001, Raquel Freire tem 26 anos e realiza a sua primeira longa-metragem, Rasganço. O filme é uma carta de amor raivoso a Coimbra. É o seu olhar sobre as tradições e códigos de comportamento seculares, mas também sobre a cidade que admira profundamente e onde afirma, por várias vezes na nossa conversa, ter vivido os seus “verdes anos”.

Em 2019, marco encontro com a Raquel depois da exibição de Rasganço na 13ª edição do Motelx. Foi o Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que nos recordou que o filme atinge este ano a sua maioridade. Este texto não demorou dezoito anos a ver a luz do dia, mas está a dever algumas semanas ao deadline inicial. Ao ouvir agora a nossa conversa de então, reforço a convicção de que nada acontece cedo ou tarde, apenas no momento certo. Escrevo este texto poucos dias depois do novo governo tomar posse. Ouvir alguém dizer que aprendeu a ser cidadã em Coimbra, no exercício das suas funções como Presidente da Associação Académica, relembra-nos o critério de exigência que devemos aplicar aos nossos governantes e também ao nosso papel como participantes no processo democrático.

Portugalidade, o teu nome é Maria dos Anjos

“O início do filme é uma espécie de conto de fadas, onde tudo é lindíssimo, e depois vamos percebendo o que está por trás disso tudo. A arquitetura que segura essa aparência toda são camadas e camadas e camadas de opressão e de exclusão e de injustiça. E quem diz isso é o Professor na primeira aula a que o Edgar vai assistir. É o Professor que diz que o Direito não existe sem o valor da Liberdade. E a liberdade implica não sermos excluídos à partida. Não há igualdade sem liberdade. Coimbra ensinou-me o peso e a responsabilidade da liberdade. Fechei a Universidade com os meus colegas, fizemos grave aos exames, desobediência civil, boicotámos as propinas, levantámo-nos contra um governo”, diz Raquel Freire com um brilho feroz nos olhos que parece acompanhar de forma quase permanente o seu discurso. Em Rasganço, toda a crítica apontada a Coimbra – e a ela própria enquanto estudante – é fruto do já proclamado amor profundo que tem pela cidade e pelo tempo que lá passou. “É precisamente quando se gosta que tem de se conseguir fazer esse exercício do pensamento crítico”, diz. “Só assim vivemos em democracia. Pormo-nos no lugar do outro. Neste filme estamos sempre a ver pontos de vista diferentes”, conclui.

Rasganço conta a história de Edgar, um jovem que chega a Coimbra como outsider: não é estudante, não tem dinheiro, não pertence a nenhum família tradicional. Por muito que tente, esse mundo continua fora do seu alcance e o fascínio inicial que sente por Coimbra rapidamente se transforma em raiva. Exerce a sua vingança sobre a cidade através da violação e mutilação das suas mulheres. A primeira a acolhê-lo é Maria dos Anjos (interpretada por Paula Marques) uma mulher simples que há muito aceitou com naturalidade o seu papel na hierarquia vigente. Apaixona-se por Edgar e, talvez por ele a ver como uma semelhante e não como parte da “realeza” de Coimbra (como acontece com as outras mulheres) é a única em quem não toca.

Maria dos Anjos tem como confidente D. Afonso Henriques. É ao seu túmulo que se dirige quando quer pedir pelo bem de Edgar. É com essa mesma devoção que faz justiça pelas próprias mãos quando descobre a verdade sobre o seu amado.

Maria dos Anjos parece, à primeira vista, uma personagem que existe em função de Edgar, com pouca influência em nome próprio para a evolução da narrativa. No entanto, num momento de glória, revela-se como a espinha dorsal do que é ser mulher. “Ela representa para mim a nossa Portugalidade. O oposto do que dizia o Salazar, a nossa Portugalidade mais profunda que é pagã, que é de uma mulher que fala com o nosso primeiro rei. Ela tem um conceito de justiça que a mim me vem muito do que é este país. Um país muito pequeno onde as pessoas têm de fazer justiça por si desde sempre, inclusive os reis”, explica Raquel. “Nós portugueses não somos nada de brandos costumes, isso foi um mito que inventaram para nós. Nós somos apaixonados, sanguinários, super dramáticos. Tanto que D. Pedro arranca o coração de um dos seus melhores amigos porque este matou D. Inês. E isto [o Rasganço] era também o meu olhar sobre a nossa forma de ser. Nós somos muitas formas de ser em Portugal, mas há uma Portugalidade que não é nada de brandos costumes, por muito que a tentem domar. É apaixonada e forte e violenta quando é necessário. Se for necessário pegar fogo a um homem que é um violador, ela pega. Da mesma maneira que vai pedir por ele. A justiça feminina também é tudo isto. As emancipações deste filme também são para mostrar que não há uma forma de se emancipar correta, não há uma forma de luta correta, todas são”, afirma.

Rasganço, um slasher film à Portuguesa?

A presença de Rasganço na 13ª edição do Motelx pode causar estranheza a alguns embora seja fácil, para qualquer fã de cinema de terror e género, encontrar no filme marcas que não ficariam desajustadas num slasher clássico (a começar pelo título). No entanto, sentados no cinema, sentimos que essas referências não existem na génese de Rasganço. São camadas que acrescentamos à posteriori. A realizadora confirma que não é uma fã do género, mas identifica-se com uma vontade de retratar a violência. Quis filmar o que não via no cinema português, uma obra brutal e sanguínea como somos no dia-a-dia, especialmente quando temos a força das hormonas ao rubro e do acreditar que tudo está ao nosso alcance e que tudo tem um carácter irreversível: é o maior amor da nossa vida, o maior ódio, a luta mais importante. “Era o desejo de retratar a violência sobre as mulheres, a violência dos estudantes sobre quem não é estudante, a violência de quem é rico sobre quem não tem esse privilégio, e toda uma outra série de violências constantes, sociais, diárias, que tu vives. Não poder entrar num sítio, ser barrada porque não tens a roupa certa, porque não fazes parte do clube. Não é acharmos que somos todos muito revolucionários porque estamos a lutar contra as propinas e depois a pessoa que não tem dinheiro não pode entrar na festa. Isso não é ser revolucionário. E a crítica a esse tipo de revolucionários está no filme e eu era uma das pessoas. A auto-crítica está lá toda”, afirma.

No entanto, neste retrato, é importante fazer uma ressalva à utilização da violência como mero elemento narrativo e estético. Como quem usa uma faca sem a noção de que pode rasgar a pele e furar órgãos vitais. Nesta 13ª edição do Motelx, Raquel Freire era também júri do Prémio MOTELX – Melhor Curta de Terror Portuguesa / Méliès d’Argent e fez questão de dar voz a esta ideia. “Há um filme que foi apresentado… eu e outro realizador [também júri na mesma competição] dissemos que não queremos mais filmes assim. Já chega. Cinema também é vida. Mais uma vez uma mulher a ser agredida e nada acontece. Escrito por um homem, filmado por um homem. Parem de fazer esses filmes. A mensagem que estão a perpetuar é de impunidade”, afirma Raquel.

Os não tão verdes anos de uma nova geração

Um dos segredos bem guardados de Rasganço é que Raquel Freire descobriu que estava grávida no terceiro dia de rodagem. Contra tudo o que está escrito nos livros, resolveu continuar a filmar. “Estava no momento mais feliz da minha vida, a realizar o meu sonho com as pessoas que eu mais amava, a filmar este tema com o máximo da liberdade e com todas as pessoas, do ponto de vista artístico e humano, que eu queria ao meu lado. Senti que era o momento certo para ter um filho, porque estava em harmonia comigo e com o mundo”, diz.

O filho, agora com 18 anos, viu o Rasganço pela primeira vez no Motelx e disse, no meio de um abraço à mãe, que não imaginava que ela tivesse feito um filme assim. Tem o privilégio de ser educado por uma ativista, não apenas no sentido mais imediato da palavra, mas também no sentido de alguém que vê a ação – o ato de fazer – como uma arma contra a ideia de que já não há futuro. Diz que a curta-metragem vencedora da competição do Motelx – Erva Daninha, de Guilherme Daniel – era sobre a desesperança e que foi isso que mais a tocou, porque vê esse sentimento espelhado na geração do filho. “Desde pequeno que faço com ele o exercício de perguntar se o copo está meio cheio ou meio vazio. Para além de lhe dizer que ser feliz é um ato político. Tu escolhes ser feliz, tu escolhes ao que dás importância. Tu escolhes se dás importância a ter um Instagram onde montes de gente faz likes, em não ter um Instagram ou ter um Instagram onde publicas as coisas de que gostas e ponto final. E isso causa-te ansiedade ou não. E escolhes o que fazes com esse tempo: se o gastas ali ou a compor música ou a gravar. O mais fácil hoje em dia é as pessoas estarem entretidas. Está tudo feito para isso. E isso não é viver”, afirma.

Colaboradora da Umbigo desde 2000 e troca o passo, a relação tem sobrevivido a várias ausências e atrasos. É formada em Design de Moda, mas as imagens só (lhe) fazem sentido se forem cosidas com palavras. Faz produção para não enferrujar a faceta de control freak, dança como forma de respiração e vê filmes de terror para nunca perder de vista os seus demónios. Sempre que lhe pedem uma biografia, diz uns quantos palavrões e depois lembra-se deste poema do Al Berto, sem nunca ter a certeza se realmente o põe em prática ou se é um eterno objectivo de vida: "mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"

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