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Gonçalo Preto: à luz de uma chama azul de combustão lenta

A Cadência de uma Chama poderia ser o prólogo do livro A chama de uma vela (La flamme d’une chandelle, 1961) de Gaston Bachelard. Poderia igualmente ser o nome de uma sequência que ficou por ver de Barry Lyndon (1975), filme de Stanley Kubrick. É, porém, o título que Gonçalo Preto elegeu para amarrar, num pensamento contínuo, uma nova série de narrativas fragmentadas. Bem sabemos que é essa a função de um título, mas parece-nos que a analogia vai além desse cabeçalho.

A “chama de uma vela” não ilumina como uma lamparina, não aquece como uma fogueira, talvez não queime como um fósforo, nem encadeia como o sol, também não é azul e sim amarela, de combustão lenta, mas, enquanto fonte de claridade, influencia de igual modo a nossa perceção do mundo. À luz das velas, uma cena romântica; um som de suspense que se ouve numa claridade tremida; um ritual de uma seita religiosa entre velas, o terror de uma tocha solitária num amplo campo vazio. São múltiplas as cinematografias possíveis para ilustrar a psicanálise do fogo (a que Bachelard também dedicou um livro: La Psychanalyse du feu,1938) mas perante a “chama de uma vela solitária” (a imagem que verdadeiramente nos interessa), o leitor vigilante deixa de lado a leitura e contempla a chama, vê além da luz, meditando introspectivo. De imediato surge a fantasia do sonho e a cabeça enche-se de poesias e outras palavras pensantes.

Esta é a terceira vez que Gonçalo Preto se apresenta na Galeria Madragoa. As telas são de dimensões grandes e o tons oscilam entre a profundidade do escuro (que no trabalho do artista podem variar muito entre mate e brilho) e os azuis esmaltados. Os temas surgem soltos, tal como uma memória estilhaçada ou mesmo porque a quietude da chama não deixa enxergar de outro modo, alimentando a nossa miopia. A primeira pintura, Córtex (2023), é uma figura de visita para quem chega. Quando nos aproximamos, esta pintura é afinal um corpo, uma radiografia da alma que introduz a passagem material (mundano, corrente) e imaterial (íntimo), real e ficção.

Segue-se o tríptico de pinturas os Três Ws (Poente), Três Ws (Outrora), Três Ws (Dúplice). Preto questiona o espectador sobre onde”, “quando” e “quem” (em inglês “where”, “when” e “who”), posicionando-nos num diálogo de transparências e transferências das múltiplas camadas que vestem o lugar, o tempo e a personagem – um qualquer doppelganger que nos duplica a alma. De repente, vem a memória de uma outra pintura do artista, Charlie (2020). O azul domina as salas, ligando tudo isto. O mesmo espectro azul eletromagnético é também a cor de um Raio-X, e lê-se no texto assinado por Cristina Sanchez-Kozyreva que Gonçalo Preto associa o tom aos “espaços interiores” do corpo.

Por fim, Fada I e II (2023) e a Partitura – Estrelas e Estilhaços (2023) revelam-nos a nossa verdadeira localização (na galeria e até no universo): estamos na mente de Gonçalo Preto, e vemos o que ele nos quer mostrar. O ambiente é hospitalar, de harmonia asséptica, a luminosidade é alta, mas a sinapses acontecem, sucedem-se umas às outras com a velocidade de um cometa, tanto no microcosmo como no macrocosmo, no cérebro e para lá dele, no céu estrelado.

Não é de hoje o interesse de Preto pelo mistério das sombras, pela transmutação da alma ou pela fragmentação, quietude e solidão dos corpos, mas talvez seja esta a luz certa para a leitura do trabalho do artista, a necessidade da baixa luminosidade d’A Cadência de uma Chama (de uma vela, a vela que suspira e respira trémula também na seminal Focus Fatus Locus Solus, de Pedro Morais).

A Cadência de uma Chama, de Gonçalo Preto – que, acrescentamos, de uma vela cuja combustão é lenta, embora de tonalidade azul –, pode ser visitada até dia 9 de março, na Galeria Madragoa.

Frederico Vicente (Lisboa, 1990) mestre em arquitetura (FA-UL), investigador e curador independente (pós-graduado na FCSH-UNL). Em 2018 funda o coletivo de curadoria Sul e Sueste, plataforma charneira entre arte e arquitetura; território e paisagem. Enquanto curador tem colaborado regularmente com o INSTITUTO, no Porto, de onde se destacam exposições como "How to find the centre of a circle" de Emma Hornsby e "Handmade" de Ana Paisano. Foi ainda curador das exposições "Espaço, Tempo, Matéria", Convento da Verderena, Barreiro; "Fleeting Carpets and Other Symbiotic Objects" de Tiago Rocha Costa, AMAC, Barreiro ou "Do Território aos Lugares", Museu de Almada, Almada, entre outras. A atividade profissional orbita sobretudo em torno das possíveis ramificações da arquitetura.

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