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Preenchendo Vazios de Dozie Kanu no Lumiar Cité

Provocando, evocando e restringindo: é assim que Dozie Kanu preenche os vazios naquela que é a sua primeira grande exposição em Portugal. Nascido e criado no Texas, filho de pais imigrantes nigerianos, Kanu, já conhecido no panorama artístico internacional, vive e trabalha atualmente num armazém que converteu em atelier em Santarém. É lá que, agora, desafia as fronteiras da arte, da forma e da materialidade.

Dirigi-me ao Lumiar Cité para visitar a mostra e devo admitir que percorri o caminho até lá com entusiasmo e a expectativa de que iria testemunhar o resultado de um processo transformativo, fruto de um pensamento crítico acurado. Assim que entrei, deparei-me com aquela que, pelo impacto, me pareceu uma colossal estrutura de mdf pintada de preto. Esta estrutura que restringe visualmente e que obriga a uma ação – contornar – altera a configuração do espaço e relembra aquilo que é já sabido acerca do trabalho de Kanu: o assumido interesse em criar tensões e propor novas perspectivas.

Depois de contornar a grande parede (adianto desde já que, mais à frente, descubro que não era só uma parede e que serve também outro propósito) começa um jogo, a adivinha. Tenho o impulso de procurar identificar e adivinhar os objetos (ou parte deles) que compoẽm este conjunto de sete peças. Objetos que foram, noutro tempo, calculo eu, prontamente descartados e que aqui adquirem novas formas. “Os objectos estão cansados, estão cansados da nossa perpétua reconstituição dos mesmos como objectos do nosso desejo e do nosso afecto. Eles estão cansados ​​da nossa saudade. Estão cansados ​​de nós e nós deles[1]. Nesta exposição, estes objectos, livres do nosso afeto enquanto objetos do nosso universo do quotidiano, mas não livres da sua identificação através da nossa memória, são expostos manipulados, de uma forma mais ou menos subtil, e servem agora o campo da arte. Uma base um de candeeiro em latão, um caldeirão e parte de um secador de cabelo dos anos 50/60 são alguns dos objetos que abandonaram a sua função e servem agora para manter de pé mastros para hastear bandeiras com esferas nas extremidades que os tornam inúteis (seven useless flagpoles playing with gaud, 2022).

A utilização destes “achados” – prática já conhecida no trabalho do artista – denota, entre várias outras considerações, a vontade de propor uma nova perspetiva; perspetiva essa que é efetivada precisamente pelo deslocamento de materiais do uso comum, para espaços expositivos, tornando-os numa espécie de artefactos contemporâneos. O ato de escolha e coleta de Kanu manifesta uma disposição e interesse por itens que foram anteriormente inseridos no mundo e, por isso, trarão consigo uma bagagem de significação que o artista é obrigado a articular ao longo do processo criativo. Aqui, cada um desses elementos não é mais determinado pela sua função de origem e ganha novas conexões. Escapam à identidade original que lhes concede um propósito, um destino. Kellie Jones, historiadora de arte e curadora, vê na prática de transformação de algo descartado para ser reinventado com novo significado na esfera artística uma forma de alquimia, onde objetos mundanos são transmutados em obras de arte que ressignificam a sua função original[2]. A transformação que Kanu emprega reflete a sua sensibilidade a questões e noções relativas ao significado, destaca o potencial criativo e expressivo que existe na reutilização e reinvenção de materiais, testa os limites da funcionalidade, materialidade, utilidade e, claramente, da forma.

É no piso superior que tomo consciência que a parede de mdf é também, na verdade, palco para outras três peças, uma delas aquela que é identificada imediatamente como uma gaiola (literal stance decrepit, regress with love, 2024). Vem-me à memória que Fiódor Dostoiévski descreve-as, no poema idealizado pelo personagem Ivan Karamázov, como sendo locais onde residem as certezas[3]. Não é novidade que Kanu, com esta exposição, tal como a própria folha de sala indica, quer tratar os “pontos cegos nas instituições ocidentais dedicadas a discursos de história da arte”. Talvez sejam dessas certezas relacionadas com espaços expositivos e os seus critérios que Kanu quer que nos libertemos e que se mostrem outras perspetivas. No entanto, a certeza que podemos ter com esta gaiola é que esta está virada do avesso, que assume o papel inverso e que, de alguma forma, impõe o desejo de liberdade. Se, por um lado, a porta aberta e o baloiço e comedouro dispostos do lado de fora convidam; por outro, o objeto pontiagudo e austero que ocupa o interior (que tem como função primordial afugentar aves) expulsa. Há uma provocação óbvia e desconcertante impulsionada por este objeto que, aliás, desempenha um papel importante nas recentes criações de Kanu e pode ser identificado noutras obras, nomeadamente no formato de Anti-Climb Raptor Spike Reflections (2023), obra em vidro lapidado e gravado, no berço intitulado Bhad (Their Newborn’s Crib) (2019) e na peça Hemorrhaged and Made Deaf (2020).

Assim como a gaiola aberta, também o sofá, à primeira vista, parece convidativo. Posicionado de frente para grandes janelas e de costas para quem entra, é imediatamente e inevitavelmente reconhecido como objeto utilitário. Mas com a aproximação a esta escultura-sofá, testemunhamos que, em vez de assentos estofados e pregaria, dispomos de placas de aglomerado, correntes de bicicleta, apoios de braços e uma estrutura em metal recortado que retrai o primeiro impulso – sentar

Preenchendo Vazios levanta, a meu ver, várias questões. A evocação da memória, através do reconhecimento dos objetos; o que é que eles são verdadeiramente ou o que é que podem ser; o que é a forma e função e, em última análise – e talvez porque venho de um background de peritagem e avaliação de objetos de arte –, a questão de alteração de valor. Um moedor de carne que projeta luz, ganchos no chão impossibilitados de cumprir o seu desígnio (pendurar) e partes de bicicleta têm um valor no enquadramento do quotidiano, mas, na esfera da arte, sendo a mesma coisa – mas não sendo a mesma coisa –, adquirem outro propósito, outro valor.

Cheguei ao fim da exposição com o pensamento de que me parece pertinente referir que o facto de o artista ter começado o seu percurso pelo design de produção para cinema e teatro teve claramente influência na sua abordagem metafísica dos objetos. Acredito ter experienciado a sua afinidade com uma espécie de mise-en-scène proposital, que caracteriza também o seu trabalho e as suas exposições.

Preenchendo Vazios pode ser visitada no Lumiar Cité até dia 14 de abril de 2024.

[1] Bill Brown. (2001). Things. In Things – Source: Critical Inquiry, Vol. 28, No. 1, p. 15.
[2] Referência utilizada por Makayla Bailey no texto a propósito da exposição Function, no Studio Museum Harlem.
[3] “Somos assim: sonhamos o voo mas tememos a altura / Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio / Porque é só no vazio que o voo acontece / O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas / Mas é isso o que tememos: o não ter certezas / Por isso trocamos o voo por gaiolas / As gaiolas são o lugar onde as certezas moram” em Os Irmãos Karamazov.

Maria Inês Augusto, 33 anos, é licenciada em História da Arte. Passou pelo Museu de Arte Contemporânea (MNAC) como estagiária na área dos Serviços Educativos e trabalhou durante 9 anos no Palácio do Correio Velho como avaliadora e catalogadora de obras de arte e coleccionismo. Participou na Pós-Graduação de Mercados de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa como professora convidada e actualmente desenvolve um projecto de curadoria de exposições de artistas emergentes. Tem vindo a produzir diferentes tipos de textos, desde publicação de catálogos, textos de exposições a folhas de sala. Colaborou recentemente com a BoCA - Bienal de Artes Contemporâneas 2023.

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