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Fora de Registro

A exposição Fora de Registro é a nova individual de Albano Afonso que está patente até ao dia 22 de dezembro na galeria Casa Triângulo, no bairro Jardins, em São Paulo. Os trinta e cinco quadros inéditos que compõem a mostra são fotografias que Albano tem colecionado nos últimos anos. A seleção das imagens abrange uma variedade de temas, mas a exposição tem como princípio a contemplação da condição de estar presente no mundo. É o que Eder Chiodetto desenvolve nos primeiros parágrafos do texto curatorial, onde escreve: “Logo, toda contemplação é também uma (super)visão que ocorre dos olhos para o exterior, mas também para o interior de todos nós. Quando esse circuito entra em funcionamento, estamos próximos de um estado meditativo.”[1]

E completa seu pensamento com dizeres do pesquisador brasileiro Boris Kossoy (1941): uma fotografia traz a tona não a realidade do momento do registro, mas uma segunda realidade, a realidade da superfície impressa em plano bidimensional, sujeita a ser orgânica e simbolicamente alterada na sua travessia temporal em direção ao infinito. (i)[2]

Fora de registro ou falha de registro é um termo usado na fotografia para defeitos de impressão que causa um borrão na imagem. O que, de acordo com Chiodetto, pode ser também o estímulo para a contemplação. As imagens criadas por Albano Afonso apresentam elementos surrealistas, onde a imagem pode não ser exatamente o que aparenta ser, mas é, sem dúvida, uma fotografia. A organização expográfica da mostra poderia ser interpretada como notas musicais, que poderiam ser usadas como trilha sonora para um filme, talvez para Dancer in the Dark (2000), do cineasta dinamarquês Lars Von Trier (1956). Os resultados das imagens que estão sendo apresentadas são resultantes de uma complexa cadeia de modificações e sobreposições. Não é apenas o clique da imagem, mas o desdobramento que este clique pode alcançar e se aproxima a linguagem da escultura.

Em meio a elementos que se repetem, como jardins – nuvens – quadros – mãos do escultor Rodin (1840), um peixe beija seu reflexo sob um céu estrelado, enquanto lixos espalhados pelo chão da Europa são remanejados num altar, arranjos que parecem narrar uma história antiga. A maçã dourada, que brilha no escuro, o couro de uma serpente, as caveiras, o cisne, as uvas e um buquê de flores compõem os cenários. Uma rocha densa e granulada sobrevoa como a pena de um pássaro ou uma memória distante, que parece estar cada vez mais distante. Este jogo de signos no escuro permite que cada visitante se movimente, crie e reinvente novas histórias e percursos durante a exposição.

Diante das imagens trazidas por Albano Afonso, lembrei-me de um texto que está na contracapa do álbum Trem Azul de Elis Regina:

“Agora o braço não é mais o braço erguido num grito de gol.

Agora o braço é uma linha, um traço, um rastro espelhado e brilhante.

E todas as figuras são assim: desenhos de luz, agrupamentos de pontos,

de partículas, um quadro de impulsos, um processamento de sinais.

E assim – dizem – recontam a vida.

Agora retiram de mim a cobertura de carne, escorrem todo o sangue,

afinam os ossos em fios luminosos e aí estou pelo salão, pelas casas,

pelas cidades, parecida comigo.

Um rascunho,

uma forma nebulosa feita de luz e sombra como uma estrela.

Agora eu sou uma estrela.”[3]

Em Fora de Registro, Albano Afonso apresenta fotografias onde as tonalidades de verde, azul e vermelho anunciam o impulso de vida de uma natureza que está prestes a morrer. E expande e desconstrói noções preconcebidas de técnica, realidade e cotidiano, além de abordar a condição performativa do ato de realizar uma fotografia. É possível também criar uma mobilidade psíquica frente a essas imagens.

Tem aquela frase famosa do Proust (1923): “A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos”.

Fica, então, o convite para a viagem.

 

[1] Citação retirada da folha de sala da exposição Fora de Registro.

[2] Citação retirada da folha de sala da exposição Fora de Registro.

[3] Texto de Fernando Faro (1927- 2016) publicado na contracapa do álbum Trem azul (1982) da cantora brasileira Elis Regina (1945 – 1982).

Ian Gavião é artista plástico, curador independente e educador de arte. Licenciado em Artes Plásticas com habilitação em Escultura e Fotografia pela Escola Guignard da Universidade do Estado de Minas Gerais. Pós-graduado em Curadoria de Arte pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH). Apresentou duas exposições individuais, na Casa Fiat de Cultura (2022) e no Sesi Minas (2021), na cidade de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Onde também idealizou o projeto de curadoria independente Xenon. Participou em mostras coletivas e residências artísticas nas cidades de Belo Horizonte, São Paulo e Lisboa, onde vive e trabalha atualmente.

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