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Pedra Sol de Carolina Vieira na Porta33

Foi numa noite de eclipse lunar que inaugurou Pedra Sol, de Carolina Vieira na Porta33, no Funchal. Este fenómeno astronómico que ocorre quando a lua é total ou parcialmente ocultada pela sombra da terra poderia muito bem ser uma das paisagens interiores que Carolina Vieira nos propõem.

O conjunto de pinturas atmosféricas que apresenta na Porta33, denuncia o olhar atento e aguçadamente sensível que se debruça sobre a paisagem e os fenómenos naturais da Madeira, arquipélago onde nasceu e cresceu. Esta exposição é o resultado de uma residência na ilha do Porto Santo que decorreu entre 2022 e 2023 no âmbito do programa “EIRA-contributos para a Escola do Porto Santo e o seu território” que conta com curadoria de Nuno Faria.

Numa entrevista ao Jornal Público, a propósito da sua exposição antológica que teve lugar no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto em 2010, a artista madeirense Lourdes Castro referiu a propósito do seu trabalho, “a minha pintura é esta: o viver, o estar cá”. Penso que o trabalho de Carolina Vieira se prende justamente nesta condição de presença de que fala Lourdes Castro. Uma presença que se traduz num modo de operar “a partir de uma atenção particularmente aguda ao mundo sensível”, citando Nuno Faria no texto que acompanha a exposição.

Carolina Vieira observa a natureza não como um sistema composto por partes, mas enquanto um organismo em permanente mutação que nunca se esgota na sua observação e procura cristalizar essa observação sensorial e íntima através da pintura. Johann Wolfgang Goethe no seu livro O Jogo das Nuvens, observa e descreve as nuvens e os fenómenos atmosféricos em geral. Nele reconhece que “a natureza se abre a certos espíritos” e “comunga íntima e ininterruptamente com certas almas”. Carolina Vieira é sem dúvida uma das almas a que Goethe se refere.

Pedra Sol é, acima de tudo, uma experiência. Uma experiência imersiva, pessoal e íntima, onde o visível remete para o invisível. Esta infinitude dirige-se para um limite não reconhecível. Ecoando as representações da natureza de pintores românticos como Caspar David Friedrich ou William Turner, as pinturas de Carolina Vieira traduzem algo para além do lugar que é representado no sentido de transmitir o sentimento por ele convocado. “Não tento representar a paisagem pela paisagem mas por um estado interior qualquer”, refere.

Sucessivas camadas de tinta acrílica diluída deixam antever mais ou menos a camada anterior permitindo que maior ou menor luminosidade aflore à superfície da tela. Desta sucessão resulta uma profundidade onde nos é possível mergulhar. Profundidade que se torna ainda mais evidente devido à anulação intencional da matéria no suporte. A remoção de quaisquer marcas de pincel ou a anulação do gesto violento de pintar devolve às pinturas o seu estado de silêncio, condição fundamental no trabalho da artista.

Atingir esta condição pressupõe um processo meticuloso e demorado de tentativa e erro do qual resultam várias “pinturas falhadas”. Destas, através de um processo de dobragem, surgem pequenos objetos tridimensionais, que são por vezes conjugados com pedras ou outros elementos que a artista recolheu durante as caminhadas que realizou no Porto Santo. Pinturas-objecto enigmáticas, “erros”, como lhes chamou, ou antes “acidentes”, que se impregnam de sentido perante um olhar e gesto de pintor, neste caso de pintora.

No texto que escreveu para a exposição, Carolina Vieira refere-se ao Porto Santo “como espaço acentuador de fenómenos óticos e sensações pois emana, em toda a sua extensão, uma claridade intensa, por vezes próxima de uma cegueira fragmentada. (…) Ali são as pedras que derramam luz.”

Poder-se-á afirmar que o conjunto de pinturas que apresenta sugere uma reflexão não apenas sobre o lugar – que poderia ser qualquer lugar que não o Porto Santo – mas também sobre nós próprios, sobre o nosso lado mais recôndito, sobre a nossa condição no mundo. Paisagens íntimas, sentimentais, que emergem de um interior profundo onde a pedra se transforma em sol, o opaco se torna translúcido ou mesmo transparente, e onde a escuridão irradia luz, transcendendo-nos através da cegueira.

Para o escultor David d’Angers, C. Friedrich conseguiu transmitir o sentimento de tragédia através da paisagem. As paisagens de Carolina Vieira transmitem-nos o belo, uma luz que nos envolve e apazigua, ao mesmo tempo que nos encandeia, intriga e desafia a voltar a olhar. Um sentimento próximo do sublime. Citando as palavras de Nuno Faria, na conversa aberta que teve lugar a propósito da inauguração da exposição, “o trabalho da Carolina Vieira é de uma pessoa que tem outra idade que não aquela que é a idade física”.

Ao abandonarmos a galeria, a sombra da terra era ainda reconhecível numa das extremidades da lua. Um halo dividido nas cores do arco-íris rodeava o corpo celeste anunciando o dia chuvoso que se seguiria.

A exposição Pedra Sol de Carolina Vieira poderá ser vista até 3 de fevereiro de 2024 na Porta33, no Funchal.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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