Top

Landscapes de Alexandre Baptista na Galeria Sete

Where is the landscape? (Onde está a paisagem?) e What can a landscape be? (O que pode ser uma paisagem?) são as questões lançadas ao visitante no início desta exposição. Cada uma delas, sobreposta a um fundo onde a perceção é posta em causa, convida-nos a procurar uma paisagem interior, antes de pensar as paisagens pintadas a óleo por Alexandre Baptista, uns passos à frente, no espaço expositivo. Esta presença da palavra é, aqui, de grande interesse, principalmente se pensarmos na dicotomia ver/dizer o que vemos. Num certo aspeto, num certo ponto de vista gregário, chegamos apenas onde nos permite a palavra. A descrição de uma paisagem carecerá sempre de uma certa semântica para permitir que o outro, no mínimo, se aproxime. Importará também referir que este registo, em parte topográfico, é tributário de uma questão querida ao contemporâneo: a paisagem como assunto central da pintura, não mais como pano de fundo de um acontecimento.

Percorremos, assim, uma série de pinturas especulativas sobre diferentes campos visuais. Entre a nitidez e a sua ausência, os elementos inscritos na área pictórica remetem para um certo dualismo natureza/homem com predomínio da primeira. A paleta é também diversificada, podendo também ela levar a crer que o artista recorreu a um determinado código para aprofundar essa provável polarização. São, acima de tudo, paisagens esbatidas, fragmentárias, subsidiárias de uma certa ideia de perda resgatada pela nossa capacidade rememorativa. É perante a última obra, antes de descermos para um outro momento da exposição, que sabemos claramente a intencionalidade do artista no recurso à tensão provocada. A uma paisagem destruída por um contundente gesto humano, o artista acrescenta uma passagem da obra A Filosofia da Paisagem, de Georg Simmel, que pretende responder às questões lançadas no preâmbulo expositivo. A inclusão do vocábulo na obra de Alexandre Baptista não tem uma pretensão aforística, pelo contrário. Pretende conduzir a uma possibilidade reflexiva, de recolocação do objeto artístico num certo mapa vocabular contíguo ao campo referencial do visitante: “A natureza, que no seu ser e no seu sentido profundos nada sabe da individualidade, graças ao olhar humano que a divide e das partes constitui unidades particulares, é reorganizada para ser a individualidade respectiva que apelidamos de ‘paisagem’.”[1]

É-nos, assim, imputada parte desta responsabilidade, apesar da sua facete simultaneamente involuntária. A Natureza é inapreensível no seu todo e, por isso, ao ver, escolhemos inevitavelmente que paisagem se enforma perante nós. É claro que há aqui um sentido político que se vai evidenciando, ganhando força no segundo momento desta exposição, na instalação intitulada From Where We Stand To Nowhere.

Chegados a esse momento, no piso inferior da galeria, somos confrontados com o pensamento subjacente à primeira fase expositiva: a consciencialização sobre a destruição em potência indissociável ao gesto humano e cada vez mais presente, tendo para isso em conta os mais recentes acontecimentos históricos. O estado do mundo, se quisermos.

Há, assim, uma abordagem diversificada e inequívoca: na parede, vemos alguns registos de zonas de acumulação de plástico, que, irónica e formalmente, se aproximam da pintura. Projetadas, num vídeo compósito, vemos uma nítida cadência destrutiva que vai moldando a ideia de paisagem. Se, no início, a entendemos como um lugar-comum, é com um escalar da violência representada que vamos percebendo a identidade do horizonte para o qual olhamos, até identificarmos bandeiras ucranianas, gritos e movimentações bélicas.

Há, aqui, uma clara relação entre a série Landscape – as paisagens retratadas no espaço anterior – e as aqui projetadas. Pelo meio, uma cena retirada do filme O Fantasma da Liberdade de Luis Buñuel, onde as personagens discutem numa mesa de reuniões a sobrepopulação no planeta enquanto estão sentadas em sanitas, objeto que jocosamente substitui as habituais cadeiras de escritório. A inclusão desse excerto cinematográfico ganha força ao ser expandido para o espaço tridimensional da instalação, transportando características cinemáticas[2] evidentes, numa escatologia dupla que se vê reforçada: uma mesa, com duas latrinas, recebe a seguinte inscrição, extraída do Manifesto Surrealista de André Breton: “Só o que me exalta ainda é a única palavra, liberdade. Eu a considero apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem dúvida, à minha única aspiração legítima.”[3]

Esta reflexão sobre a palavra liberdade, em diálogo com a restante exposição, leva-nos forçosamente a pensar em questões limítrofes evidentes, que vêm à tona alimentadas pelo aparentemente inexorável gesto de destruição. Como alguém disse uma vez, o condicionamento da liberdade começou na primeira vez em que a nomearam, em que a encapsularam num termo.

Landscapes, de Alexandre Baptista, está patente até dia 29 de junho na Galeria Sete e integra o Programa Convergente do Anozero’24 – Bienal de Coimbra.

 

 

[1] Simmel, Georg. (2009). A Filosofia da Paisagem. Covilhã: Universidade da Beira Interior, p. 7. Na obra em questão, o artista optou por inclui a citação em inglês.
[2] Cf. Delfim Sardo. Na sua obra O Exercício Experimental da Liberdade, o crítico e curador confronta os termos cinemático e cinematográfico.
[3] “The mere word ‘freedom’ is the only one that still excites me. I deem it capable of indefinitely sustaining the old human fanaticism. It doubtless satisfies my only legitimate aspiration”. Breton, André. (1929). Manifestoes of Surrealism. Michigan: The University of Michigan Press, p. 4.

Daniel Madeira (Coimbra, 1992) é licenciado em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e mestre em Estudos Curatoriais pelo Colégio das Artes da mesma universidade. Coordenou, entre 2018 e 2021, o Espaço Expositivo e o Projeto Educativo do Centro de Artes de Águeda. Atualmente, colabora com o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC).

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €34

(portes incluídos para Portugal)