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O que vemos, o que nos olha. O Lugar do Espectador, no CAPC em Coimbra

« Hubo años en que iba al cine casi todos los días y hasta dos veces al día (…) Años en que el cine era para mí el mundo (…) lo que veía en la pantalla poseía las propiedades de un mundo, la plenitud, la necesidad, la coherencia, mientras que fuera de la pantalla se amontonaban elementos heterogéneos que parecían reunidos por azar, los materiales de mi vida que consideraba desprovistos de toda forma.»[1]

Por várias vezes Italo Calvino saía furtivamente de casa para assistir filmes num dos cinemas de Sanremo onde, sentado à vontade, quase sozinho, absorvia espantado a entrada num outro mundo. A realidade desvanecia-se a cada mergulho no desconhecido infinitamente possível. Na sua obra, o autor recorda o imaginário cinematográfico que o conduzia sem restrições a todas as partes do globo. Filmes que, conscientemente ou não, eram a fuga à sociedade cinzenta que o rodeava e, quem sabe, à própria angústia.

Passados vários anos, o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC) recebe, no pólo Sereia, a exposição O Lugar do Espectador, um encontro entre o percurso de Ana Pérez-Quiroga e HElena Valsecchi e o próprio espaço. O mote, refere-o o curador João Silvério, parte da obra de Italo Calvino Autobiografia de um Espectador, cujo apego memorial do autor à imagem cinematográfica, é agora reinventado pelo curador que propõe o espaço como epígrafe e componente da exposição, síncrono à criatividade artística. Tal como para Calvino a tela era projeção para outras dimensões utópicas e fantásticas, o espaço Sereia é ambos desenho e experiência, contendo em si inúmeras oportunidades além do tátil e do óbvio. Quem já o visitou sabe: a arquitetura aproxima o interior e o exterior. Uma relação orgânica e simbiótica, que estende o Jardim à intimidade do cubo branco, experiência expandida para lá das obras em exposição.

Se na obra de Italo Calvino o quimérico figurado na sala de cinema é paralelo ao quotidiano envolvente, João Silvério toma como ponto de partida a interseção entre a arte e a vida para meditar sobre o nosso lugar enquanto espectador. Não somos nós constantes espectadores de uma narrativa ininterrupta que encontramos diariamente? Não somos nós, assim, passíveis de analisar, apreciar e modificar a nossa postura face a esse contacto? Providos de liberdade de ação e pensamento, não somos nós infinitamente capazes de nos propor a novas experiências dentro do real? Reforçando as ideias de Rancière, que sempre considerou o espectador dotado de uma posição política e teórica, o cinema é o domínio do espectador-amador. A ele pertence – mesmo sem habilidade ou conhecimento particular – a reinvenção e a interpretação de qualquer narrativa, fruto do cruzamento das suas próprias perceções, crenças e memórias. Intérprete ativo, cujo caráter participativo é crucial no regime estético da arte, linguagem viva e não estabelecida que se presta à emancipação: o olhar também significa agir.

Em O Lugar do Espectador, a reconfiguração da arte e do espaço abre ínfimas possibilidades de leitura e de vivência para o espectador, as quais esculpem novos contactos, lembranças e comoções. Enquanto oposto a este, está um sujeito que é espectador ele mesmo do mundo, e um autor que se exprime pela obra: convergência do emocional particular com a sua expressão material.

Primeira sala e a instalação de Ana Pérez-Quiroga As seduções do desejo, alusão à natureza e às conceções culturais que a envolvem. Cinco paisagens habitadas circundam a sala, abraçando diferentes tradições e contextos culturais. 5 Jardins Idílicos, grandes telas em pano de lã representam 5 espaços naturais desenhados pelo ser humano, cujo o caráter contrastante acentua-se pela colagem e a sobreposição de elementos. Desde o Jardin Giverny, de Claude Monet, em França, ao Jardin Majorelle, em Marrocos, consecutivas intensidades e estímulos sensoriais revelam mundos paralelos, entre o físico conhecido (real) e um quadro infinito de afeções humanas, cuja subjetividade reside na experiência individual. Para descortinar cada jardim, haverá decerto um traço por onde a razão possa pegar. A cena inclui ainda um clímax performático com o piquenique instalado ao centro, no qual a toalha estendida, as almofadas, o cesto e todo o aparato da ceia em número par, invoca a partilha entre duas pessoas. A este ambiente naturalmente familiar, confluência de memórias, referências e afetos, acresce o som do movimento da água e dos pássaros, simulacro de um panorama campestre tanto tranquilizante quanto melancólico. Adiante 5 pedrastransmitem mais um cunho natural, cuja disposição e o simbolismo do repetido número 5 pode inferir um lugar de culto. No teto em suspenso, uma tela de algodão pintado anuncia um céu azul que envolve todos os elementos. Mover para fora, diz-nos. É quando se olha a janela e recebe de volta o piscar do néon No te Vayas sob um fundo que, a olhos brandos, também poderia ser pintado (semelhante experiência decorre com a obra Ka na última sala). A transmutação do papel do Jardim a tela a observar introduz significado além das obras; fruto da reconfiguração inevitável do espaço, do percurso e das interações que surgem de uma exposição pensada sob esta dialética arquitetónica.

Na segunda sala O que nos olha de HElena Valsecchi dialoga com Desenlace do acontecimento de Ana Pérez-Quiroga e o pequeno apontamento de La Bissa. No primeiro caso o silêncio reflete-se na suspensão de um objeto aparentemente sensível e desprotegido. Uma ilusória fragilidade que me apercebo advir da referência à urna funerária, a qual se enaltece e distingue das demais: ergue-se visível em vidro, deixando antever um interior vazio. Antecipa-se um culto à ausência. Mas a quê? À morte, que uma urna invariavelmente invoca? Ou à falta dela, já que o seu interior é oco, limpo? O ato de ver só se manifesta ao abrir-se em dois, disse-o Didi-Huberman, a quem a obra deve o título. O que vemos só vale (vive) nos nossos olhos pelo que nos olha; pois o olhar tem os seus próprios “invólucros”. Aqui, vejo uma urna e um ovo, respetivamente; no imaginário comum, fim e princípio. Assim, se fundem morte e nascimento – um desfecho coincide sempre com um começo. E, neste caso, encarar o que mais se teme deixa no ar uma promessa de liberdade. Pela sua superfície vítrea vê-se La Bissa cuja forma, semelhante a uma cobra, usualmente se atribuí a renascimento, renovação e imortalidade. Por sua vez Desenlace do acontecimento revela 14 objetos íntimos, de conhecimento e uso comum, entre a função decorativa (tradicionalmente mais feminina) e um lado intelectual e de ócio (historicamente mais masculino). Ainda que pousados sobre um acrílico vermelho vivo, a tradicional cor da paixão e do desejo, ecoam uma certa insegurança, como se de uma catástrofe se tratasse e os objetos inanimados tivessem sido retirados de um navio submerso após colapso. Inscreve-se, novamente, uma ideia de memória que rememora obra de Valsecchi. Vale-nos a familiaridade dos elementos e do seu propósito, já que nada mais nos é dado a ver do que pistas de um acontecimento. Somos meros observadores de objetos, figurantes anónimos de uma ausência, inexoravelmente de género. O que torna a peça atrativa, mas obscura. Afinal vermelho é também cor de sangue (e sofrimento). APQ TRUNKS & BAGS AFRICA AMERICA ASIA EUROPA OCEANIA #1 reforça o enigma: o típico saco chinês, desprovido da função original, é tanto reflexo da sociedade capitalista de consumo, como perversamente convertido de objeto barato e acessível a obra de arte, reafirmando a importância que a artista impõe nos objetos comuns para uma retórica de autorrepresentação e identidade, e possivelmente aqui, uma interrogação ao mercado da arte. Pela (re)visitação ao passado e às lembranças da vida material, o espectador vai preenchendo os espaços em branco e, assim, adensando significado à obra – participante ativo.

Na última sala, Natura #8, o áudio ouvido no primeiro momento, ecoa no som emanado de Ser Frágil, de Valsecchi, vídeo de iguais características paisagísticas. Porém, o equilíbrio da natureza é aqui interrompido quando os pés descalços quebram sucessivos vidros durante o caminho. Se simbolicamente andar em frente é mudança e compreensão, trata-se então de um rito de passagem. O vidro fragmentado – que se vem a saber provir de molduras devolutas – é ele mesmo reflexo e coletor de tantas outras vidas. Num entre a metamorfose e a rutura, a obra realça que toda a transição, além de implicar vulnerabilidade, origina algo novo. No chão Instantâneo é um encontro entre o mineral e o humano, materializado na forma de mais de vinte esculturas de vidro soprado sobre objetos encontrados durante as caminhadas da artista. Ou não fosse a terra produto de corpos minerais, animais e humanos; que um dia prosperaram e noutro partiram, para regressar ao subsolo segundo um ciclo universal e ecológico. A vida dos corpos é volátil, translúcida e transitória. Como nos relembram as aguarelas de Blessureinscritas com sangue menstrual.

Ao final, uma única certeza: o lugar do espectador define-se no ato da visita.

A exposição, que esteve patente até 29 de julho, voltará a estar aberta ao público de 5 a 23 de setembro.

[1] Calvino, I. (1991). El camino de San Giovanni. Tusquets. Trad. Aurora Bernárdez

Mestre em Estudos Curatoriais pela Universidade de Coimbra, e com formação em Fotografia pelo Instituto Português de Fotografia do Porto, e em Planeamento e Gestão Cultural, Mafalda desenvolve o seu trabalho nas áreas de produção, comunicação e ativação, no âmbito dos Festivais de Fotografia e Artes Visuais - Encontros da Imagem, em Braga (Portugal) e Fotofestiwal, em Lodz (Polónia). Colaborou ainda com o Porto/Post/Doc: Film & Media Festival e o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Em 2020 foi uma das responsáveis pelo projeto curatorial da exposição “AEIOU: Os Espacialistas em Pro(ex)cesso”, desenvolvido no Colégio das Artes, da Universidade de Coimbra. Enquanto fotógrafa, esteve envolvida em projetos laboratoriais de fotografia analógica e programas educativos para o Silverlab (Porto) e a Passos Audiovisuais Associação Cultural (Braga), ao mesmo tempo que se dedica à fotografia num formato profissional ou de, forma espontânea, a projetos pessoais.

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