Às vezes era só uma pessoa. Às vezes duas ou três. Por vezes, raramente, mais.
Perfeitos desconhecidos juntavam-se durante breves segundos e fixavam a parede. Pouco depois iam-se embora, sem troca de palavra ou olhares. Era um cerimonial que se repetia várias vezes ao dia, todos os dias que o ano tivesse.
Para quem não fosse practicante, poderia parecer estranho, caricato até. Uma idiossincrasia citadina, como os engarrafamentos de trânsito ou as filas para o autocarro.
Em locais estratégicos da cidade acontecia aquilo. O ritual da última edição. Quanto mais movimentado fosse a altura do dia, maior o poder de atracção daqueles locais. Mas era um magnetismo selectivo, sem influência sobre jovens ou infantes.
Olhando melhor viam-se que eram restos. Restos mortais.
Os mortos apareciam expostos na praça pública como medida cautelar. Morre e acabas impresso numa folha A4 a jacto de tinta, com uma foto tipo passe no canto superior direito a adornar este teu último acto na Terra.
(Talvez por isso os escritores sintam a necessidade de encher páginas e páginas antes de se verem reduzidos à fatídica última folha de papel. Talvez.)
Todas as alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, sonhos e pesadelos reduzidos a uma folha A4 de 80g/m2 e palavras utilitárias. É uma forma pragmática de encarar o fim. Numa resma cabem quinhentas almas. Mil se forem frente e verso.
É curioso como nascemos de forma tão privada para depois morrermos uma morte tão pública, à frente de todos, enquanto os vivos vão aos bancos, ou tomar café, ou apanhar o autocarro, num qualquer dia útil das suas ocupadas vidas.
Mas não era dos mortos que elas – as pessoas dos ajuntamentos – queriam saber. Todas aquelas pessoas. Se fossem sinceras admiti-lo-iam, o real motivo.
Era saber se ainda estavam vivas.

























