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Diálogo com um Sorriso: Unfucking Titled (fuck) (2021) de Michael Dean

Não haverá talvez um estado de existência tão ilusório como a felicidade. Contudo, ela é alvo de uma perpétua prospeção fenomenológica: a arte, a filosofia, a ciência, os media e a publicidade, etc., têm (e muitas vezes de forma coincidente) retratado, debatido, destilado e, em última análise, repartido a felicidade em todas as suas plenitudes. Desta abundância, inundam-nos as manifestações sociais, culturais e digitais imagéticas da sua existência em infinitas formulações. A felicidade é o deleite, a satisfação, o prazer (ou a dor); a felicidade é o romance, a amizade, a família; happiness is a butterfly[i], o fim do Feiticeiro de Oz ou, para citar Madmen, “o cheiro de um carro novo”. Encontramo-la ainda em nós num défice crítico; o domínio do psicológico e do comercial – escolha a sua cura e/ou veneno previamente embalados. Até no seu inverso, nesta infelicidade, podemos encontrá-la a renascer como uma espécie de felicidade prevista – extrapolando a nossa sorte do infortúnio dos demais – designada por “gratidão”. A felicidade, sempre evasiva, manifesta-se como uma circunstância antecedente e consequente de si mesma; uma in/evocação simultânea, gerando várias expressões subjuntivas: “se eu fosse [inserir substantivo/verbo/adjetivo], então, e só então, eu seria…”; uma felicidade que entorpece a sua própria atualidade em prol da nebulosa potencialidade de ser mais de si mesma.

Não há, entre todas as suas expressões, uma imagem de felicidade porventura mais intemporal do que o sorriso e a sua variante gráfica, a carinha sorridente. Em Unfucking Titled (fuck), Michael Dean ossifica a felicidade nesta iconografia, convertendo-a num totem de duas cabeças em betão armado. A obra assume-se como uma espécie de ídolo, um objeto fetichista marxista no qual converge a condição e o desejo de felicidade; o seu culto é suficiente para simultaneamente conjurar e afastar a antítese da própria felicidade – encontrando as mesmas funções do seu antecedente imagético, o sorriso icónico omnipresente de Harvey Ball. A imagem análoga e hipercomercializada da obra e o seu meio industrial tornam-na uma obra fetichista, na qual o seu valor, a sua felicidade, está inscrito no objeto, ao mesmo tempo que é alienado desse estado de ser real e pré-existente, à semelhança da analogia de Marx em O Capital, “um objeto é percecionado por nós não como a excitação subjetiva do nosso nervo ótico, mas como a forma objetiva de algo exterior ao próprio olho”. Na base deste fetiche está a marca de um sapato, feito talvez agora de um desejo ardente de nos aproximarmos dele, da felicidade, sem prestar atenção ao meio ainda por definir. Ou talvez seja simplesmente a ingénua alegria de estampar a mão no betão molhado, assinalando uma memória feliz e coletiva da infância. E talvez essa marca seja a delimitação fantasmagórica de uma felicidade efémera, da sua transitoriedade, que a obra se propõe preservar através de uma fossilização e que, ainda assim, se traduz apenas numa feição petrificada. A escultura tem uma natureza orgânica incompatível com a sua composição industrial; os seus sorrisos ondulam e contorcem-se num aspeto grotesco, que ameaça o inquietante. Aqui reside a sua desarmonia estética, pois, caso aceitemos a afirmação de Stendhal de que “a beleza não é mais do que a promessa de felicidade”[ii], é possível que a efígie esteja consciente de que essa procura de felicidade é infrutífera; mais ainda, a felicidade não pode ser preservada, nem mercantilizada – e qualquer tentativa neste sentido transforma-a, como só um olhar por detrás da escultura o mostrará, numa fachada oca. Mais do que olhar para esta “promessa de felicidade”, em busca de mais felicidade, pensemos nas maneiras pelas quais talvez já a tenhamos. Onde é que ela está? E quando? Somos felizes? Em caso negativo, não nos preocupemos, por vezes a felicidade está apenas a um sorriso (ou dois) de distância.

Unfucking Titled (fuck) de Michael Dean está presente na Herald Street (Londres), que acolhe a galeria de Ehrlich Steinberg (Los Angeles) no âmbito da exposição conjunta We’ll Be Your Mirror, para a Condo London 2024. Até 17 de fevereiro.

 

[i] Lana Del Rey, Happiness Is a Butterfly (2019).

[ii] Stendhal, Sobre o Amor (1822).

Myles Francis é jornalista e escritor de arte. Nascido em Londres, vive agora em Lisboa. Já trabalhou para publicações como Nicotine, TANK e Vogue Portugal. Atualmente escreve para a Umbigo Magazine.

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