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Orgulho ibérico: um passeio madrileño

Não há dúvida de que Madrid é hoje em dia, provavelmente, uma das cidades mais atrativas da Europa, especialmente em termos de vida cultural: assim o afirmou também Maribel López, a carismática diretora da Feira ARCO, no dia de abertura do evento.

O Museu Reina Sofia, por exemplo, repleto de turistas, mas também de cidadãos comuns e excursões escolares, apresenta – para além da sua deslumbrante coleção permanente -, uma exposição que faz valer a pena a maçada da longa espera para aceder às suas salas: a mostra sobre o grande artista catalão Antoni Tàpies, a mais ampla retrospetiva que lhe foi dedicada até agora, ano do seu centenário. La práctica del arte constitui uma travessia hipnótica pelo universo poético do artista, marcado no início da sua carreira pela vizinhança estilística do Surrealismo, movimento liderado por André Breton, seu contemporâneo. Antifranquista e defensor da autonomia da Catalunha, Tàpies participou na terceira Documenta em Kassel, em 1964; associado ao Movimento Informal, que em Itália teve o seu expoente máximo em Alberto Burri – o qual compartilhava com o colega espanhol o repúdio do fascismo e a vivência da Segunda Guerra Mundial na primeira pessoa –, Tàpies explorou uma multiplicidade de materiais pictóricos, demonstrando, aliás, a capacidade de criar pintura com (quase) tudo o que estava ao seu alcance: madeira e gesso, areia e acrílico, betão e papelão. Realçando a realidade crua da ditadura espanhola e homenageando o poeta Federico García Lorca, Tàpies denunciou também o genocídio que teve lugar nos Balcãs, no começo da década de 1990, enquanto representava o seu país na Bienal de Veneza de 1993, onde ganhou o Leão de Ouro. Enfim, la práctica de Tàpies nunca nos pareceu tão contemporânea, uma jornada para pensar a arte como uma luta ideal e imorredoura contra os conflitos que continuam a abalar o planeta.

No âmbito da oferta cultural fora da ARCO, aconteceu mais um momento institucional na Embaixada portuguesa em Madrid: com Artists join the embassy o palácio transformou-se pela terceira edição, até 22 de março, em espaço expositivo. Desta vez, a ocasião foi pretexto para mostrar um pequeno acervo de obras vindas da Coleção Gulbenkian em Lisboa, a propósito da reabertura do Centro de Arte Moderna, no próximo dia 20 de setembro, sob a especial curadoria da artista Leonor Antunes que, inclusivamente, realizará para a ocasião um projeto inédito.

Falando em galerias, destaca-se desde logo a nova sede da Pedro Cera, que, para a sua abertura na capital espanhola, põe em cena o diálogo entre as pinturas do artista Adam Pendleton e as esculturas de Arlene Shechet: o preto e branco das telas, intercaladas com as obras brilhantes em cerâmica, criam uma paisagem curiosa, indo além de uma identificação estilística e investigando a relação entre as formas, quer no ambiente, quer entre si mesmas.

Situando-se na Calle de Barceló, a Pedro Cera junta-se ao grupo das maiores galerias do centro histórico de Madrid; entre as quais não poderia faltar uma visita à Albarrán Bourdais, que nesta temporada hospeda o primeiro projeto de Pedro Cabrita Reis com a galeria: pensando nesse espaço singular, o artista desenvolveu um trabalho site-specific misturando estruturas arquitetónicas, pinturas de paisagem, luzes de néon, imaginando, enfim, a fragilidade de um museu. Verdade seja dita, todas as possibilidades interpretativas ficam em aberto: Cabrita Reis coloca-nos perante uma ideia alternativa de um ambiente conectado com a cultura, propondo-nos enigmas.

Alguns passos mais adiante chegamos à Calle San Lorenzo, onde tem a sua base a galeria Elba Benítez, cuja exposição é dedicada à última produção do artista cubano Carlos Garaicoa.

A transposição e a metamorfose dos padrões da arquitetura Modernista é o tema fundamental da exposição π = 3,1416. Entre quadros geométricos construídos utilizando madeira pintada com cores brilhantes e componentes metálicos, a nossa atenção é capturada pela instalação Toda utopia passa por la barriga: Garaicoa cria um perfil imaginário de cidade, utilizando frascos de vidro nos quais coloca miniaturas de prédios semelhantes aos maiores exemplos arquitetónicos do Racionalismo, juntando-os a produtos-símbolos da alimentação e da economia básicas de várias populações do mundo, refletindo também acerca dos temas da produção e do desenvolvimento sustentável.

A Travesía Cuatro fez-nos descobrir a apaixonante história do poeta e artista Jorge Eduardo Eielson (1924-2006). Nascido no Peru, viveu em vários países da Europa e dividiu a sua prática artística tanto por expressões de vanguarda como na direção do conhecimento ancestral do seu país, abrindo novas perspetivas culturais e visuais.

Um projeto especial em Madrid é o que oferece à comunidade, desde 2020, a Fundação Sandretto Re Rebaudengo (Turim, Guarene, Veneza e Madrid). Nesta edição, sob a curadoria de Hans-Ulrich Obrist, foi a artista Precious Okoyomon a realizar na Montanha dos Gatos, no Parque El Retiro, uma obra de arte total a combinar múltiplas disciplinas, recriando mesmo uma floresta dentro do espaço abobadado de planta circular que sustenta o pequeno monte, impregnando-o com o aroma da terra, das árvores e das flores, e escondendo no seu interior uma criatura animatrónica, When the Lambs Rise Against the Bird of Prey. A figura do cordeiro, como indica o título, ergue-se contra os predadores e os cenários apocalípticos, reconfigurando-se no mundo enfeitiçado criado por Precious como oposto à sua identidade tradicional de animal mártir. Surreal.

A propósito de preciosidade, as exposições Arte y Naturaleza e Horizontes y Limites, na CaixaForum, têm uma forte conexão com o tempo presente e mantêm viva, na contemporaneidade, uma poética poderosa. De Georgia O’Keeffe a Shezad Dawood, de Pino Pascali a Alexander Calder, as duas mostras parecem entrelaçar-se para reconstruir um pensamento em torno das modificações do meio-ambiente, analisando, quer a aproximação à natureza em termos culturais que os seres humanos realizaram nos mais diferentes lugares do planeta, quer as alterações distintivas da época do Antropoceno.

Na Cidade Universitária, encontra-se o Centro de Arte Complutense: em linha com a atenção que a ARCO este ano dedicou às Caraíbas, aqui o protagonista é o artista dominicano Jorge Pineda. Falecido há pouco mais de um ano, deixou um legado de mais de quatro décadas de trabalho, através do qual procurava despertar as consciências. Com um corpo de trabalho que inclui quase 50 obras – entre grande instalações, pinturas, desenhos e esculturas -, recolhidas sob o título HAPPY, Pineda construiu um universo no qual o público se torna parte ativa das obras, ao envolver-se com elas tanto num sentido emocional, como cognitivo. Uma visita é mais do que merecida.

Por fim, entre outras coisas que aconteceram em Madrid durante a semana da arte, houve a abertura – reservada exclusivamente aos meios de comunicação social – de uma parte da coleção da mítica Ella Cisneros que, além disso, acabou de lançar um romance inspirado na sua vida. A quem lhe perguntou se já pensara em recriar uma fundação como aquela que já teve em Miami, Ella replicou estar a aguardar a conjunção de três elementos: o fator económico, o político e o geográfico. Com toda a certeza que teremos então que aguardar pacientemente.

Matteo Bergamini é jornalista e crítico de arte. Atualmente é Diretor Responsável da revista italiana exibart.com e colaborador para o semanário D La Repubblica. Além de jornalista, fez a edição e a curadoria de vários livros, entre os quais Un Musée après, do fotógrafo Luca Gilli, Vanilla Edizioni, 2018; Francesca Alinovi (com Veronica Santi), pela editora Postmedia books, 2019; Prisa Mata. Diario Marocchino, editado por Sartoria Editoriale, 2020. O último livro publicado foi L'involuzione del pensiero libero, 2021, também por Postmedia books. Foi curador das exposições Marcella Vanzo. To wake up the living, to wake up the dead, na Fundação Berengo, Veneza, 2019; Luca Gilli, Di-stanze, Museo Diocesano, Milão, 2018; Aldo Runfola, Galeria Michela Rizzo, Veneza, 2018, e co-curador da primeira edição de BienNoLo, a bienal das periferias, 2019, em Milão. Professor convidado em várias Academias das Belas Artes e cursos especializados. Vive e trabalha em Milão, Itália.

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