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Ouve-se na paz da Terra o urdir do tempo. Mater no Pavilhão Branco em Lisboa

E em ti /

principiam o mar e o mundo.[1]

Terra, matéria, mãe, útero. Tudo um só que é semente. Desde o início a ser início. Transversal ao tempo, a terra germina – origina, expande, edifica lugar e paisagem. Assim criaram Virgínia Fróis, Marta Castelo e Maja Escher um corpo de trabalho que se materializa na exposição coletiva Mater, patente no Pavilhão Branco das Galerias Municipais de Lisboa até ao dia 11 de junho de 2023, com curadoria de João Rolaça, membro da Oficinas do Convento.

Análogas ao apego e ao mergulho afetuoso à terra e a todos os elementos que compõem o Natural e o Homem, estão três mulheres, três gerações distintas, e uma passagem de testemunho. Que nos relembra o movimento contínuo do relógio, e, igualmente, a evolução de um trabalho e da sua estética, se este obedece ao que da terra se colhe. O projeto nasce da amizade próxima entre o curador e as artistas; cuja sintonia é evidente na exposição através da coerência conceptual, de valores e de intentos. Em comum a relação profunda com o meio envolvente, num gesto que encontra e acolhe as suas matérias-primas, nunca produzidas artificialmente. A distingui-las, a prática que lhes é instintiva, particular, e o sentido das questões que anunciam.

A terra é um palácio que olha para cima,

o céu é um palácio que olha para baixo.[2]

Virgínia Fróis e a analogia do poço. Debruçando-se sobre o que é profundo, sobre o que é preciso despontar. Um corpo de trabalho a meias com a intimidade e uma experiência sensível da natureza através de um gesto que traduz o mundo interior e exterior. Entre o céu e o solo, está o poço e nós mesmos. Ser Humano é um ser entre a dimensão etérea (espelhada pela água desse reservatório) e terrena (aquela que os pés tocam e o corpo alcança). Reflexo de um é reflexo do outro. O Homem espelha a natureza da qual é parte integrante. É pela metáfora que a artista aviva esse organismo vivo, plural: os nossos processos pessoais acompanham o regime da natureza. Na exposição vemo-lo numa malha referencial que articula elementos e espaços: a água pontua o solo argiloso, a obra pião complementa-se com a água que lhe ocupa o cerne, e o esqueleto de abrigo preenche-se de carne com o nosso olhar. Estamos perante um todo simbólico, mais do que emotivo, visceral. A terra revolve e evolve. O poço é o espelho de céu, assim apelidado por Virgínia Fróis, é uma ode à herança ancestral do Homem que aprendeu a ler a natureza. Mater. Onde todas as matérias são primordiais – sal, cera, água, palha, ramo, osso – peões de uma geologia imemorial que desvendam onde e como tudo se principia, a única certeza a par de um presente invariavelmente efémero e de um futuro às mãos da impermanência do mundo. Sente-se a passagem das estações. Disse-o a artista “Mater, dar à luz… Mater, dar à terra”.

Marta Castelo pergunta à matéria o que se pode dizer a partir da sua qualidade inerente. Nunca vai contra a sua natureza, prefere abraçar todos os estados de espírito sejam lama, pó ou pasta, sólido ou líquido, cru ou cozido. A artista sabe que aceitar a volubilidade dos elementos é tocar a sua essência, aquela que só se manifesta inteira entre estados de transição.

A escrita da cidade, como lhe chamou, encontra nos tijolos as letras necessárias à composição das cidades, levando marcadas no corpo as inscrições que os singularizam. A emergência da escrita coincide com a eclosão das cidades, ambas inspiram o pensamento e incitam à fundação do mundo que hoje ocupamos. Neste pensamento audível sobre a terra e a construção do humano, entre o momentâneo e a fixação, os tijolos edificam espaços de existência. Quando as letras cresceram em torno da terra, quando a agricultura transformou o solo, uma cidade ergueu-se do chão.

Acima dela, convergem diversos desenhos em papel, laivos de espontaneidade e uma aura de artefacto.  São múltiplos abraços, pontos de abrigo. Pintados com barro e que surgem como que catalogados, cada um deles uma geometria expressiva que balança entre o rigor da linha e a audácia da forma. Em verdade, o desenho está por todo o lado. Como disse a própria artista “Ele nasce primeiro do chão mas também se encontra nos objetos modelados e no papel.” (…) “Os desenhos são alfabeto inacabado de uma linguagem escrita no mundo. O desenho é um gesto que anuncia o nascer da forma.” Para Marta Castelo Mater é casa. Para alçar esse ponto de refúgio “observemos melhor a natureza”.

Maja Escher carrega consigo o baixo Alentejo, ele que é partilha de memórias de infância e sangue do passado. A região, vítima de um marcado desequilíbrio pela escassez de água, é aqui presente que importa exaltar. O intuito é a mobilização comunitária, unida pela defesa e a regeneração ecológica. O que significa a quebra de um ecossistema? Que impacto tem na vida humana e não humana naquele território e na sua diversidade? Na permanência no lugar? Coexistimos nós, o outro e a paisagem. Nenhum sistema biodinâmico é simples ou singular. As mensagens são baluarte na parede, apontam direções e soluções poéticas para o que hoje se insinua complexo e iminente. Grito que é manifesto. Só não o ouve quem lá não está. Com a estética que lhe é característica e de consciência sempre viva e direcionada ao telúrico, Maja Escher é um entre a instalação e a investigação, o passado e o presente. Para discutir o que é de agora, debruça-se nos saberes do vernacular, move-se num sentido espiritual, pela experiência intuitiva derivada do conhecimento da terra e dos elementos naturais, espécie xamanismo que coloca o Homem a par do envolvente, enquanto componente dele mesmo. Quantas vezes dorme a água? é o convite da artista para este ritual que parte do primordial e do nativo para dar ênfase à urgência do ato cooperativo e de respeito; nunca menor do que o apelo-alerta que o antecede. Mater é amor ao território, é preservar a origem. É não deixar adormecer.

Mater, co-produzida pelas Galerias Municipais / EGEAC e as Oficinas do Convento, exprime igualmente a missão, o exercício e os frutos desta associação cultural. Aquela que, da mesma maneira e desde sempre, se relaciona intimamente com o contexto – a paisagem e a comunidade a que pertence – num trabalho que se forja do conhecimento técnico-científico investigado e oficinal, e da intuição e da prática encontradas no campo e que lá se aperfeiçoam.

Três mulheres, três gerações distintas, e uma passagem de testemunho que reconhece no “fresco da argila a probabilidade de germinação”, palavras de Virgínia Fróis. A terra é concomitantemente o ponto de partida, o ponto de chegada e o caminho das artistas. Mater: há tempo de sermos mais, mas reconheçamos que desde o início somos um.

[1] O amor em visita, Herberto Hélder. Poesia Toda. (1958)

[2] Canções Malgazxes, Herberto Hélder. O bebedor nocturno. (2015).

Mestre em Estudos Curatoriais pela Universidade de Coimbra, e com formação em Fotografia pelo Instituto Português de Fotografia do Porto, e em Planeamento e Gestão Cultural, Mafalda desenvolve o seu trabalho nas áreas de produção, comunicação e ativação, no âmbito dos Festivais de Fotografia e Artes Visuais - Encontros da Imagem, em Braga (Portugal) e Fotofestiwal, em Lodz (Polónia). Colaborou ainda com o Porto/Post/Doc: Film & Media Festival e o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Em 2020 foi uma das responsáveis pelo projeto curatorial da exposição “AEIOU: Os Espacialistas em Pro(ex)cesso”, desenvolvido no Colégio das Artes, da Universidade de Coimbra. Enquanto fotógrafa, esteve envolvida em projetos laboratoriais de fotografia analógica e programas educativos para o Silverlab (Porto) e a Passos Audiovisuais Associação Cultural (Braga), ao mesmo tempo que se dedica à fotografia num formato profissional ou de, forma espontânea, a projetos pessoais.

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