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Paulo Brighenti e David Correia Gonçalves de Braço Cruzado: corpos que pulsam no tempo do mundo

Lisboa, 1968. Porto, 1987. Duas paisagens e quase duas décadas separam, fisicamente, Paulo Brighenti e David Correia Gonçalves. Encontram-se a meio do caminho, entre o desenho e a escultura, na aldeia de Maceira. Depois, na Brotéria. Braço Cruzado, inaugurada a 31 de março, confronta três novas criações de ambos os artistas, colocando-as a dançar pelas três salas de exposição no primeiro piso do espaço cultural.

Num “lugar de intensa simbiose” [1], reconhecemos nos traços já familiares de Brighenti e David uma tensão qualquer que os aproxima como se já há muito tempo criassem lado a lado. E criam, de facto: se os seus temas de predileção podem, naturalmente, diferir de acordo com o domínio artístico e a intenção por trás de cada obra, as questões que emergem dos seus trabalhos parecem afunilar-se, pouco a pouco, numa mesma atenção peculiar aos materiais, nas leituras que evocam acerca da natureza e numa experimentação livre por entre as definições e os limites do meio – seja este o abstracionismo ou o figurativismo, a pintura, o desenho, a escultura, instalação ou performance.

Tudo está posto logo ao início da mostra. O nosso percurso por Braço Cruzado é imediatamente atravessado por um grande Tronco (2023) na forma de papel, madeira e grafite, trazido à vida – ou dela extraído – pelas mãos de David. O objeto escultórico, uma espécie (e qual espécie?) de natureza morta, é prova viva do princípio da conservação de massas de Antoine-Laurent de Lavoisier, uma máxima de conhecimento geral: “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. É este o paradoxo sustentado pelas obras do artista portuense e, como veremos, também de Brighenti: há um “tempo levantado, inserido no corpo” [2], que tem em si toda a memória da matéria recolhida, moldada, processada, impressa. Todos os sonhos do mundo.

É como se os mesmos meses de crescimento daquela árvore trazida à Brotéria, que só podemos conhecer através das texturas reveladas por debaixo do desenho-pintura cinzento de David, estivessem condensados nos meses em que o braço exauriu o grafite, e o grafite exauriu o braço. Agora, vibra como obra que se oferece ao olhar passageiro e pele que convida a um toque ancestral. “Meu próprio tempo em lascas: um pedaço de memória, essa coisa não escrita que tento ler; um pedaço de presente, aqui, sob meus olhos, sobre a branca página; um pedaço de desejo, a carta a ser escrita, mas para quem?” [3].

Talvez seja endereçada a nós, talvez a um passado-presente partilhado, em vias de desaparecer. Talvez à Mãe (2021-2023). As criações de Paulo Brighenti parecem acrescentar um contraponto: afinal há, sim, algo que se perde fundamentalmente com cada morte material – humana, animal, vegetal ou, até, mineral. Desaparecem as anedotas e os detalhes, desaparecem os nomes, as travessias, os timbres e as melodias das vozes. Desaparecem ecossistemas biológicos e emocionais inteiros, os quais nos cabe apenas a tentativa humilde de reconstituição e homenagem. Penso que esta será uma das interpretações possíveis à série do artista lisboeta, que inclui uma bonita “rocha” de betão a flutuar numa das paredes e a dar à luz uma planta como que plastificada, petrificada: somos testemunhas de diversos mundos que, a todo instante, se fragilizam mais e mais. Uma escolha se impõe – “Conservarei? Guardarei? Esquecerei?” [4].

Assim, ao descobrirmos a última sala, que nos reserva a obra homónima da exposição, já entendemos que o Braço Cruzado não se refere apenas à fértil colaboração entre Brighenti e David. Na verdade, celebram-se todos os cruzamentos multiatores que participam das suas jornadas e aventuras artísticas: as histórias familiares, as pedras, as abelhas sobreviventes, as águas imprevisíveis da chuva, os óleos de linho e de papoila, os fornos que metamorfoseiam a argila em cerâmica, e, suspeito, anti-inflamatórios para tendinite. Neste campo de disputas complexo que é a arte, forjam-se relações difíceis, profundas e irresolutas para com o artificial e o natural, o meta e o físico – todos estes corpos e agentes que, vivos ou não, colocam inquietações e incitam movimentos. Quantificar ou apreender esta imensa energia física e espiritual com que convivemos é impossível – basta dizer, por agora, que Braço Cruzado chega bem perto.

A exposição está patente na Brotéria, em Lisboa, até 4 de maio de 2023.

 

 

 

 

[1] Folha de sala da exposição.

[2] Idem.

[3] Didi-Huberman, Georges. (2017). Cascas. São Paulo: Editora 34, p. 10.

[4] Id. Ibid., p. 10.

Laila Algaves Nuñez (Rio de Janeiro, 1997) é investigadora independente, escritora e gestora de projetos em comunicação cultural, interessada particularmente pelos estudos de futuro desenvolvidos na filosofia e nas artes, bem como pelas contribuições transfeministas para a imaginação e o pensamento social e ecológico. Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Cinema (PUC-Rio) e mestre em Estética e Estudos Artísticos (NOVA FCSH), colabora profissionalmente com iniciativas e instituições nacionais e internacionais, como a BoCA - Biennial of Contemporary Arts, o Futurama - Ecossistema Cultural e Artístico do Baixo Alentejo e, enquanto assistente de produção e criação de Rita Natálio, a Terra Batida.

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