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Ressintonização Afetiva de Catarina Mil-Homens na Appleton

Ressintonização Afetiva é a mais recente exposição da artista Catarina Mil-Homens, um projeto Balaclava Noir, a decorrer na Appleton. Trata-se de uma instalação multidisciplinar que é pensada de forma a criar um ambiente imersivo através de uma narrativa coesa de jogos de luz e sombra, movimento e tensão.

A exposição enquadra-se naquela que tem sido a investigação desenvolvida pela artista ao longo do seu percurso. Assente no interesse da exploração do papel da consciência relativamente ao corpo e à mente, Catarina Mil-Homens tem vindo a explorar os limites da experiência humana no que diz respeito à materialidade e imaterialidade, num exercício de ultrapassar fronteiras e levantar questões que sustentam a nossa experiência em relação ao que nos rodeia. Os nossos pensamentos, reflexos e comportamentos são influenciados por uma variedade de fatores, internos e externos, que podem, ao longo do tempo, levar a um desalinhamento entre o que sentimos, pensamos e a forma como atuamos na esfera privada e em sociedade. O fio condutor do processo criativo de Catarina Mil-Homens, com forte interesse na abordagem mística, culmina, aqui, numa instalação que evoca a ressintonização que permite que reconheçamos – e ajustemos – as nossas respostas emocionais e afetivas ao que nos circunda. Nesta exposição, o diálogo entre as diferentes obras e os valores das materialidades opostas constroem novos percursos e convidam, também, ao constante reajuste da nossa relação com o espaço. Obras como Corpo (2024) e Mente (2024), compostas por cabos de aço, papel e acrílico, criam uma narrativa ritmada que explora os conceitos de resistência e leveza, efemeridade, peso e fragilidade.

O seu interesse em esquadrinhar o impacto das experiências místicas na consciência e vivência humana, de tratar o que está mas não se vê e o que está e não se vê mas que nos restringe ou liberta, é-nos sugerido pela convivência de obras, desenhos de luz e materiais justapostos que, nesta exposição, se transformam em portais que apelam a um atravessamento, a um salto da dimensão física para o abismo, da matéria para a não matéria, de forma a explorar as relações estabelecidas e as múltiplas possíveis conversas internas. Ressintonização, enquanto processo dinâmico de ajuste e reavaliação que visa alinhar as nossas perceções, envolve um profundo reconhecimento da liberdade própria e, de certa forma, da responsabilidade que temos de ligação, que se quer profunda e autêntica, ao mundo e a nós mesmos. Catarina Mil-Homens procura, através do seu processo criativo, apelar a um exercício de ajuste de padrões afetivos e de pensamento, de alinhamento da frequência de forma a “encontrar diferentes formas de compreender o nosso entorno e mergulhar nas possibilidades de habitar dimensões múltiplas simultaneamente”[1].

A intenção de perscrutar elementos e forças não tangíveis, através de obras multifacetadas que convivem com aparente tensão entre a matéria, criam uma experiência imersiva centrada no que é não-físico, não-corpóreo, procurando e provocando uma resposta emocional. A combinação de luz, sombra e tensão (Essência, 2024) criam um universo energético e compassado, guiando o olhar de quem visita. É a utilização de materiais resistentes, de alta densidade e rigidez, como cabos e acrílico, contrastantes com a aparente fragilidade sugerida pelo vidro ou papel, que nos transportam para um campo poético sensível, de transparência, intenção e ritmo. Enquanto os cabos, que erguem, sustentam e conectam, marcam permanência, as projeções admitem a função de portal, de caminho que nasce de uma esfera efémera que nos “transporta de obra em obra (…) como um convite ao exercício de tomada de consciência da ligação mente-corpo e os múltiplos desdobramentos que tal relação tem no bem-estar individual e consequentemente colectivo”[2].

As obras ganham carácter tridimensional, são corpos no espaço, desenhos – de carvão (O Que Não Dobra #5, 2013), tinta-da-china (Porta de Perceção #1, 2024), ou de luz (Dupla Fresta, 2024 ) – que convidam à reflexão e atravessamento de camadas numa tentativa de ajustar o foco ou a perceção em relação a um conceito. O diálogo entre os diferentes suportes criam uma instalação de unidade estética e de investigação coesa, resultante da curiosidade por perspetivas alternativas, de recalibração e novas interpretações. Nasce do domínio da existência e efetividade do sensível pessoal, mas que extravasa para o lugar comum, para a “visão conjunta de construções sociais, de identidade e de possíveis futuros”[3].

A exposição pode ser visitada até dia 20 de junho.

[1] Fonte: Catarina Mil-Homens.
[2] Idem.
[3] Idem.

Maria Inês Augusto, 33 anos, é licenciada em História da Arte. Passou pelo Museu de Arte Contemporânea (MNAC) como estagiária na área dos Serviços Educativos e trabalhou durante 9 anos no Palácio do Correio Velho como avaliadora e catalogadora de obras de arte e coleccionismo. Participou na Pós-Graduação de Mercados de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa como professora convidada e actualmente desenvolve um projecto de curadoria de exposições de artistas emergentes. Tem vindo a produzir diferentes tipos de textos, desde publicação de catálogos, textos de exposições a folhas de sala. Colaborou recentemente com a BoCA - Bienal de Artes Contemporâneas 2023.

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