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Como desfazer o que me tornam?

Encontram-se a decorrer na Appleton duas exposições: Rumble Fish de António Júlio Duarte e in this new picture your smile has been to war de Gisela Casimiro.[1]

É no piso 0 que podemos assistir aquele que é o sétimo filme de António Júlio Duarte. Com extensa obra reconhecida no contexto das artes visuais e fotografia, o artista tem vindo a estender a dimensão poética com que trata a realidade para o cinema. Trabalho que poucos conhecem, mas que possui, tal como nas suas fotografias, uma assinatura muito própria resultante da relação que tem com a câmara. Trata o fluxo do mundo de uma forma subtil, tanto de um ponto de vista formal como conceptual, e descreve-se como artista documental – mas, ao mesmo tempo, não considera ser possível encarar e registar a realidade com olhar neutro, insistindo que “isso é uma ficção. As imagens podem parecer neutras, mas isso é uma construção sobre um posicionamento estético sobre aquilo que se faz (…) A partir do momento em qualquer coisa é enquadrada, é tomada uma atitude sobre o que é tratado”, esclarece o artista[2].

Com valor plástico expressivo, conseguimos identificar, no seu trabalho, uma preferência por planos longos e pela baixa resolução das imagens, sugerindo-nos uma extensão da realidade para um universo de sonho, de imersão. Sem ser clara ou evidente a sequência e seguimento da linha de trabalho nos filmes anteriores, assistimos, também aqui, a uma acumulação de camadas, de tensão, de apelo à intervenção do imaginário de quem vê.

Trata-se de um plano-sequência com características documentais, mas que se esquiva de alguma forma a uma possível função narrativa. Dois peixes, em dois copos com água, filmados no set de rodagem de Sinais de Serenidade Por Coisas sem Sentido de Sandro Aguiar (2012), detêm-nos durante vários minutos imersos e obcecados numa tentativa de reconhecer um padrão – ou não – de movimentos e sombras na matéria fílmica.

O facto de ter sido registado durante as filmagens é importante porque poderia sugerir ser uma espécie de behind-the-scenes, uma versão consequente que provém e se apropria de forma consciente do espaço mas também do som, sendo possível ouvir frases como “Atenção, vamos filmar” e “Corta”: “é o índice paradoxal do real mas ao mesmo tempo do imaginário uma vez que acontece nas filmagens de um filme ficcional”[3].

Em Rumble Fish temos acesso ao olhar, sem cortes, daqueles que parecem ser movimentos indiferentes, independentes – dois peixes a existirem em dois copos com água –, mas, analisando melhor, assistimos, na verdade, a uma limitação, a uma reação a sons impostos pelo ambiente em que é gravado. Não se trata de um olhar neutro. Ele é, tal como os peixes são pelos copos, condicionado pelo enquadramento do artista. Sem aparente narrativa, assistimos a movimentos imortalizados na repetição da projeção, iniciamos uma procura de pormenores, de ligação, numa tentativa de desconstrução da estranheza e ambivalência presentes no filme.

Entre a realidade e o sonho, vemo-nos sensíveis às sombras, aos reflexos. A nossa atenção detém-se nos movimentos ou, pontualmente, na imobilidade, embalados por aquele que parece um universo cénico que transmite uma sensação de continuidade e imersão, dando a impressão que estamos a assistir àquele momento em tempo real.

José Bértolo, investigador que escreve o texto da folha de sala da exposição, chama-nos a atenção para o facto de o título ter sido tomado do filme de Francis Ford Coppola de 1983. Esta espécie de apropriação remete-nos para a história do cinema, “mas desse empréstimo deve extrair-se pouco mais do que uma referência irónica”, acrescenta. Esclarece-nos que devemos sim contextualizar esta obra na tradição do documentário mais observacional do que retórico e é assim que devemos olhar Rumble Fish, como uma extensão, um corpo derivativo e consistente, do trabalho e investigação que tem sido desenvolvido por AJD.

Descendo as escadas, Gisela Casimiro, tal como António Júlio Duarte, parte da observação para a sua produção artística e apresenta in this new picture your smile has been to war (verso extraído do poema For Assata de Audre Lorde, 1978). Com rigor e uma sensibilidade estética sensível ao que a rodeia, a poeta, autora e artista apresenta registos analógicos e digitais, a cores e a preto e branco de manifestações, cartazes e paredes intervencionados ou apropriados de alguma forma por meio de alguma ação cívica, de protesto.

As ruas sempre foram espaços vitais para a expressão democrática e exercício dos direitos civis. Palco para quem procura mudanças significativas na sociedade, resistência e luta pelos direitos de minorias, igualdade de género, justiça racial, direitos LGBTQ+, entre outros, e é de lá que Casimiro retira e eterniza momentos que fazem parte da sua colecção de imagens.

Sempre se interessou por fotografia e, com uma metodologia rigorosa e trabalho de apoio comunitário e social, tem vindo a desenvolver uma prática de registo que acabam por resultar em discursos autónomos, criados através da sua seleção daquelas que são as imagens do seu arquivo, da sua memória. Conta-nos uma história – ou uma possível versão da mesma –, selecionando imagens que captam reivindicações e ativistas por todo o país. Racismo, feminismo, direito à habitação são alguns dos temas retratados e refletem não só o que não pode ser calado, como o que é gritado cada vez mais alto por aqueles cuja voz o sistema tenta ainda silenciar.

Numa tentativa de reparação histórica, numa tentativade eliminar ou diminuir o esquecimento colectivo sobre um tempo ou sobre um acontecimento”[4], Casimiro é, aqui, contadora de histórias e não interveniente, posicionando-se com um certo distanciamento, sugerido pela frase escrita na parede: Adoro a vossas causa. A artista é quem reúne e mostra, é quem dá voz às vozes que não calam num esforço de amplificação da multiplicidade das lutas. Com função discursiva, narrativa, procura possibilidades mais justas e inclusivas na mostra de fotografias, cartazes e livros que podemos consultar, entre os quais A Liberdade É Uma Luta Constante de Angela Davis ou Discurso Sobre o Colonialismo Seguido de Discurso sobre a Negritude Aimé Césaire.

Gisela Casimiro tem desenvolvido um trabalho importante a nível social e de ativismo, em particular o trabalho no INMUNE – Instituto da Mulher Negra em Portugal, participando em projetos de empoderamento social e comunitário. Aqui, “num exercício de auto-curadoria, constrói a partir da memória. Busca pela constituição de um movimento de recuperação mnemónica do papel do espaço público enquanto elemento estruturador das lutas sociais. É a rua que fala e aqui Gisela é quem a ouve”[5].

As duas exposições podem ver visitadas até dia 4 de maio de 2024.

 

[1] O título deste artigo faz referência a frase presente no livro exposto em in this new picture your smile has been to war, Ñ Ṽ NOS MATAR AGORA, Jota Mombaça, 1º impressão, Calluna e Apercu Pro, 2021.
[2] AJD na entrevista Entre Imagens para a RTP. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=NoVAm6gNoDs.
[3] José Bértolo a propósito da exposição na folha de sala.
[4] Excerto da folha de sala.
[5] Excerto na folha de sala.

Maria Inês Augusto, 33 anos, é licenciada em História da Arte. Passou pelo Museu de Arte Contemporânea (MNAC) como estagiária na área dos Serviços Educativos e trabalhou durante 9 anos no Palácio do Correio Velho como avaliadora e catalogadora de obras de arte e coleccionismo. Participou na Pós-Graduação de Mercados de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa como professora convidada e actualmente desenvolve um projecto de curadoria de exposições de artistas emergentes. Tem vindo a produzir diferentes tipos de textos, desde publicação de catálogos, textos de exposições a folhas de sala. Colaborou recentemente com a BoCA - Bienal de Artes Contemporâneas 2023.

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