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Sobre Fertile Futures: Representação Oficial Portuguesa na 18.ª Exposição Internacional de Arquitetura — La Biennale di Venezia 2023

Com a curadoria de Andreia Garcia e a curadoria adjunta de Ana Neiva e Diogo Aguiar

Do Palazzo Franchetti tem-se uma vista privilegiada sobre o Grande Canal de Veneza. As nuvens passam lentamente, tingidas pela luz dourada do pôr-do-sol; os turistas debruçam-se sobre as guardas da Ponte da Academia; as gôndolas passeiam-se sem pressa; os Vaporetto irrompem furiosamente águas adentro. Podia ser mais uma daquelas imagens imortalizadas por Canaletto, com a luminosidade doce e brilhante de uma cidade que toda ela é espanto. Mas uma mancha verde fluorescente pinta demoradamente as águas do canal, expande-se a todos os canais, qual secreção biliosa, excretada por uma vesícula monstruosa e doente. O que era um retrato romântico de uma cidade retirada de um sonho, transformou-se no cenário dantesco do apocalipse moderno, que virá sempre acompanhado de mais fotos, mais entradas nas redes sociais, mais notícias de última hora, porque a vertigem omnicida é sedutora, e a experiência do momento é inconspurcável.

 

Pensar o Futuro é algo inerente à prática da Arquitetura. Habituada a pensar enquadramentos políticos e a fazer uso das ferramentas críticas para propor hipóteses de construção e uso dos espaços e lugares, a Arquitetura é uma disciplina que planeia o tempo e o espaço e se projeta para um futuro incerto, cambiante, onde os fluxos e as matérias vivas com que lida desenvolvem caminhos ambíguos e inesperados.

Importa, contudo, qualificar esse Futuro e debatê-lo, porque não é unívoco e porque o Presente é dúbio e multidirecional, apontando uma série de vetores contraditórios no miasma político que navegamos, no qual o otimismo da construção comum é frequentemente esmagado pelo niilismo demónico da dissolução ou pelo pânico aceleracionista e neorreacionário.

É possível que o Futuro se afigure já determinado. Aparentemente, nada resta senão uma inexorável passividade quanto aos grandes e determinantes acontecimentos globais, quer porque o capitalismo ultraliberal e predador assim o determina, quer porque toda e qualquer teosofia do Tempo nos confronta com os monstros do passado e do futuro, que ora se erguem para nos devolverem a strata escatológica da existência humana. Face ao capitalismo e à atomização das comunidades globais e locais, pouco parece ser possível conquistar. Como refere Mark Fisher, “o lento cancelamento do futuro foi sendo acompanhado por esvaziamento de expectativas”[1], e o acesso às ferramentas de um futuro novo foram confiscadas pelo grande capital. É natural, portanto, que muitos considerem – ou intuam – que nada mais nos resta senão um futuro passado, feito de pequenas variações formulaicas, já experimentadas, porque só essas garantem a perpetuidade do sucesso e do lucro, livre de radicais, dissensos, alteridade. Um futuro, enfim, polido, como uma moeda única reluzente ao sol.

Assente num otimismo de base coletiva e comunitária, aquilo que o projeto Fertile Futures propõe, todavia, é um futuro em tudo diferente destas visões catastróficas – se não mesmo catastrofistas – que se têm vindo a elencar, revendo, para tal, o papel político e comunal da arquitetura e, por essa via, propondo novamente a arquitetura como uma disciplina empenhada em construir um amanhã focado na política dos comuns ou na coisa pública.

Nesta perspetiva, a proposta global de Fertile Futures não poderá deixar de ser encarada como um autêntico Laboratório do Futuro – mote articulador da 18ª Exposição Internacional de Arquitetura, La Biennale di Venezia 2023, desenvolvido pela curadora Lesley Lokko. A construção é posta entre parêntesis, e as ferramentas conceptuais, críticas, dialógicas e mediadoras assumem a dianteira de um debate e de uma disciplina que se libertou do seu ónus antropocêntrico, para abraçar outras realidades materiais, espectrais e não-humanas. Deste modo, Fertile Futures pode ser entendido como um cosmograma do grande mapa cosmopolítico que rejeita universalismos e aceita os limites de uma existência feita de pluriversos, em que a paz nem sempre é possível e o quotidiano político é mais feito de dissensos do que consensos.

Os objetos de estudo – as hidrogeografias da bacia do Tâmega, do Douro Internacional, do Médio Tejo, da Albufeira do Alqueva, do Rio Mira, da Lagoa das Sete Cidades e das Ribeiras Madeirenses – são férteis em conflitos vários de índole económico, ambiental e político. As soluções nem sempre são concertadas, nem sempre obedecem a pensamentos lineares ou medidas simples e claras. Todos partilhamos o trauma da vida moderna. Todos tomamos parte, direta ou indiretamente, das várias feridas que abrimos no planeta. E o que parece muitas vezes ser um problema de impacto local, tem, na verdade, origem em fenómenos globais.

As propostas que os sete ateliers, coletivos e especialistas encontraram para diversos problemas existentes nos territórios Portugueses nem sempre são de entendimento imediato, justamente porque as matérias trabalhadas vão muito para além de uma realidade material, objetual, háptica ou ótica. Não raras vezes, e seguindo o pensamento de Timothy Morton, estamos perante “hiperobjetos” – isto é, realidades complexas cujos verdadeiros contornos são apenas discerníveis através de extensos dados científicos, recolhidos e estudados durante décadas. Dito isto, as propostas são suficientemente diversas para se ter uma visão cabal da prática crítica, problematizante e inventiva da Arquitetura, abordando questões como o reordenamento do território e das atividades agropecuárias, a ressignificação dos lugares e das palavras, os problemas de linguagem ou metalinguagem, o curso dos tempos, a aplicabilidade autónoma, as ferramentas e agenciamentos comunitários, o legado afetivo e a concretização material.

No segundo piso do Palazzo Franchetti, uma linha de água conduz-nos ao longo das salas que recebem os resultados das sete investigações sobre as hidrogeografias. Ao fundo, as águas do Grande Canal de Veneza agitam-se para nos recordarem o objeto de estudo sobre a qual nos debruçamos, simultaneamente matéria de sonhos e de futuros.

Bebendo dos ensinamentos de Álvaro Domingues, o coletivo Space Transcribers concebeu um projeto que parte da análise territorial e das novas tecnologias de impressão tridimensional para chegar a uma performance coletiva, segundo a qual se desconstroem a Bacia do Tâmega e as realidades apensas à água – a água como composição química, a água como mercadoria e a água como recurso vivo e vivente. O resultado apresentado é um registo e arquivo de vários meses de investigação e de trabalho próximo com as gentes locais, que serve de base para desbloqueadores de debates sobre as práticas de gestão dos recursos hídricos.

Conduzido pelo Dulcineia Santos Studio e baseado no estudo de João Pedro Matos Fernandes sobre os lameiros enquanto reservatórios de água e de futuros, o Laboratório Douro Internacional devolve-nos as capilaridades de um subsolo feito de raízes, lama, sedimentos e murmurações. A instalação de telhas, feitas com recurso a barro e a raízes de freixo, apresenta uma ordem apolínea a uma realidade caótica e invisível ao olho humano, naquela que será a proposta mais imersiva e sensorial do conjunto.

Num diálogo com Érica Castanheiro, Guida Marques concebe um manifesto sentido ao rio da sua aldeia, preenchendo as paredes com interrogações e palavras de ordem. Entre o ativismo e a poética do afeto, as vozes de Marques ecoam bem perto, por vezes em jeito de elegia, por vezes em jeito de indignação.

Especulando sobre um futuro árido, em que a superfície da terra alentejana estala com o calor sufocante, o atelier Pedrêz simula um protótipo capaz de regenerar os solos para que voltem a conseguir absorver e armazenar água, numa hidrogeografia e paisagem – a do Alqueva – que, como Aurora Carapinha sublinha, foi largamente “moldada a partir das dinâmicas naturais e culturais”.

Em parceria com Eglantina Monteiro, o Corpo Atelier trabalha o aqueduto enquanto estrutura “rememorativa” de uma distribuição mais ou menos democrática da água, numa região a braços com a agricultura intensiva e a escassez de água. O aqueduto é aqui recuperado como símbolo secular do engenho humano, que se ergue sobre a paisagem e a desenha, ficcionando o curso dos tempos, confundindo-os e lançando-nos numa espiral temporal que ora regride ora progride.

A proposta do Ilhéu Atelier secunda-se na investigação de João Mora Porteiro sobre o impacto da chamada monocultura da vaca, responsável pela deterioração da qualidade da água da Lagoa das Sete Cidades. A ironia é o recurso crítico usado pelo atelier para se repensarem as questões identitárias, a paisagem, o pastoreio e o desequilíbrio ambiental gerado pelas culturas intensivas.

Nas ribeiras madeirenses abunda o trauma das cheias e de um território ocupado e humanizado em contingência com a imprevisibilidade da Natureza. Fazendo uso da “Memória (crítica) da Água” de Ana Salgueiro, o Ponto Atelier desenvolve uma nova estratégia de caminhos de água por forma a conciliar essa memória traumática com as necessidades atuais do território.

De facto, sempre que tratamos da paisagem, da água, da Natureza, há um defeito cultural que impede a mente de alcançar a verdadeira profundidade dos fenómenos. A Romantização da Natureza, largamente debatida por Timothy Morton, é um entrave na forma como lidamos com a mesma. Gaston Bachelard deparou-se com algo semelhante em A Água e os Sonhos. Para compreender a complexa natureza material da água através da imaginação e das imagens poéticas, Bachelard viu-se obrigado a desbravar marés para além dos “jogos superficiais das águas” que assaltaram os poetas e sonhadores ao longo dos séculos. Neste contexto, para estudarmos a água é preciso compreendermos que ela “é também um tipo de destino […] – um destino essencial que metamorfoseia incessantemente a substância do ser”. A água não é apenas sedução, não é apenas matéria de que dispomos. A água não é apenas vida. É também morte e sofrimento.

O que o projeto Fertile Futures nos mostra é esse “heraclitismo” imanente à água, que é simultaneamente “órgão do mundo” e “corpo das lágrimas” e só dessa forma “a água nos aparecerá como um ser total […], uma realidade poética completa”, para além das “metáforas comuns, fáceis, abundantes”[2].

Em suma, não estamos diante de uma mera leitura territorial. Com a curadoria de Andreia Garcia e a curadoria adjunta de Ana Neiva e Diogo Aguiar, Fertile Futures teve a ousadia de propor formas e modos de resolver problemas, sublinhando o papel fundamental da disciplina da arquitetura na mediação de questões complexas, que envolvem naturalmente um domínio geral, ou generalista, das várias ciências do conhecimento.

 

O país dos “outros”

O Laboratório do Futuro concebido por Lesley Lokko é o triunfo da criatividade transformadora sobre a institucionalização, da prática sobre a teoria, do espírito comunitário sobre o individualismo. Enfim, se alguma polémica se puder permitir, do Sul Global sobre o Norte Global – porque, efetivamente, esta é uma bienal sobre os países dos “outros”, dos que não têm representação oficial, dos que não têm pavilhões ou estrelas da arquitetura com os quais se identificar, dos que projetam os seus lugares do mundo a quilómetros de distância do seu país natal, numa arquitetura de meios não menos significante. Este laboratório é um ensaio sobre a desformatação e a informalidade, feito de boas vizinhanças e gestos – uma moratória para a diferença e o que não é óbvio. Do Afrofuturismo às práticas coloniais, pós-coloniais e neocoloniais; do capitalismo extrativista às novas materialidades; do potencial tecnológico emancipatório à redescoberta da ancestralidade; da diáspora africana aos que escolhem ficar e tomar parte de uma realidade fragmentada e bélica, esta é uma bienal cujas exposições principais mostram um mundo para além das mediáticas conquistas e realidades ocidentais, arriscando novas práticas e leituras críticas da vida na Terra.

Nas representações nacionais, este mote é vagamente seguido pelos curadores, que procuram responder às cambiâncias do tempo com um certo experimentalismo radical e materialidades, práticas espaciais e construções igualmente surpreendentes. Dos agregados de madeira com micélios do pavilhão belga, à arquitetura do teatro sonoro e aural da França, da literalidade do Pavilhão Alemão, que transforma o seu pavilhão num work-in-progress imenso, do apelo ativista da Espanha para se repensar a agricultura intensiva e a alimentação, às surpreendentes gravuras distópicas do sistema capitalista do Pavilhão da Holanda, há um manancial soberbo de propostas e reflexões que procuram a construção – sempre otimista – de um amanhã, se não perfeito, pelo menos mais justo e igualitário.

 

* Fertile Futures pode ser visitado até 26 de novembro, no Palazzo Franchetti, em Veneza. Até lá, o projeto tem programadas uma série de conversas nas Assembleias do Pensamento para se discutirem as várias propostas e o tema das hidrogeografias. Para mais informações, consultar o website do projeto ou a conta de Instagram.

 

[1] Fisher, Mark (2020). Fantasma da minha vida. Escritos sobre depressão, hantologia e futuros perdidos. VS. Editor e Verso. P. 35

[2] Bachelard, Gaston (2018). A água e os sonhos. Ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo, Editora WMF Martins Fontes Lda. Pp. 6-17

José Rui Pardal Pina (n. 1988), mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Curador do Diálogos (2018-), um projeto editorial que faz a ponte entre artistas e museus ou instituições culturais e científicas, não afetas à arte contemporânea.

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