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Água, desejo e imaginação: a primeira Bienal das Amazônias

A primeira Bienal das Amazônias junta saberes tradicionais a olhares futuros, levando-nos a bubuiar” na floresta mais destacada do mundo.

Belém, capital do imenso estado brasileiro do Pará, acolherá em 2025 a próxima edição da COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Porém, Belém organizou uma reunião preparatória para a COP, que decorreu entre 3 e 10 de agosto, convidando os membros dos estados da Pan-Amazónia (Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela, além do Brasil) para tratar de problemas e soluções em comum.

No evento participaram mais de 20 mil pessoas, lotando hotéis e serviços, e tornando na prática o trânsito da cidade num inferno para a vida de moradores e turistas. Posto isto, será que ainda realmente precisamos de manifestações deste tipo, a provocar tais disrupções na vida das cidades, e despertando, talvez, os seus guardiões sagrados?

A referência, neste caso, é à Boiuna, a gigantesca cobra que vive no fundo dos rios, lagos e igarapés da Amazónia, mas igualmente no subsolo da cidade de Belém, conforme reza a lenda indígena. De facto, acordar e zangar a Boiuna faria desaparecer a cidade, destruída pela potência da fúria da cobra.

Desta herança de mitos e encontro de culturas extraordinárias está repleta a primeira Bienal das Amazônias, patente em Belém até ao próximo dia 5 de novembro.

A Bienal intitula-se Bubuia: Águas como Fonte de Imaginações e Desejos, é curada pelo coletivo feminino Sapukai –grito” na língua tupi -, e ocupa os quatros andares de um antigo prédio, sede de uma loja muito conhecida na cidade.

Acolhendo mais de 120 artistas vindos dos estados amazónicos, a exposição oferece um deslumbrante mapeamento de diferenças, realçando as múltiplas singularidades, propondo pontos de vista para além dos lugares-comuns, e indagando as descobertas de características culturais valiosas, sem cair em poéticas autorreferenciais.

De facto, o cenário é composto por múltiplos corpos, «todos com distintas nuances, aliados a uma linguagem pessoal, que potencializam esse espaço da arte, reinventando potencialmente o diálogo entre os saberes», como ressalta a co-curadora Vânia Leal.

Com uma participação maioritariamente feminina, a Bienal homenageia também a figura da grande fotógrafa brasileira Elza Lima (Belém, 1952). Ao longo de 40 anos de carreira, Elza presenteou-nos com inúmeras imagens a retratar instantes fugazes, mostrando o Brasil profundo e relatando as contradições entre as tradições quotidianas das populações ribeirinhas do Pará e a chegada dos ícones da modernidade às comunidades, a começar pela televisão.

Os seus ensaios fotográficos desvelam a relação afetiva dos moradores com o meio ambiente, com os animais, com as águas, não deixando de mesclar o lado romântico do antigo dia-a-dia com a denúncia das enormes dificuldades do povo em se sustentar.

Entre outros artistas da Bienal, está presente Francisco Domingos da Silva, mais conhecido como Chico da Silva, pintor brasileiro de estilo naïf cujo trabalho está atualmente a ser redescoberto: já exposto pela galeria Gomide&Co em São Paulo, Chico teve também uma exposição individual no Museu de Arte Sacra, em janeiro deste ano.

Das obras de Chico surgem histórias mágicas, animais vindos de pesadelos ou de lendas ancestrais, tais como, justamente, a da Boiuna; o artista emprega no seu trabalho todas as cores exuberantes da natureza amazónica.

Gê Viana (Maranhão, 1986) participa com uma seleção de trabalhos da série Couro Laminado, na qual a artista utiliza a forma do arquivo como elemento de ficção para representar uma nova visão, construída sobre o questionamento da tradicional-colonial iconografia brasileira, misturando vários conjuntos de imagens encontradas sobre a história do Maranhão e de todo o país. Natureza, roupas de festas, cenas de trabalho rural e figuras-ícones da Balaiada, a revolta popular que aconteceu no Maranhão, entre 1838 e 1841, com o objetivo de tentar obter condições de vida melhores para os menos favorecidos, são o acervo sobre o qual Gê Viana constrói os itens de obras cujo apego permanece para além da realidade, mesclando antigo e contemporâneo.

Elaine Arruda e Mestre João Aires são os autores de uma das obras mais impressionantes do evento, quer pela dimensão, quer pela poesia. Artista paraense que vive entre Belém e São Paulo, Elaine trabalhou com o carpinteiro naval João Aires, para criar a grande instalação Tijuquaquara. Do chão até ao teto estica-se um mastro de um navio, ou seja, a longa peça vertical que, nas embarcações, sustenta a vela, a retranca, as cruzetas e o velame. Completamente desprovida da sua função original, a peça remete para as tradições e para as mudanças na prática da navegação dos grandes rios paraenses e amazónicos.

Por fim, vale a pena realçar o trabalho de Ueliton Santana, acriano, cuja instalação Corpos vulneráveis em tempo de crise(2020) evoca os tempos difíceis da pandemia vividos nos recantos mais remotos da floresta, mas também as novas garimpagens e o descuido na tutela dos povos indígenas; uma obra a atravessar «múltiplas identidades, que são fortalecidas a partir de um olhar de dentro para fora, numa produção simbólica através de linguagens diversas», de acordo com o texto curatorial assinado por Vânia Leal.

Consistindo em mais uma possibilidade para entender os nossos tempos para lá de discursos políticos, abrindo as portas a diálogos urgentes e interconectados, esta é uma Bienal cuja presença será igualmente necessária nos próximos anos, para assegurar e relatar a metamorfose do planeta.

Bienal das Amazônias – primeira edição

Bubuia: Águas como Fonte de Imaginações e Desejos

Curada por Vânia Leal e Keyna Eleison

Rua Sen. Manoel Barata, 400 – Campina, Belém – PA, 66015-020, Brasil

https://www.bienalamazonias.com.br

Patente até 5 de novembro de 2023.

Matteo Bergamini é jornalista e crítico de arte. Atualmente é Diretor Responsável da revista italiana exibart.com e colaborador para o semanário D La Repubblica. Além de jornalista, fez a edição e a curadoria de vários livros, entre os quais Un Musée après, do fotógrafo Luca Gilli, Vanilla Edizioni, 2018; Francesca Alinovi (com Veronica Santi), pela editora Postmedia books, 2019; Prisa Mata. Diario Marocchino, editado por Sartoria Editoriale, 2020. O último livro publicado foi L'involuzione del pensiero libero, 2021, também por Postmedia books. Foi curador das exposições Marcella Vanzo. To wake up the living, to wake up the dead, na Fundação Berengo, Veneza, 2019; Luca Gilli, Di-stanze, Museo Diocesano, Milão, 2018; Aldo Runfola, Galeria Michela Rizzo, Veneza, 2018, e co-curador da primeira edição de BienNoLo, a bienal das periferias, 2019, em Milão. Professor convidado em várias Academias das Belas Artes e cursos especializados. Vive e trabalha em Milão, Itália.

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