Top

Infantário Revolucionário

Democratizar o acesso à cultura na cidade do Porto, fomentando a identidade histórico-cultural e a inclusão social, tem sido um dos grandes objetivos do programa Cultura em Expansão promovido pela Câmara Municipal do Porto. Ao longo de 10 anos de existência, o projeto tem incrementado o consumo cultural entre públicos heterogéneos através de eventos e atividades gratuitas em territórios descentralizados da cidade.

Com uma programação colaborativa, concebida com estruturas mediadoras, destaca-se, desde 2020, a parceria do Cultura em Expansão com a Sonoscopia na produção e desenvolvimento de iniciativas ligadas à Associação de Moradores do Bairro da Bouça e comunidades que a rodeiam. Convidando artistas com diferentes práticas a desenvolverem projetos sob o mote Repensar a Bouça – Amarante Abramovici e Raquel S., em 2021; Mariana Caló e Francisco Queimadela, em 2022; e Cláudia Teixeira Martinho, em 2023 –, a Sonoscopia lançou, desta vez, o desafiou a Daniel Moreira e Rita Castro Neves, cujo projeto de residência artística se concretizou na exposição efémera Infantário Revolucionário, 2024. Partindo “da memória e da história da criação de um infantário autogerido pela Associação de Moradores da Bouça do Porto, no pós-25 de Abril, enquanto “experiência pedagógica, política, comunitária e social icónica para os tempos atuais”[1], a dupla de artistas promove uma reflexão sobre a escola do futuro. Resultado de um vasto trabalho de pesquisa e de envolvimento comunitário, a apresentação do Infantário Revolucionário deu-se no mês de abril, marcando o início das celebrações dos 50 anos da Revolução dos Cravos, na Associação de Moradores da Bouça, antiga unidade fabril e um dos centros nevrálgicos do SAAL Norte.

No palco do Salão de Festas da Associação de Moradores da Bouça, uma grande faixa negra exibe as palavras de ordem “O filho do operário tem direito a um infantário”, a mesma frase que na década de 70 foi pichada no muro da sede da Associação e registada fotograficamente pelo Arquiteto Alexandre Alves Costa – testemunho da luta pelo acesso à educação por parte da população carenciada da Bouça, que se viria a concretizar na criação do infantário para as crianças do bairro e que se manteve ativo durante 6 anos. À medida que percorremos a exposição e instalação efémera, observamos a projeção de diaporamas com fotografias dos Arquitetos Alexandre Alves Costa, Camilo Cortesão, Sérgio Gamelas e do Arquivo da Associação de Moradores da Bouça, importantes fontes históricas e documentais reveladoras da vertente social, cultural e pedagógica da Associação e do infantário autogerido. Espetáculos de teatro, concertos, teatros de sombras e de marionetas, corridas de atletismo: são várias as atividades do infantário que as imagens de arquivo nos revelam, mostrando-nos como puderam crescer e aprender os filhos dos operários da Bouça no período pós-revolucionário. No mesmo espaço, ao som de cantores de intervenção como Sérgio Godinho, Zeca Afonso, José Mário Branco e Adriano Correia de Oliveira, entre outros, ouvimos e lemos em diálogo com as memórias de um passado recente, os testemunhos e desejos das crianças de hoje sobre o jardim de infância ideal e uma escola feliz para todos. Visionamos os vídeos com as suas críticas e vontades para o amanhã, lemos as suas ideias e propostas em trabalhos manuais e cartazes por elas desenhados e pintados que se distribuem pelo salão, destacando-se o desejo por um jardim de infância gratuito.

A propósito do projeto artístico Infantário Revolucionário, inserido no programa Repensar a Bouça, Daniel Moreira e Rita Castro Neves referem: “num país com uma insuficiente rede pública de infantários e num momento de questionamento sobre a educação, com importantes contestações no setor, a celebração do 50º aniversário da Revolução e da democracia real pareceu-nos que deveria passar por aprender com as experiências de autogestão, prestando homenagem a todas as experiências educativas e sociais coletivas, que historicamente criaram lugares seguros de aprendizagem e convívio”.[2] Conscientes da importância de ações pedagógicas na defesa dos valores democráticos; na promoção de igualdade social, racial e de género; e no desenvolvimento de um pensamento informado, livre e humanista, a dupla de artistas cruzou no mesmo espaço vários tempos, evocando o passado, o presente e abordando os riscos do futuro, sem esquecer as crianças de hoje. As mesmas que, num ambiente de celebração e convívio, empunhando cartazes e tendo como pano de fundo o mural revolucionário do Bairro da Bouça de 1976, da autoria dos arquitetos Maria José Abrunhosa e Sérgio Gamelas, cantaram, num momento performático final carregado de simbolismo e emoção, Grândola Vila Morena.

 

[1] MOREIRA, Daniel; NEVES, Rita Castro. (2024). O filho do operário tem direito a um infantário. [Folha de sala da exposição].
[2] Idem.

Mafalda Teixeira mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d'Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €34

(portes incluídos para Portugal)