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O novo Museu de Arte Contemporânea – MAC/CCB

O novo Museu de Arte Contemporânea – MAC/CCB abriu portas no passado dia 28 de outubro. Com nova imagem e três novas coleções que passam a integrar o depósito do Museu, a expetativa em torno da abertura centra-se também no futuro da Coleção Berardo, que ainda se encontra em processo judicial. Justiça à parte, o MAC/CCB inaugura com três novas exposições: a renovada exposição permanente do piso -1 Objeto, Corpo e Espaço, e as temporárias, Ou o Desenho Contínuo (com obras da Coleção Teixeira de Freitas), e Atravessar uma ponte em chamas, uma individual da artista Berlinde de Bruyckere.

O nascimento do MAC/CCB acontece após a extinção da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Coleção Berardo, devido ao processo judicial que envolve o Novo Banco, a Caixa Geral de Depósitos, o BCP e o colecionar Joe Berardo. Até o processo estar concluído, a Coleção Berardo fica em depósito no CCB por decisão judicial. Na conferência de impressa que antecedeu a abertura do Museu, o ministro Pedro Adão e Silva afirmou que o Ministério da Cultura estará disponível para negociar com quem for quando o processo estiver concluído.

A novidade do MAC/CCB prende-se com a integração de novas coleções que estarão em depósito, a Coleção Holma/Ellipse e a Coleção Teixeira de Freitas, com cerca de 2000 obras. Para além destas, o MAC/CCB fortalece-se com o apoio da Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE). Estes reforços têm como intuito estimular um diálogo mais globalizado da arte contemporânea que não se focará apenas na arte europeia ocidental, como era comum na Coleção Berardo.

Para celebrar a primeira parceria com a Coleção Teixeira de Freitas, o MAC/CCB dedica uma exposição ao grande núcleo de desenho que lhe pertence. A exposição Ou o Desenho Contínuo parte do título do livro Ou o Poema Contínuo (2001) de Herberto Hélder, e mostra a amplitude de expressões que o desenho possibilita. A mostra foi organizada em oito núcleos, onde o espetador é convidado a identificá-los e até contestá-los, pois as linhas que os orientam podem perfeitamente sobrepor-se. Os temas debruçam-se sobre as relações com o corpo, a intervenção política, mapas e esquemas de organização do mundo, a tematização da forma, a relação com a arquitetura, o quotidiano, a escrita como prática de desenho, e os desenhos que refletem conceptualmente sobre o próprio meio. Dos 60 artistas expostos, encontramos nomes como Olafur Eliasson, Gabriela Albergaria, Fernando Ortega ou Mark Lombardi.

O diálogo entra as quatro coleções (Berardo, Holma/Ellipse, Teixeira de Freitas e CACE) acontece na exposição permanente Objeto Corpo e Espaço: A revisão dos géneros artísticos a partir da década de 1960. Num percurso não cronológico, cada uma das 17 salas do piso -1 sublinha o diálogo entre obras formalmente diferentes, mas com temáticas comuns, desde o minimalismo aos discursos pós-coloniais. As origens geográficas ampliam-se, mas as preocupações críticas cruzam-se. Quando se fala sobre o corpo, a portuguesa Helena Almeida entra em conversação com Ana Mendieta, de origem cubana. Quando se reflete sobre o passado colonial, a artista brasileira Adriana Varejão entra em diálogo com David Hammons, artista afro-americano.

No piso 0 encontra-se a exposição individual da artista belga Berlinde de Bruyckere, Atravessar uma ponte em chamas. Nesta mostra, Berlinde de Bruyckere explora a figura do anjo como símbolo de mediação entre o humano e o divino. Entre o desenho, a escultura e a instalação, a cera emerge como um material essencial na construção das diferentes narrativas. O erotismo e a ambiguidade atravessam a obra da artista, que estabelece, também, uma profunda conexão com a história da arte. Essa ligação é acentuada pela presença em exposição da pintura de Lucas Cranach, Salomé com a cabeça de São João Batista (1510), cedida pelo Museu Nacional de Arte Antiga. O ambiente criado por de Bruyckere apela à reflexão e ao silêncio, especialmente na última sala, onde somos convidados a explorar a impactante instalação ALETHEIA [on-vergeten] (2019).

Apesar das incertezas em torno do destino da Coleção Berardo, o MAC/CCB emerge como um polo dinâmico, que nesta nova estrutura entra em comunhão com as artes performativas e com o Centro de Arquitetura/Garagem Sul.

As exposições Ou o Desenho Contínuo e Atravessar uma ponte em chamas estão patentes até ao dia 10 de março de 2024.

Laurinda Marques (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.

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