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Existem Pedras nos (teus) Olhos, nos meus Escorrem Lágrimas das Águas de Março

Existem Pedras nos Olhos de Alice Geirinhas inaugurou em Fevereiro, mas é de Março. Diz-se que a Março pertencem todas as lutas feministas. Quem o diz não é a artista, que faz da sua prática resistência perpétua, sem deferência pelas vicissitudes do mês. Dizem-no, entre outres, as Guerrilla Girls num pop-quiz direcionado ao sistema institucional da arte “if February is Black History Month and March is Women’s History Month, what happens the rest of the year?”. A resposta apresentada pelas próprias é evidente: “discrimination”. Ainda assim, é importante considerar que o “palco” de Março é uma oportunidade para renovar a luta que não culmina mas reverbera, até à emancipação.

Neste “Março”, a Galeria Quadrum sugere-nos uma proposta estética a serviço de uma ação feminista, através do imaginário de Alice Geirinhas. Na verdade, o imaginário é comum: entre uma pluralidade de suportes e dispositivos, somos expostes tanto à memória cultural portuguesa — do que foi ser mulher — como à pessoal e intima da artista. Entre o arquivo, a memorabilia e a produção autoral, somos transportades para um espaço que nos é muito familiar. Devo referir que esse vínculo de proximidade ao espaço de resistência concebido por Geirinhas também se verificou, em mim, sobretudo devido a duas contingências que influenciaram a minha percepção sobre a exposição: o facto de ter ido visitá-la no Domingo de Eleições e o facto de ter ido com a minha mãe. Dois acasos felizes. Com o “novo” advento da extrema direita e do neoliberalismo, cinquenta anos depois da queda do “nosso” fascismo, acredito plenamente que a curadoria desta exposição, por intermédio da prática de Geirinhas, seja uma tentativa de despertar a multidão que se conformou ao “estado a que isto chegou”. Acompanhada pela minha mãe, foi-me possível envolver, com mais acerto, num imaginário memorial que não é meu (apesar de se ter tornado por via comportamental e comunicativa), mas daquela geração nascida na década de 60 do século passado.

Na verdade, o que Alice Geirinhas promete e cumpre com o exercício de apropriação arquivista é uma redenção da História através da memória: “Democracia Sim, Falocracia Não”; “As Mulheres decidem!”; “Fora com Elas, Isto é Ridículo”. Estas palavras surgem rasgadas sob as janelas da fachada principal da galeria. Dizem-nos, a artista e a curadora Ana Anacleto, que esta obra site-specific — concebida para ser vista de fora, ou seja, pelos transeuntes e não só pelos visitantes da galeria — foi realizada a partir de uma seleção de palavras de ordem presentes em cartazes usados na Manifestação/Performance do Movimento de Libertação das Mulheres (MLM), a 13 de Janeiro de 1975, no Parque Eduardo VII. As palavras rompem de sobressalto nas janelas cobertas com o mesmo branco da parede que as limita, de modo que se assemelham ao graffiti transgressor e subversivo que vemos por toda a cidade – quase que provocam a equipa de Higiene Urbana à sua limpeza, por efeito da estética e do uso de palavras (ainda hoje) de ordem, premissas da escrita criativa transgressiva. Efetivamente, a exposição desenrola-se em torno do evento acima descrito, profundamente incompreendido e caído no esquecimento — e atua também como uma revisão critica deste episódio histórico. Do movimento (MLM) responsável por este manifesto fazia parte Maria Teresa da Horta, escritora, poetisa, feminista e autora do verso que titula a exposição – oriundo do livro Minha Senhora de Mim, censurado pela PIDE/DGS em 1971.

A memória do que foi (e é) crescer mulher, em Portugal, é exposta entre objetos pessoais representativos da memória cultural — entre os livros da Anita e da Carochinha —, outros que apenas se referem à memória pessoal — do que foi crescer Alice, num Portugal ditatorial — e uma produção autoral que procura contrariar e subverter o “disciplinamento capitalista das mulheres” nas palavras de Silvia Federici, citada pela curadora. Entre vários suportes e dispositivos, somos transportades para um ambiente provocador, erótico e crítico onde, por meio de uma disposição poética e humorística é proposta uma revisão histórica da identidade e sexualidade feminina — que ansiava uma libertação integral e transversal pós revolução de Abril, mas que ainda aguarda o cumprimento dessa promessa aplicada e alargada a todes.

É evidente que a memória cultural e a memória pessoal se cruzam na narrativa da luta anti-fascista, que se distancia do lema salazarista “Deus, Pátria, Família” a modos de o subverter: “vou deixar de acreditar em Deus e quando for grande nunca me hei-de casar”, lê-se numa banda-desenhada auto-referencial Como Eu Sou Assim. Revejo estas promessas na luta feminista daquela (e talvez da minha) geração. Relembro o teor poético-cómico nas reivindicações criativas de Geirinhas, onde acima da razão esteja talvez a subversão, disposição que opera na mesma condição dos estágios de uma revolução.

Há um sentido de comunidade e sororidade espelhado na apropriação ou integração da produção de outras artistas que partilharam (e partilham) das mesmas ânsias, refletidas no seu trabalho criativo. Da recuperação de uma obra de Paula Rego, na sua série acerca do aborto, à rubrica Mulheres na BD que concebeu para a fanzine Decadente, onde reúne uma seleção de autoras de Banda Desenhada, é criado uma espécie de arquivo quase-warburiano, assente num imaginário feminista aplicado ao Portugal pós-moderno e pós-ditatorial. Os rizomas que erguem esta biblioteca de imagens rompem de “universos dialógicos” que, ao operarem no seio das contradições da esfera pública burguesa, expõem abertamente e de forma lúdica as suas falhas imaginárias e permitem —de forma criativa, coletiva e critica— refletir acerca dos assuntos que Alice Geirinhas tem vindo a abordar ao longo da sua carreira: “a sexualidade, a identidade de género, a resistência ao histórico, a política inerente ao privado e a poética inerente ao político”, pelas palavras da curadora.

Em nota de conclusão, é importante mencionar a nítida correlação entre a produção de Geirinhas e uma investigação artística materialista, com consciência de classe. O trabalho criativo da mesma, em retrospeto nesta exposição, não segue lógicas ou critérios do sistema institucional e do mercado da arte. Ao invés, circula em paralelo na esfera contra-pública, independente e proletária e permite a construção de um arquivo alternativo àquele a que temos acesso. Compreendendo que o sítio da transformação artística é o sítio da transformação política, a produção e investigação artística de Alice Geirinhas pode tornar-se num campo ideal à construção das negligenciadas historiografias surrealistas, expressionistas, existencialistas ou feministas convocadas por Hayden White (1978), em The Burden of History. Compreendendo, também, a composição do trabalho de Geirinhas, a preferência por uma produção autoral coletiva e circular confessa-nos a que a libertação feminista é anti-capitalista.

Existem Pedras nos Olhos, de Alice Geirinhas, está patente nas Galerias Municipais de Lisboas – Galeria Quadrum até 28 de Abril de 2024.

 

Nota da edição:
A autora não escreve ao abrigo do AO90.
Pelo caráter político e o tema central da exposição, optou-se pela permanência da linguagem de género neutro, conforme Guia Prático para um Português Inclusivo desenvolvido pelo QueerIST.

Benedita Salema Roby (n. 1997). Investigadora e Escritora. Doutoranda em Estudos Artísticos: Arte e Mediações, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa. Mestre em Estética e Estudos Artísticos e Licenciada em História da Arte, pela mesma instituição. Neste momento encontra-se a realizar uma investigação acerca da correlação entre o graffiti (escrita criativa transgressiva) e a construção da esfera contra-pública e proletária, na cidade de Lisboa. Tem colaborado em projetos independentes com fotógrafos e writers, como é o caso do recente foto-livro da artista Ana Moraes aka. Unemployed Artist, Lisboa e Reação: Pixação não É Tag.

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