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Entrevista a Júlia Lema Barros, autora da capa do mês

Júlia Lema Barros é toda ela som, imaterialidade e expansão. A artista que começou no desenho, depressa colocou a imagem em movimento e, desde então, é uma voz em constante reflexão do presente, juntando as peças do ido e do vindouro, num entre mergulhos e convites na materialidade e intangibilidade do real.

Uma prática artística apaixonada pelo espaço, os seus memoriais e história, que vê, mesmo nos locais mais inusitados, a possibilidade de evocar a temporalidade e trazê-la à flor da pele. Brincando na dualidade visibilidade-invisibilidade, dizibilidade-silêncio, à artista interessa-lhe oferecer uma partilha sensível na forma de instalação multimédia ou de escultura imaterial, a qual, uma vez dialogante e inserida no espaço, acorda os fantasmas do lugar e as memórias espaciais que dão voz ao que já foi, e tornam o local, por fim, percetível por inteiro aos espectadores. Eis o poder máximo dos símbolos e da experiência com a obra de arte: reunirem maior energia que o espetáculo impreciso do acontecimento real, detentores de uma força expansiva capaz de absorver o imenso universo da realidade; razão pela qual qualquer significado deles apreendido é riqueza múltipla e multiplicadora da possibilidade. A cada confronto, toda a experiência é verídica e individual. Não se iludam. Qualquer proposta hipotética ou ficcional levantada pelo processo, nada mais nos devolve do que a verdade além das coisas, fatalmente condenadas a ser ruína ou a dissipar-se no vulgar.


Abordar a prática artística da Júlia é falar de experiências multimédia e som; ainda que este percurso se tenha iniciado no desenho e na pintura. Como se deu este caminho e até onde diria que ele a trouxe?

No princípio interessava-me o desenho e a imagem em movimento. Movimento que foi permanecendo sempre comigo, e sofrendo como que um percurso de depuramento em busca da essência do que quero fazer sentir.
Fascina-me a experiência imaterial do som, a maneira particular de descobrir o espaço através de uma peça invisível que está em constante movimento, a sua imaterialidade expansiva. Como esculturas imateriais no espaço, o invisível, um fantasma. Desta forma, num percurso de depuramento criador, o som tornou-se parte fundamental da minha prática, dada a capacidade de sentir em vez de observar. E, desde então, é central nas minhas criações. No entanto, continuo a trabalhar com a raiz do desenho, como se pode ver nas peças/instalações Miau Ufa, encomendadas pelo MNAC Lisboa, onde trabalhei com desenho em movimento, como uma linha em constante metamorfose, invadindo o espaço em eco com a sua sonoridade.

Talvez por invocar essa imaterialidade, o trabalho da Júlia reverbera com frequência o ficcional. O que a atrai em cenários hipoteticamente possíveis? No que não existe, mas se imagina?

O corpo do meu trabalho é o que vai além da realidade, mas não verdadeiramente o que não existe. Isto é, crio narrativas, através das minhas peças, que podem ser cenários hipoteticamente possíveis, porém sempre a testar a realidade. Algo que é visível em Erimos Siopi, a instalação multimédia criada numa gruta na montanha Sainte Victoire, em Aix-en-Provence, onde concebi uma narrativa que partiu e veiculou algo de real e sensível, todavia produzindo uma experiência imersiva e intangível. Neste caso, como noutros, a ficção pode ser sentida pelos espectadores, ainda que não haja um fio condutor sobre uma ‘verdade absoluta’ ou imaginada. Há sim, uma peça de arte que toca em pontos sensíveis de cada observador, fazendo-o sentir a verdade além das coisas.

Dentro desse mundo de ficção, o conceito de ruína está muito presente. Se afirma que a move imaginar futuros possíveis em jeito de explorações imersivas, significa isto que conta com a distopia, com um futuro que trará destruição?

De facto, o conceito de ruína é bastante recorrente no meu trabalho, no entanto não sobre destruição. Não pretendo prever um futuro distópico, tampouco apocalíptico, antes criar peças sensíveis e imutáveis, sublinhando sensações eternas. Trabalho sob a forma explorações imersivas imaginando o passado, refletindo sobre o futuro, mas sublinhando a importância do presente – que proximamente será passado – e, desta forma ambicionando criar ruínas futuras como registo da passagem do tempo. Foi com esta linha de pensamento que criei a instalação sonora Ruines de la Visitation, numa igreja abandonada, marcada pelas suas memórias. Seduzida por trabalhar com um espaço outrora habitado e hoje em ruínas, dando-lhe vida através de uma presença sonora, invisível, como fantasmas do passado, reavivando aquilo que foi e já não é.
Sobretudo num tempo em que somos permanentemente bombardeados pela novidade e a inovação, a estaticidade é fugaz, e as ruínas, enquanto prova de um mundo em constante transformação, permitem-nos a imutabilidade e a perceção de que somos parte do mesmo organismo.

Perante esse apelo à coexistência, podemos inferir que se trata de um gesto artístico que carrega ainda, pelo menos em parte, a consciência de uma preocupação ecológica?

Para mim, dada a sua importância, tem de estar presente. Como artista, sinto que a consciência ecológica é mais do que uma simples postura, é um princípio de vida. Para criar escuto e observo a natureza de forma constante, e quando crio faço sentir a natureza, dando sentido ao que me rodeia.

Outra particularidade que a obra irradia, é um certo fascínio pela memória espacial. Pode explorar um pouco o conceito e de onde vem este interesse?

O meu fascínio pela memória espacial é resultado da interseção de vários interesses. Sempre me interessei por história e lugares históricos; fascinada pela ideia de estar num local onde tantas outras coisas aconteceram, e de sentir essa temporalidade. Encanta-me poder explorar artisticamente histórias, lendas e memorais, através da criação plástica dos fantasmas do lugar, estabelecendo e despontando memórias invisíveis nos espectadores que permitam a perceção do espaço. Assim nasceu a peça Sub Sacellum, fazendo vibrar novamente o espaço como dantes, mas sendo agora e apenas memória imaterial.
Por outro lado, cresci no atelier de dois pais arquitetos, o que me conferiu uma sensibilidade aguçada para o espaço, a sua criação, e a forma como este afeta os nossos sentidos. Advém daí, também, a minha curiosidade por espaços menos convencionais.

É verdade, o trabalho da Júlia acontece regularmente em espaços públicos e até menos expectáveis, em detrimento do formato tradicional da galeria/cubo branco. Que diferenças existe na criação de obras para ambos os formatos e o que a impele a cada situação?

Para mim são formas de criação diferentes. Sinto um forte apelo pelos tais lugares marcados pela história, e ao expor neles fundem-se o espaço e a peça, tornando-se intrinsecamente ligados e, assim, trabalhando como um duo. Nesses momentos as minhas peças são parte inclusiva do lugar, guiando o espectador na perceção do espaço. Acontecendo da mesma maneira quando crio para espaços públicos. Veja-se o caso do Video Mapping Kulturnacht Tübingen, o qual estabeleceu uma ligação direta entre a peça e o edifício. Contudo, é nas galerias e nos museus que sinto que posso experimentar mais livremente a plasticidade da minha prática artística. Como na peça Le Vide, onde o espaço white cube permitiu-me transformar o vazio numa caixa de ressonâncias evocativas, intangível mas presente. Como um espaço imaginário. Diria que o que me impele, em particular, é trabalhar com a flexibilidade do multimédia, experimentando novas formas de conceção.

Multimédia e som são ainda suficientes? O que a move a inovar e procurar novas formas de expressão?

Cada peça tem uma linguagem diferente. O som é uma ferramenta muito plástica por si mesmo, o que me permite criar múltiplas formas de o trabalhar e expor. Serve como exemplo, o contraste da criação sonora de Bells of Distance, na Catedral Wawel em Cracóvia, e Sub Sacellum, no Reservatório da Patriarcal em Lisboa; ambas instalações sonoras decorreram em espaços públicos, usando a mesma ferramenta sónica, e, no entanto, adquiriram repercussões completamente distintas. A procura por novas formas de expressão e de formatos expositivos é contínua, pois cada projeto tem a sua própria linguagem.

Certa de que essa busca estará nos planos, o que mais nos pode revelar quanto ao futuro?

Neste momento tenho vários projetos de naturezas distintas em curso, que se aproximam pela exploração sensível sobre a memória, sonoridades e formas de escuta.
Integro atualmente a residência internacional 7th Extinction, com um projeto que procura traduzir, através do multimédia, as formas da natureza e as suas interações com o universo, reflexo das questões que o próprio nome sugere e levanta.
Estou a produzir duas instalações sonoras para a Bienal de Artes de Aix-en-Provence 2024 – Echos du Passé, uma experiência imersiva entre o jardim de estátuas do Monumento a Joseph Sec e a sala de esculturas do Museu Granet. Igualmente em Aix-em-Provence, fui recentemente escolhida para criar um duplo video mapping no espaço urbano para Chroniques, biennale of digital imagination, explorando a essência da cidade e dos seus habitantes.
E pretendo continuar projetos já iniciados, como por exemplo Sub_Bar, concebido para incluir pessoas surdas na experiência sonora através de explorações hápticas e de subfrequências.

 

 

 

Mestre em Estudos Curatoriais pela Universidade de Coimbra, e com formação em Fotografia pelo Instituto Português de Fotografia do Porto, e em Planeamento e Gestão Cultural, Mafalda desenvolve o seu trabalho nas áreas de produção, comunicação e ativação, no âmbito dos Festivais de Fotografia e Artes Visuais - Encontros da Imagem, em Braga (Portugal) e Fotofestiwal, em Lodz (Polónia). Colaborou ainda com o Porto/Post/Doc: Film & Media Festival e o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Em 2020 foi uma das responsáveis pelo projeto curatorial da exposição “AEIOU: Os Espacialistas em Pro(ex)cesso”, desenvolvido no Colégio das Artes, da Universidade de Coimbra. Enquanto fotógrafa, esteve envolvida em projetos laboratoriais de fotografia analógica e programas educativos para o Silverlab (Porto) e a Passos Audiovisuais Associação Cultural (Braga), ao mesmo tempo que se dedica à fotografia num formato profissional ou de, forma espontânea, a projetos pessoais.

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