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Precárias: Edição 2024 do Festival de Performances – Entrevista a Tita Maravilha, diretora artística do Festival Precárias

Nas suas palavras, é toda ela hibridez e profissionalismo por excelência. Há 10 anos abraçou Portugal, e por aqui anda, a preencher vazios, a atuar em diversos lugares, a dar voz ao corpo que o passado marginalizou, e a proclamar revolução. Grito que encerra uma comunidade de vozes, e a crença de que os países e as suas tradições estão sempre em movimento. Cabe ao pensamento e ao gesto reformular a história.

Partindo do familiar e do corpo (político), Tita Maravilha falou com a Umbigo, um convite à segunda edição do Precárias, o dissidente festival de performance que, este ano, parte de Lisboa para uma viagem em território nacional e lá fora. A programação arranca dia 15 de março na capital; naquela que é para Tita, tanto casa de acolhimento, como de rejeição, e, invariavelmente, material que reflete na sua criação.

Atriz, cantora, performer, dançarina, palhaça, DJ, criadora de universos. Há algum pensamento que conecta todas estas personas?

A partir do momento em que algumas questões não são escolha, o que conecta esses universos, para inventar outros, é a ideia de corpo político. O que vem muito antes de qualquer posicionamento pela arte. Falo de questões de vivência, sobrevivência, de estruturação da história e das suas narrativas; e um corpo político que já o é dentro de uma micropolítica (da cidade, da sociedade, do mercado de arte…) para, finalmente, pensar macropolítica.

Essa ideia de corpo político está implícita na tua prática artística. Sendo tu mesma um corpo dissidente, como é viver no Portugal atual? Quais as dores e os prazeres?

O mais difícil é ter esse corpo e ser a partir dele, mesmo com todas as possibilidades e ferramentas de mudança que existem. A crença é de que as identidades trans nascem em corpos errados. Não concordo, porque não poderia ter outro. Sou essa, e sou o melhor que posso ser! Acho que a humanidade constrói a ideia de meta de perfeição a ser atingida, quando, na verdade, a grande viagem é o processo. Eu mesma não sei se existe um lugar ideal para chegar. Nesse sentido, cabe-me propor e redistribuir uma pedagogia trans, aquela que é capaz de revelar suas experiências para o mundo e nos diz: sim, estamos todos em transição quando não se quer chegar num lugar muito óbvio. Estar preparado para mudanças a tempo inteiro, compreendendo que, independentemente da realidade, cada um de nós é esse corpo. Eu não posso ser tu, nem tu eu. E compreender até, dentro da pedagogia do fracasso, que talvez não chegaremos em lugar algum. Por isso eu brinco com a bandeira do Brasil, dizendo que em vez de ordem e progresso, talvez seja desordem e processo.

Ao longo da história foi proporcionada muita dor. Em Portugal, por exemplo, narrativas de escravidão e colonização foram inscritas em muitas corpas. Ainda assim, falo em delícias, porque o meu posicionamento vai além dessa dor, transformando o tabu em totem e a hostilidade em novas formas de contar. Com o meu trabalho eu digo: não aceitarei discurso de ódio, não aceitarei violência contra o meu corpo. Vejam antes a minha emoção e as histórias de amor que tenho para partilhar.

Tu, o teu corpo, a tua experiência e as tuas mensagens. Consegues diferenciar em ti o que é vida do que é espetáculo?

Nesse momento cada vez mais, e cada vez menos. Cada vez mais, por motivos financeiros e um natural crescimento profissional. Por outro lado, sendo uma artista das autobiografias e baseando-me na minha experiência para explicar o meu organismo, há uma fusão das realidades, o que me pode levar ao extremo. No entanto, eu busco na arte um processo de cura dela mesma, pois sei que, enquanto expresso minha subjetividade e o desejo de transformar o mundo, eu sou a minha própria empresa, e preciso estar viva para fazer acontecer. Constantemente reestruturo meu pensamento e corpo performativo para que haja cuidado e continuidade.

Significa isso que a arte (te) pode salvar?

A arte não salva, saliva. Isto pelo facto de existir hoje muita coisa boa acontecendo e metamorfoseando o mundo. Para mim, a arte é uma forma de tentar ser feliz. Ao mesmo tempo que não deposito muita expectativa nessa relação. Eu cuido de negociar a minha relação com a arte, para que exista amor, consciência, e conseguir tocar naquilo que existe de vivo lá dentro – o que causa emoção. E, para isso, a arte deve ser trabalhada, tanto por quem a propõe, como por quem assiste. Aí está, a arte não salva, o que salva é o encontro entre as partes.

Como é que a precariedade se torna material de pensamento para a arte contemporânea?

Pelo mesmo motivo que trabalho com nudez nos meus espetáculos: porque descobri que o meu corpo é o meu figurino mais valioso. A pergunta começou por imaginar se eu tivesse um vestido Armani, ainda quereria entrar de corpo nu? Aí, começo a falar de corpo político. A precariedade se tornou um tema naturalmente. A vivência fez a minha prática e os desejos de transformação dentro da linguagem, para provar que o corpo contém tudo o que importa em si mesmo.

Eu criei muitas metodologias, mas sempre entendi quais são as histórias e o porquê de querer pensá-las, contá-las e tentar alterá-las. O Precárias assume uma programação de corpos que foram precarizados, a quem foi negada a técnica, e que agora estão em disputa pelo conhecimento e pelo poder. Estão em transformação. A ideia é mostrar que, através do simples e do low budget, se você instrumentaliza corpas que ainda não tiveram acesso ao material, se lhes dá espaço e oportunidade, elas podem ir longe. “Precárias como quem diz Chiquérrimes”, é uma tomada de posse de lugares que sempre foram nossos, e com certificado de qualidade.

Falar em Precárias é falar em curadoria afetiva. A que te referes?

Tem a ver com artistas que admiro, que fazem a diferença no panorama português, e que compartilham o mesmo tempo que eu. Este olhar curatorial conjunto só prova que somos uma rede e nos espalhamos como um vírus. É um encontro que faz a diferença: artistas pensantes do seu próprio tempo, que querem renegociar o futuro do pensamento da arte dissidente. O Precárias se recorta num pensamento queer, trans não binário, de pessoas racializadas, de mulheridades, e num pensamento de migrantes; todos eles transformados em potência.

Trabalhando com as chamadas minorias, entre dinâmicas do Brasil e de Portugal, preocupa-te que o teu gesto possa ser meramente catalogado como anticolonial? Reconheces alguma barreira/perigo nesse sentido redutor com que a sociedade, muitas vezes, compreende a história e atua sobre ela (colonial vs. anticolonial)?

É um desafio, mas se me preocupa? Não. Na verdade, todo o meu pensamento e as obras que fui apresentando em Portugal são cuidadosamente pensadas para o lugar onde foram feitas. Eu quero falar sobre isso. Ainda que não apenas sobre isso. Cabe a cada uma das partes fazer a leitura.

Vivendo em Lisboa, tal como no Brasil, eu sofro na pele, mas como dizia Jota Mombaça, os meus trabalhos são apesar de Portugal e apesar do Brasil, sendo, simultaneamente, para eles também. Minha construção recente Es Tr3s Irms, tal como o Precárias, são respostas sufis e provocativas, para reolhar o passado e transformar o presente e o futuro. Coloco um desafio, não como uma bomba lançada, mas como convite à reinterpretação, sobretudo de um universo que esse outro ainda não partilhou… Enquanto pessoa imigrante, trans, e artista que se tenta inserir no mercado, faço parte dessa comunidade que tem feito diferente, propondo novas formas de ver, segundo um pensamento cuidadoso e desafiador, que valoriza um pensamento dissidente e pós-colonial. Como os países e suas tradições estão sempre em movimento, entendo que é minha missão ajudar a reescrever a história.

Agora, nem sempre me interessa dizer que sou mulher trans, nem sempre é importante que tenha o cunho anticolonial, ou ser apontada ao underground. Todas elas são texturas por onde eu caminho. O que eu sou? Uma puta artista híbrida, uma excelente profissional.

Sobre a segunda edição do Precárias, o que podes partilhar connosco?

Uma das coisas mais fortes este ano é a multiplicidade de parcerias. Uma redistribuição que prova que conseguimos estar em muitos lados – Lisboa, Porto, Paris, Viseu e Montemor-o-Novo. O que acontece depende dos espaços, desde performances na rua, em espaços não convencionais, em auditórios e black boxes, há também concertos, rodas de conversa… Lançaremos uma revista e, em Lisboa e Paris, vou dar oficina de coxinha.

O intuito é que o festival possa se desenvolver mais, sendo que da primeira edição para cá já cresceu, também porque contamos com apoio da DGArtes. A metáfora está aí mesmo. É um festival com um nome escorregadio – fomos precarizadas, mas, na verdade, o que se revela é excelência e a confirmação de que a história está a ser reescrita por outros olhares que, fruto da sua experiência, têm muitas narrativas para contar. Este é o momento em que as celebramos.

Toda a programação do festival está disponível em: https://www.titamaravilha.com/precarias

Mestre em Estudos Curatoriais pela Universidade de Coimbra, e com formação em Fotografia pelo Instituto Português de Fotografia do Porto, e em Planeamento e Gestão Cultural, Mafalda desenvolve o seu trabalho nas áreas de produção, comunicação e ativação, no âmbito dos Festivais de Fotografia e Artes Visuais - Encontros da Imagem, em Braga (Portugal) e Fotofestiwal, em Lodz (Polónia). Colaborou ainda com o Porto/Post/Doc: Film & Media Festival e o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Em 2020 foi uma das responsáveis pelo projeto curatorial da exposição “AEIOU: Os Espacialistas em Pro(ex)cesso”, desenvolvido no Colégio das Artes, da Universidade de Coimbra. Enquanto fotógrafa, esteve envolvida em projetos laboratoriais de fotografia analógica e programas educativos para o Silverlab (Porto) e a Passos Audiovisuais Associação Cultural (Braga), ao mesmo tempo que se dedica à fotografia num formato profissional ou de, forma espontânea, a projetos pessoais.

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