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Regressar à casa: Yoshitomo Nara no Museu Guggenheim Bilbao

Yoshitomo Nara diz que tem medo de mudanças. A sua atual exposição no Museu Guggenheim Bilbao, porém, mostra-nos uma produção artística que, ao longo de quarenta anos, se tem desdobrado, corajosa e humildemente, por diferentes escalas, técnicas, formatos e tonalidades. É verdade que um motivo comum perpassa todas as suas obras: é sempre através das crianças que o artista japonês, um dos mais destacados da sua geração, aborda temas como a memória, o lar ou a violência. Ainda assim, há claras e importantes subtilezas que se vão desenvolvendo entre as suas ilustrações, instalações e esculturas; entre cores vibrantes, sólidas, e pinceladas que se sobrepõem e acumulam, revelando as várias camadas de tinta que compõem cada bloco cromático; entre os traços ágeis de alguns dos seus desenhos e as texturas suaves, de contornos esfumados, noutras composições.

Nesta que é a sua mais recente retrospetiva numa instituição europeia – nos últimos anos, Nara expôs uma profusão das suas obras na Pace Gallery, em Geneva, e no The Albertina Modern, Viena –, as transformações e diferenças que mais saltam aos olhos dos visitantes são, precisamente, aquelas entre as expressões das meninas que Nara retrata. São os olhares, potentes e penetrantes, que vão ganhando cada vez mais centralidade nas suas telas, e que nos guiam através dos seis núcleos temáticos no museu, como concebe a comissária Lucía Aguirre, em estreita colaboração com o artista.

Por entre as experiências da inocência, da fantasia, mas também da culpa e da perda, não há olhos distraídos: nas miradas das suas figuras, a brincadeira de criança reveste-se de medo, raiva, melancolia – uma espécie de lucidez incomum, uma consciência sobre a complexidade dos afetos que nos assalta pela sua precocidade e, por vezes, pela sua frontalidade desconcertante. Por mais caricatas, joviais e fofas que se pareçam as suas personagens, fisga o desejo de desviar o olhar diante de trabalhos como Too Young to Die (2001), Slight Fever (2001) ou Dead Flower 2000 Remastered (2020), onde se vê, respetivamente, uma criança a fumar, a estancar um ferimento no próprio braço e a empunhar uma faca com um sorriso malicioso e dentes ensanguentados.

Igualmente incómodos são os olhares que, por alguma razão, se encontram obliterados. Depois do excesso a que nos acostumamos nas íris pintadas por Nara – recheadas de sonho, brilho e, se quisermos, fantasmas e vultos –, a ausência do encontro olho-no-olho acaba por nos deixar algo desamparados, sequiosos por mais. Em alguns casos, são curativos que nos interceptam, carregando, uma vez mais, a marca de uma ameaça ou abuso latentes. Em outros, é uma certa melancolia que faz pesar as pálpebras, impregnando as imagens de um tom sentimentalista, introspectivo, envoltas em metáforas noturnas (Dead of Night, 2016; Miss Moonlight, 2020). As lágrimas quase que poderiam escorrer pelas telas (Midnight Tears, 2023) – e de facto chegam a se derramar, mas em forma de escultura, numa fonte de cabeças chorosas empilhadas que desaguam numa chávena, no centro de uma sala tornada azul (Fountain of Life, 2001/2014/2022).

Não deixa de ser curioso – e belo – que, para Yoshitomo Nara, a fonte que jorra a vida é o transbordar de emoções – estas que, quando somos crianças, vêm e vão num ímpeto, sem que as nomeemos, repletas de mistério e vigor. No seu trabalho, há, também, uma tentativa de resgatar essas águas em que mergulhamos e nos banhamos, com tanta abertura e espontaneidade, enquanto ainda muito jovens. Sem dúvida, resta-nos o sabor agridoce de uma nostalgia pelo passado (como será que uma criança, cuja infância é nada mais que o agora, cujos olhos, fascinados, são ainda capazes de imaginar, verá e sentirá essa exposição?), uma vontade de regressar, ao mesmo tempo, à segurança e ao risco que é ter toda a existência pela frente.

Logo que adentramos a primeira sala da galeria, inclusive, vemos uma reconstituição do espaço em que o artista desenhava, uma pequena casa em madeira pintada que Nara, em primeira pessoa, chama de My Drawing Room 2008, Bedroom Included (2008). A frase “Place Like Home”, estampada no exterior, convida à memória terna de um ambiente acolhedor, onde todos os objetos – CDs, pinturas, desenhos, coleções, referências populares – são verdadeiros companheiros, reflexos do mais puro querer, da mais ingénua excitação. Não era sequer preciso que tivesse articulado em palavras, mas, em conferência de imprensa, o próprio artista revelou ter saudades da sua juventude, de quando as suas obras ainda não lhe rendiam exposições e fama, e a sua felicidade advinha de uma liberdade criativa total e constante. Talvez, ao reconstruir o seu quarto, Nara ensaie um caminho de regresso – ainda mais urgente num contexto de guerras, onde não há refúgio ou futuro possível, que o artista não deixa de abordar num conjunto de trabalhos mais explicitamente políticos e ativistas. Contudo, paradoxalmente, parece saber que “[p]odes voltar à casa, […] desde que compreendas que casa é um lugar onde nunca estiveste”[1].

A exposição de Yoshitomo Nara, patrocinada pela Fundação BBVA, está patente no Museu Guggenheim Bilbao até 3 de novembro, e o impacto das peças, à vista, é insubstituível.

A Umbigo viajou à cidade basca a convite do Museu Guggenheim Bilbao.

 

[1] Le Guin, Ursula K. (2017). Os despojados. Saída de Emergência, p. 60.

Laila Algaves Nuñez (Rio de Janeiro, 1997) é investigadora independente, escritora e gestora de projetos em comunicação cultural, interessada particularmente pelos estudos de futuro desenvolvidos na filosofia e nas artes, bem como pelas contribuições transfeministas para a imaginação e o pensamento social e ecológico. Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Cinema (PUC-Rio) e mestre em Estética e Estudos Artísticos (NOVA FCSH), colabora profissionalmente com iniciativas e instituições nacionais e internacionais, como a BoCA - Biennial of Contemporary Arts, o Futurama - Ecossistema Cultural e Artístico do Baixo Alentejo e, enquanto assistente de produção e criação de Rita Natálio, a Terra Batida.

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