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Do outro lado do espelho: waters of night, de Pádraig Timoney

Diz-nos a comunicação oficial em torno de waters of night, a primeira exposição individual de Pádraig Timoney em Portugal, que o artista irlandês “traz a Lisboa uma nova nuance da sua investigação sobre a construção da imagem”. Ao deparar-se com os vários espelhos materializados pelo próprio e as pinturas que se equilibram entre a abstração e a figuração, o visitante da Galeria Zé dos Bois pode, talvez, inferir que esta se trata de uma pesquisa apenas formal, que se vale da mecânica imagética para compor uma narrativa metalinguística — uma exposição para outros artistas visuais.

Contudo, na mesma folha de sala, a convocação de trechos do livro A Morte de Virgílio dá-nos a pista de que a questão, ali, será muito maior. Nesta meditação lírica do austríaco Hermann Broch, os momentos finais de Virgílio, autor da Eneida, são povoados pelo receio e rancor de que a sua obra seja, na verdade, uma ode vazia à própria beleza. O narrador recorda-nos: “[…] bem acima da lei do artista, que apenas anseia pela harmonia, está a lei da realidade”. Portanto, mais do que uma ponderação circunscrita ao campo da arte, cuja preocupação seria desvendar os limites e a essência do pictórico, Timoney parece estar interessado numa indagação também de outra ordem: o que pode uma imagem? O que acontece no seu ponto de contacto com o real e para quais outras dimensões da vida interior e exterior ela nos pode transportar?

Penso, aqui, nas outras cosmologias e mitologias que compreendem a figura do espelho, para além de uma ideia de reflexo que apenas desloca o Mesmo para outro lugar, fixando as usuais inquietações ocidentais sobre cópia, falsidade e originalidade. Dessa obsessão pelo autêntico, nasce um duplo risco: por um lado, o excesso de crença na imagem enquanto signo máximo da verdade, e na sua suposta eficácia imediata; por outro lado, o ceticismo em considerar que a imagem não tem poder algum, e que o seu destino só pode ser desaparecer. De repente, sou acometida pela constatação de que os 15 vidros espelhados a mão pelo artista, assim como os outros seis Broken e dois Half-broken Mirrors, não participam do mundo lacaniano dos espelhos – não são ferramentas para a identificação primária de Um consigo mesmo.

Remetem, na verdade, para uma noção complexa de imagem e de visão, com infinitas mais nuances e potencialidades do que poderíamos depreender inicialmente. Relembro, por exemplo, que, na civilização asteca, os espelhos funcionavam como mediadores de práticas divinatórias – instrumentos que, em vez de reproduzirem um registo visual fiel à realidade conhecida à nossa volta, ofereciam um vislumbre profundo daquilo que não vemos ou conhecemos. Fitar o negro sedutor das obsidianas, rochas a partir das quais estes objetos mágicos eram produzidos, significava entrever profecias, deuses e espíritos ancestrais. Espelhos que só revelavam a sua imagem, ainda que fragmentada e nebulosa, às pessoas que exercitavam a sua habilidade de enxergar – tocar, ouvir, sentir e provar com os olhos. Espelhos cujas imagens são portais para o passado, para o futuro, para o visível e o invisível.

Talvez seja assim, com muito treinamento, que possamos ver novamente através das superfícies “quebradas” e turvas de Timoney. Ali onde residiam reflexos, este artista-alquimista – que domina as águas noturnas e a química da fabricação de espelhos – concede-nos menos imagens do que o próprio ato de imaginar. Curioso, nesse sentido, é descobrir que grande parte das obras nesta exposição – coproduzida com o espaço Indipendenza, em Roma, onde foi apresentada originalmente em 2022 – foi feita durante a primeira vaga do Coronavírus. Num contexto de deslocamento, que levou o artista de Nova Iorque a Berlim, e de isolamento, que provavelmente o levou para um espaço qualquer entre quatro paredes, Timoney reencontra o espelho não como um dispositivo de replicação (do real, da beleza, da vida, da arte, do igual, da doença, do banal), mas, sim, como uma passagem a outros planos, terrenos e tempos. O que pode uma imagem?

waters of nightcom curadoria de Natxo Checa e Gérard Faggionato, foi inaugurada na Galeria Zé dos Bois a 21 de janeiro de 2023 e está patente até 22 de abril.

Laila Algaves Nuñez (Rio de Janeiro, 1997) é investigadora independente, escritora e gestora de projetos em comunicação cultural, interessada particularmente pelos estudos de futuro desenvolvidos na filosofia e nas artes, bem como pelas contribuições transfeministas para a imaginação e o pensamento social e ecológico. Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Cinema (PUC-Rio) e mestre em Estética e Estudos Artísticos (NOVA FCSH), colabora profissionalmente com iniciativas e instituições nacionais e internacionais, como a BoCA - Biennial of Contemporary Arts, o Futurama - Ecossistema Cultural e Artístico do Baixo Alentejo e, enquanto assistente de produção e criação de Rita Natálio, a Terra Batida.

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