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Quero um dia em que não se espere nada de mim

Os temas da solidão e do isolamento, são cada vez mais relevantes na sociedade contemporânea, sobretudo depois de termos passado pela experiência coletiva da pandemia de COVID-19. Todos nós já experienciamos a solidão e o isolamento, seja em forma de sensações passageiras ou sentimentos mais profundos de desconexão com o outro. São sentimentos universais e atemporais, recorrentemente tratados pelos artistas ao longo dos séculos. Na Appleton a exposição Quero um dia em que não se espere nada de mim debruça-se sobre esta temática e conta com a participação dos artistas Bert Timmermans, Horácio Frutuoso, Isabel Cordovil, Joana Ramalho, José Carlos Teixeira, Luís Barbosa, Mag Rodrigues e Pedro Lagoa.

Este retrato contemporâneo da solidão, inicia-se com a obra Isobel (2022) de Isabel Cordovil. A peça é um estojo em bronze, destinado a guardar dois revólveres. Cordovil deixou-o aberto, deixando-nos ver a silhueta dos dois revólveres que outrora continha, e que pertenciam ao seu avô[1]. A obra parece-nos uma reflexão pessoal sobre a história da sua família. A decisão da artista de fundir o estojo em bronze, material tradicionalmente associado a monumentos e memoriais, eleva a peça ao estatuto de escultura de comemoração. A violência sente-se mesmo na ausência dos revólveres.

Mais adiante, José Carlos Teixeira mostra o vídeo-ensaio On Exile (2016-17), que explora a depressão através de entrevistas a várias pessoas que compartilham as suas histórias pessoais sobre esta doença. On Exile mostra-se um testemunho da vulnerabilidade humana e da complexidade de uma doença difícil de definir. O filme é um relato profundamente pessoal das angústias de cada pessoa, mas também uma declaração política e social sobre o impacto da depressão nos indivíduos, comunidades e na sociedade como um todo.

Numa outra perspetiva sobre o isolamento temos a obra de Luís Barbosa, Estabelecimento Prisional da Guarda (2016), uma fotografia a preto e branco que mostra o interior de uma prisão. Na imagem não vemos pessoas, mas a sua ausência sente-se intensamente. É um trabalho que levanta questões sobre o isolamento e a punição, mas também sobre a forma como as instituições prisionais podem contribuir para o sentimento de solidão e desconexão com o mundo exterior.

Um outro destaque vai para a obra de Joana Ramalho mental illness is no joke (2020). Aqui, a frase que dá título à obra, é escrita repetidamente numa pequena página exposta na parede. O uso da repetição, cria um sentido de urgência em torno da necessidade de abordar a saúde mental. Já a Iluminação da obra, é feita com uma luz que cria um efeito holofote, chamando a nossa atenção para a página, e iluminando a necessidade de refletir sobre os estigmas que temos acerca de doenças mentais.

Por fim, Horácio Frutuoso apresenta no centro da sala de exposições a obra Sozinhx (2018), onde num tapete é inscrito a palavra que dá título à obra. Em letras grandes e negrito, a obra instalada no chão da galeria, desafia as nossas suposições sobre espaço e sentimento de pertença. Ao pintar a palavra “sozinho” num tapete, objeto doméstico frequentemente associado ao conforto e aconchego, o artista justapõe o sentimento de solidão e conforto, criando uma sensação de tensão e ambiguidade.

Por meio de uma série de obras que exploram o tema da solidão e do isolamento, Quero um dia em que não se espere nada de mim, oferece um espaço de reflexão e discussão sobre estas experiências. As obras convidam-nos a considerar as formas com que o isolamento e a solidão se manifestam na nossa vida e à nossa volta. Ao mesmo tempo, mostra-nos diferentes modos pelas quais a arte pode contribuir para a nossa compreensão sobre estes assuntos. Já o título da exposição, exprime o desejo de um dia sem expetativas nem exigências, um desejo de rutura com as pressões do quotidiano. Desta forma, Quero um dia em que não se espere nada de mim transmite um sentimento que pode ressoar em quem se sente desconectado ou isolado.

A exposição faz parte do programa Atlas da Solidão com curadoria de Marta Rema, está patente na Appleton até ao dia 29 de abril de 2023.

 

 

 

[1] Ana Grebler em “A Matéria é Soberana de Isabel Cordovil na Uma LuLik__”, disponível em: https://umbigomagazine.com/pt/blog/2022/12/06/a-materia-e-soberana-de-isabel-cordovil-na-uma-lulik__/

Laurinda Marques (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.

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