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Esboço para um museu: 1, Mónica de Miranda

Esboço para um museu é um ciclo de entrevistas que propõe amplificar a crescente referência a questões coloniais e pós-coloniais na cena artística em Portugal ao longo dos últimos anos. O objetivo principal passa por fomentar o diálogo entre uma série de práticas e iniciativas artísticas que têm vindo a reclamar um espaço adequado a essa discussão, assim sublinhando um vazio institucional a nível cultural e artístico. Nesta primeira entrevista, Guilherme Vilhena Martins conversa com a artista e curadora Mónica de Miranda, uma das representantes de Portugal na Bienal de Veneza.

G: Um dos pontos centrais do projeto Greenhouse, com o qual representarás Portugal na próxima Bienal de Veneza juntamente com a Sónia Vaz Borges e a Vânia Gala, é a construção de um “Jardim Crioulo” em referência às “plantações privadas cultivadas por pessoas escravizadas como atos de resistência e fontes de alimentação”. De que forma é que essas plantações consistiam num ato de resistência? Esse ato de resistência comunica com a atualidade?

MM: Como mencionas, o nosso projeto para a representação oficial portuguesa na Bienal de Veneza visa criar um “jardim crioulo” dentro do Palazzo Franchetti, que incluirá uma instalação sonora, esculturas, dança, workshops, leituras e eventos participativos. Greenhouse refere-se à estufa como espaço de criação e imaginação a partir da relação entre as ideias de ecologia, decolonização, diáspora e migração. O projeto divide-se em quatro ações: Jardim (Instalação, Espaço, Tempo); Arquivo Vivo (Som, Movimento, Performance), Escola (Educação, História, Revolução) e Assembleias (Público, Comunidades e Publicação).

Os jardins crioulos representam um ato de resistência na medida em que desafiavam o sistema de trabalho forçado das plantações monoculturais nos Impérios coloniais. Ao optar por formas alternativas de cultivo como a permacultura e privilegiar a multiplicidade, estas plantações contribuíam não só para a alimentação e a medicina, mas também para fomentar um sentido de pertença e de identidade. Ao cultivarem a terra de acordo com as suas próprias tradições e necessidades, estas pessoas reivindicavam um espaço de autonomia. As plantações eram portanto não só espaços de cultivo, mas símbolo de resistência e resiliência, um lugar onde as pessoas podiam reivindicar a sua própria dignidade e liberdade. Como defendia Amílcar Cabral, a defesa da terra é a defesa da nossa humanidade, e o solo, como agente ativo da história, com os seus processos de contínua transformação, faz parte do processo de descolonização.

Com técnicas de contra-plantação baseadas na diversidade de espécies e aromas, os jardins crioulos criam um ecossistema em que as plantas se protegem mutuamente. Isso desafiava não apenas a lógica da monocultura, mas fortalecia também a resiliência do sistema agrícola, tornando-o menos vulnerável a pragas e doenças. Hoje, face às alterações climáticas, esta questão torna-se central para as lutas pela justiça e pela descolonização. Essa resposta surge de um ponto de vista interseccional, ecofeminista, que defende, em linha com a Vandana Shiva, que o sistema extrativista e monocultural do capitalismo afeta igualmente o corpo da natureza e os corpos humanos, individuais e coletivos.

Seja pela densidade, pela biodiversidade ou porque é composto por plantas provenientes da botânica tropical e cultivadas segundo os princípios da permacultura e da agricultura sintrópica, o “jardim crioulo” promoverá um espaço de possibilidade, multiplicidade, libertação e sobrevivência, que será amplificado por um vasto programa de ações interdisciplinares e transformadoras.

G: Para além do jardim, haverá também, como sublinhaste, um vasto programa público que incluirá um arquivo vivo e um espaço educativo. Quão importante é complementar a dimensão artística com uma dimensão prática e educativa?

MM: A dimensão artística ou visual em Greenhouse é discursiva e complementada por uma dimensão prática e educativa, a cargo da Sónia Vaz Borges e da Vânia Gala. Emerge em processos coletivos de criação, diálogo e interação entre vários artistas, curador e o próprio público. Tal como num jardim, onde múltiplos processos e agências se entrelaçam para a sobrevivência e manutenção do ecossistema criado, também a obra de arte ganha vida através dos múltiplos entrelaçamentos entre artistas, investigadores, públicos e, neste caso, os seres vivos que compõem o jardim-instalação.

Através de performances, leituras, workshops, palestras, ações e práticas agrícolas, chamamos o público a envolver-se no trabalho, a conversar e a interagir com a obra. Estamos interessadas em criar uma estética baseada na comunicação, de modo a que a obra em si não seja fechada, que abra espaço para diferentes reflexões. Consideramo-nos responsáveis para com o público no âmbito da narrativa que estamos a apresentar, o que ela revela sobre o mundo, as suas condições sociais e realidades.

Lembrando Rancière, continuamos a precisar de libertar o espectador da sua posição passiva para uma posição de possível ação e conhecimento. Neste trabalho coletivo, pensamos no público não só quando fazemos o jardim e a instalação sonora, mas também quando fazemos as escolas e os programas de performance, que envolvem outro nível de interação do público. O trabalho é interativo e coletivo, por isso é importante compreender estas dinâmicas em si mesmas, colocando o curador, o artista e o académico ao mesmo nível.

A ideia de criar um arquivo vivo com o desenvolvimento de uma escola, ações performativas e uma teia de encontros entre artistas, públicos e comunidades num jardim em constante crescimento tem no fundo como objetivo fomentar espaços de fantasia, imaginação, novas histórias e fabulações críticas.

G: Precisamente, um dos objetivos de Greenhouse passa por promover no contexto da Bienal em Veneza um espaço discursivo de possibilidade, multiplicidade, libertação e sobrevivência”. O contexto da Bienal torna mais fácil ou mais difícil a criação desse espaço? Quais são os desafios?

MM: A Bienal de Veneza cria um espaço que facilita o processo criativo porque há um momento de conexão, de interação entre artistas contemporâneos e profissionais de várias proveniências. Esse cruzamento de discursos e práticas pode ter um efeito rizomático na criação de novos espaços discursivos, especialmente nesta edição cujo tema é Foreigners Everywhere – Stranieri Ovunque e que apresentará um vasto conjunto de propostas que desafiam os discursos e práticas de representação hegemónicas.

Há também várias dinâmicas a que temos de atentar. Estamos a tentar criar este espaço dentro de uma estrutura estabelecida, histórica, que tem os seus próprios modos de funcionamento. Imaginar novas possibilidades e conseguir liberdade artística dentro desta estrutura, dentro de um formato existente e estabelecido, é certamente um desafio.

G: O formato abrangente e educativo, quase fórum, convida a uma participação mais lenta e duradoura. Esse é também um elemento importante do teu trabalho, visto que ao longo dos anos tens estado envolvida numa série de projetos participativos e associativos como o HANGAR – Centro de Investigação Artística, do qual és fundadora. O “espaço” que procuras levar a Veneza existe em Portugal ou o HANGAR é uma resposta à sua ausência?

MM: O HANGAR é uma resposta a uma ausência de propostas artísticas plurais e participativas do sul global em Lisboa. Quando voltei a Lisboa depois de viver em Inglaterra, encontrei uma arte muito virada para cânones europeus, uma reflexão da “arte pela arte”, fechada às questões do sul global. Nesse sentido, o HANGAR foi sempre um lugar de resistência, de criação e interseção entre várias áreas, mas principalmente as artes visuais, com a missão de unir várias geografias, de criar um espaço catalisador de experiências na conexão entre artistas, investigadores e outras iniciativas, incentivando a discussão da arte contemporânea emergente. Ao mesmo tempo, procuramos dar espaço a profissionais emergentes das comunidades afro-diaspóricas de Lisboa, e estabelecidos a nível global, para desenvolver a cena de arte contemporânea em Portugal.

A dimensão colaborativa está sempre presente no meu trabalho, quer como diretora artística do HANGAR, quer na minha prática de artes visuais, quer como investigadora. Os processos participativos requerem tempo e dedicação e por isso os meus projetos levam muito tempo a desenvolver porque se baseiam numa extensa pesquisa e colaboração. No HANGAR, o foco está na experimentação artística e em dar espaço a debates importantes que têm pouco espaço para se manifestar em Portugal.

O objetivo coletivo da Greenhouse é trazer esse tipo de espaço para a representação de Portugal, questionando este espaço-nação através da construção de espaços que convidam à partilha e reflexão da própria noção de fronteira e identidade, propondo um lugar de educação e discussão, assim lembrando as assembleias de educação militante de Amílcar Cabral e Carmen Pereira do PAIGC e muitos outros, que foram realizadas nas florestas durante as lutas de libertação.

Acredito que a educação é a base da sociedade, por isso temos de continuar a procurar formas mais inclusivas e efetivas de educação para um futuro mais justo, não esquecendo que os espaços educativos são igualmente sujeitos a instrumentalização ideológica. O fundamental é procurar, ativar e criar escolas ou espaços educativos comprometidos com o objetivo de transformação social, na prática e na teoria em simultâneo.

Guilherme Vilhena Martins (1996, Lisboa; vive em Berlim) é escritor e curador. É licenciado em Filosofia pela Universidade NOVA de Lisboa e atualmente está a terminar um mestrado em Filosofia na Freie Universität Berlin. O seu trabalho literário consiste em dois livros - 'Háptica' (douda correria, 2020), 'Voz/ Estudo de Som' (edição de autor, 2022) - e textos, crónicas e críticas escritas para diversos projetos editoriais em português e inglês, entre os quais a Umbigo ou a Frieze. Geriu e editou também 'Alcazar', um projeto literário interdisciplinar que reuniu escritores e artistas visuais em torno da ideia de uma escrita transdisciplinar coletiva. Além disso, curou várias exposições em Portugal e na Alemanha e é um dos co-fundadores do projeto EGEU, iniciado em 2019 em Lisboa. Tanto a nível literário como curatorial, Vilhena Martins procura utilizar a prática artística como ferramenta crítica e forma de discussão. Tematicamente, o seu trabalho foca-se nas noções de resíduo, preenchimento e desejo, bem como nas suas diferentes instâncias, nomeadamente o fenómeno do turismo.

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